Prévia do material em texto
MED – 02/03/2016 Liz Yumi Saguti SÍNDROME ÁLGICA - DOR ABDOMINAL ABDOME AGUDO Clínico x Cirúrgico CLÍNICO CIRÚRGICO Intoxicação pelo chumbo Porfiria Febre tifoide Apendicite Diverticulite Pancreatite Isquemia mesentérica Colecistite INTOXICAÇÃO PELO CHUMBO (SATURNISMO) Fonte de exposição: mineradoras, baterias, indústria automobilística, tintas, projéteis de arma de fogo, destilados clandestinos (moonshine) Manifestações clínicas Gastrointestinais dor abdominal/ náuseas/ vômitos/ anorexia Hematológicas anemia hipo micro/ pontilhados basofílicos* Renais nefrite intersticial proximal Neurológicas encefalopatia/ dificuldade de concentração Outras HAS, gota, infertilidade, deposição da gengiva – linha gengival azulada (linha gengival de Burton) (*)Obs: o chumbo (assim como o cobre) em excesso causa hemólise >> quando há hemólise, como uma forma de compensação, a medula começa a jogar reticulócitos para a circulação (presença de células com pontilhados basofílicos). O chumbo também dificulta a síntese de hemoglobina, de maneira que podemos ter anemia hipomicro (diagnóstico diferencial: presença de pontilhados basofílicos, história de exposição) Sobre a dor abdominal: interfere no metabolismo, levando ao acumulo de mediadores tóxicos. O chumbo inibe as enzimas da síntese do heme, acumulando precursores desta via (porfiria). Diagnóstico ● Dosagem de chumbo sérico (a partir de 25 mcg/dl) ● Outros achados: nefrite intersticial/ HAS/ gota Tratamento ● Interromper a exposição ● Quelantes do chumbo: dimercaprol/ DMSA/ EDTA PORFIRIA Distúrbio na síntese da PORFIRINA DO HEME Hemoglobina: heme + globina A globina da hemoglobina normal (HbA) por duas cadeias alfa e duas cadeias beta. O heme é formado por ferro + protoporfirina IX (porfirina). Succinil-CoA >> ácido aminolevulínico >> 7 reações em cadeia >> PORFIRINA, Cada etapa dessa cadeia de reações depende de uma enzima, e, a falha dessas enzimas determina as porfirias. Essas reações podem ocorrer na medula óssea e no fígado. No fígado, a porfirina é utilizada para a detoxificação (citocromo P450). PORFIRIA CUTÂNEA TARDA Deficiência de: uroporfirinogênio descarboxilase PORFIRIA INTERMITENTE AGUDA Deficiência de: HMB-SINTASE Acúmulo de ALA e PBG Quadro clínico ● Dor abdominal (acompanhada de hiperperistaltismo) ● Hiperatividade(“crises adrenérgicas”) ● Neuropatia periférica – diagnóstico diferencial de síndrome de Guillain Barré ● Crises convulsivas ● Sintomas psiquiátricos Fatores precipitantes: álcool, tabagismo, medicamentos, infecções, cirurgias, chumbo Como confirmar o diagnóstico: dosar os precursores da via de heme ... porfobilinogênio (PBG) urinário (PBGu>50/dia) – mais confiável ou ALAu>20mg/dia ... ocorre um escurecimento da urina (arroxeada) Como tratar o paciente: suspender fatores precipitantes (ex.: barbitúricos)/ administrar carboidratos ou heme (hematina ou arginato de heme). FEBRE TIFOIDE Infecção por Salmonella entérica (sorotipo Typhi) Transmissão: água/ alimentos/ contato Fatores de risco: carga elevada/ hipocloridria Local preferido de infecção da bactéria: íleo (placas de Peyer) >> disseminação para medula/ baço/ fígado (sistema reticulo-endotelial) - durante algum tempo a bactéria persiste na medula >> passa pela vesícula >> fezes Manifestações clínicas 1-2ª sem: BACTEREMIA Febre, sinal de Faget, dor abdominal 2-3ª. sem: HIPERREATIVIDADE Rash (roséolas tíficas), hepatoesplenomealia, torpor SANGRAMENTO (+ COMUM) PERFURAÇÃO* (ILEAL, + GRAVE) 4ª. sem: CONVALESCÊNCIA Portador crônico (> dor) – a dor inicialmente na apendicite é inespecífica, vaga, em região periumbilical (as fibras que fazem a inervação do peritônio visceral são fibras não –mielinizadas) ⇨ a vascularização do intestino vem de fora para dentro, quando há distensão, há um aumento de pressão e consequentemente uma dificuldade na irrigação que pode levar à isquemia ⇨ em 12-24h, o apêndice começa a sofrer um processo isquêmico, com repercussão agora do peritônio parietal (que apresenta fibras mielinizadas – informações específicas da dor) – dor localizada em fossa ilíaca direita ⇧bactérias + muco >> distensão >> dor periumbilical (peritônio visceral) >> 12-24h >> dor em FID (peritônio parietal) ● Dor periumbilical que migra para FID ● Anorexia, náuseas ● Vômitos ● Febre Obs.: ANOREXIA = alguns autores dizem que a apendicite aguda teria de respeitar uma sequência, sendo que a anorexia deveria ser o primeiro sintoma. Caso o paciente não apresente anorexia, o diagnóstico deveria ser até duvidado. Outros autores, contudo, afirmam que a anorexia não é tão importante assim – que o sinal mais importante é uma dor periumbilical que migra para FID! SINAIS CLÁSSICOS: Blumberg Descompressão súbita dolorosa em McBurney Rovsing Pressão em FIE e dor em FID* Obturador Flexão de coxa + rotação interna do quadril Dunphy Dor em FID que piora com a tosse Lenander T retal > Taxilar em pelo menos 1º.C** (*) Rovsing: é necessário deslocar o ar do cólon E para o cólon D, em movimento de peristalse retrógrada >> distensão do ceco >> o apêndice aderido ao ceco também acaba sofrendo certa distensão >> dor (**) Processo inflamatório na região da pelve >> aumento da temperatura da região >> a temperatura retal continua sendo mais elevada do que a axilar do que pelo menos 1º.C (geralmente a Tretal é maior que a Taxilar, mas o sinal de Lenander é quando essa elevação é de pelo menos 1º.C). DIAGNÓSTICO É clínico, desde que haja uma alta probabilidade. ALTA PROBABILIDADE (HISTÓRIA CLÁSSICA) CLÍNICO PROBABILIDADE INTERMEDIÁRIA OU DÚVIDA (criança, idoso, mulher) IMAGEM Mulher em idade fértil ou criança: USG Outros: TC Se dúvida LAPAROSCOPIA SUSPEITA DE COMPLICAÇÃO (MASSA ou TARDIO> 48h) IMAGEM TRATAMENTO SIMPLES (sem complicações e 48h) ou COMPLICADA (massa) IMAGEM (USG ou TC) Exame normal Abscesso >4-6 cm = simples ATB + drenagem de abscesso + colono (2-4sem) + apendicectomia tardia (6-8 sem) MED – 02/03/2016 Liz Yumi Saguti (*) Apendicite aguda = a escolha é do cirurgião. A tendência atual é a escolha pela cirurgia por vídeo. Complicação mais comum: infecção do sítio cirúrgico (principalmente em casos de cirurgia aberta) Obs.: em casos de complicações, peritonite = pode-se realizar a cirurgiapor vídeo (inclusive, em casos de peritonite, a vídeo é a escolha). A vídeo só estará contraindicada em casos de instabilidade hemodinâmica. USG: massa de aspecto gorduroso, inflamada, junto ao cólon TC: tecido gorduroso com anel de atenuação característico representado por espessamento peritoneal ⇩ APENDICITE EPIPLOICA (APENDAGITE) Apêndice epiploico >> torção em seu próprio eixo >> dificulta vascularização >> isquemia >> dor em FID ... em 10-14 dias , essa gordura necrosa, cai e o paciente melhora ... (evolução benigna) Tratamento: analgesia e aguardar involução espontânea (1-2 semanas) Diagnóstico diferencial: apendicite aguda, doença de Crohn, cisto de ovário roto, salpingite, linfadenite mesentérica, diverticulite a direita, diverticulite de Meckel, infarto omental. DIVERTICULITE AGUDA “Apendicite a esquerda” TC: área hipodensa e bem delimitada, na topografia do sigmoide, compatível com abscesso pericólico Doença diverticular dos cólons Presença de divertículos nos cólons ● População ocidental * ● Idosos ● ⇧ pressão nos cólons ● Assintomáticos (diagnóstico feito de maneira incidental- achados de exames: colonoscopia/clister opaco) (*) dieta ocidental = rica em proteínas e carboidratos e pobre em fibras >> bolo fecal fino e duro >> dificulta a peristalse >> cólon necessita de contração intensa e vigorosa >> divertículo – região de maior fragilidade = local de entrada dos vasos Onde é mais comum? CÓLON ESQUERDO (SIGMOIDE) COMPLICAÇÕES: HEMORRAGIA (+comum: CÓLON D/ 15%) DIVERTICULITE (+ comum: CÓLON E/ 25%) ⇩ DIVERTICULITE AGUDA (microperfuração com abscesso pericólico) Obstrução da luz do divertículo (formado de mucosa colônica) >> ⇧bactérias colônicas + secreção de líquido/ muco >> distensão >> isquemia >> evolui com microperfurações >> o epíplon tenta bloquear essas microperfurações >> microperfurações com abscesso pericólico (diverticulite aguda) Clínica “Apendicite” do lado esquerdo (dor há alguns dias e quadro recorrente...) **principalmente naqueles pacientes com fatores de risco: idosos, constipação crônica CLASSIFICAÇÃO DE HINCHEY Estágio I ABSCESSO PERICÓLICO Estágio II ABSCESSO PÉLVICO Estágio III PERITONITE PURULENTA Estágio IV PERITONITE FECAL Diagnóstico História clínica + exame físico Se dúvida: TC (padrão-ouro) EVITAR: COLONOSCOPIA e ENEMA (são exames que aumentam a pressão e podem complicar as microperfurações). Colono após 4-6 semanas: afastar neoplasias Obs.: a colono não deve ser feita no momento da inflamação, contudo, a colonoscopia é importante depois de ‘esfriado’ o processo (4-6 sem) para afastar a possibilidade de neoplasia. Tratamento COMPLICAÇÃO? NÃO* SIM Sintomas mínimos Sintomas exuberantes Abscesso Peritonite Obstrução Dieta sem resíduos + ATB (oral) - ambulatorial Dieta zero + hidratação EV + ATB EV Drenage m + ATB + colono +cirurgia eletiva** (*) Operar se: após 2º.episódio, fístulas, imunodeprimidos, > obstrução >> isquemia >> dor abdominal muito intensa >> geralmente a obstrução ocorre na artéria mesentérica superior (irriga quase todo o intestino delgado, cólon ascendente e parte do cólon transverso>> grande segmento sofre com isquemia >> dor abdominal extremamente intensa). Esse intestino porém, ainda não morreu (necrosou) >> ainda não há irritação peritoneal >> exame físico ‘normal’ (a grande marca da doença é a dor abdominal intensa, desproporcional ao exame físico). Com o tempo ocorre a necrose do intestino. Não há inflamação e sim isquemia >> se não chega sangue, a temperatura cai >> a temperatura retal é menor do que a temperatura axilar. Metabolismo anaeróbico >> ácido láctico >> acidose metabólica com lactato aumentado >> paciente tenta compensar >> taquipneia (ofegante) ● T retal > acúmulo de enzimas >> as enzimas começa a digerir o próprio parênquima pancreático (**) Álcool: é a segunda causa mais comum de pancreatite aguda e a principal causa de pancreatite crônica (é sempre importante diferenciar pancreatite aguda de uma agudização de um quadro de pancreatite crônica). Sinal de Cullen: mancha equimótica preriumbilical Sinal de Grey-Turner: mancha equimótica em flancos ⇩ HEMATOMA RETROPERITONEAL (obs.: são sugestivos, mas não patognomônicos de pancreatite aguda) Obs.: macete: “C”ullen = é o central (periumbilical) Diagnóstico 2 dos 3 abaixo: CLÍNICA Dor abdominal em barra Náuseas e vômitos LABORATÓRIO Amilase ou Lipase (3x o valor da normalidade) IMAGEM Tomografia USG (colelitíase) (*) lipase = é mais específica para pancreatite. Outras causas podem causar hiperamilasemia. Os valores de amilase e lipase não guardam relação com a gravidade do caso. Todo paciente com pancreatite aguda deve ser submetido a uma USG => a USG não é um bom exame para avaliar o pâncreas, mas ela deve ser solicitada para avaliar a presença de colelitíase (objetivo: definir a causa da pancreatite aguda). TC: idealmente essa tomografia deve ser solicitada após 48-72 horas (caso seja feita antes desse período, podemos subestimar a gravidade do quadro). A TC irá mostrar se há necrose do parênquima pancreático, contudo, antes de 48h essa necrose pode ainda não ter se formado. Se a TC foi feita na admissão para diagnóstico, ela deverá ser repetida em 48-72h. Abordagem 1º. PASSO: CAUSA E GRAVIDADE CAUSAS: ● Medicamentos: suspender ● Biliar: avaliar necessidade de CPRE/ drenagem ● Álcool: descartar agudização de pancreatite crônica GRAVIDADE: Critérios de ATLANTA: leve x grave ● Disfunção orgânica (choque, IR, insuf resp aguda) ● Complicação local (necrose, abscesso) MED – 02/03/2016 Liz Yumi Saguti ● Complicação sistêmica (CIVD, Ca 150 mg/mL (após 48h) ⇩ GRAVE APACHE-II: avaliação de 12 parâmetros (idade e estado de saúde prévia). A desvantagem é que não pode ser calculado para todos os pacientes (apenas para aqueles internados em CTI). RANSON: não consegue dizer de maneira imediata se o quadro é leve ou grave (diferentedo APACHE), mas pode ser calculado para qualquer paciente (ex.: para aqueles internados em enfermaria) CRITÉRIOS DE RANSON ADMISSÃO PRIMEIRAS 48H Leucocitose AST(TGO) (enzimas) Glicose Idade (anos) LDH Déficit de fluido Excesso de base (-) Cálcio sérico Queda hematócrito PaO2 Ureia (BUN =ureia x 2,14) Obs.: os valores de referência são diferentes para pancreatite aguda de origem biliar e de origem não biliar. Na pancreatite de origem biliar não se utiliza a PaO2. “Macete” :LEGAL/ FECHOU 2º. TRATAMENTO LEVE (80-90%): Repouso = dieta zero + analgesia (opioides) + hidratação venosa + eletrólitos + suporte Obs.: em 5-7dias pode-se retornar a dieta VO GRAVE: Medidas da leve + internação em CTI Hidratação venosa: reanimação volêmica (objetivo: diurese 0,5 ml/kg/h) Antibiótico NÃO (obs.: a infecção da necrose pancreática aumenta muito a morbidade; assim, se necrose > 30% poderia ser feita atb profilaxia com imipenem) Suporte nutricional: enteral x NPT (a NPT será feita em duas situações: 1- paciente não tolerar a dieta enteral/ íleo paralítico 2- se não for possível ofertar uma quantidade adequada de calorias com a dieta enteral). Vias biliares: CPRE sempre que colangite ou obstrução persistente/ mantida 3º. COMPLICAÇÕES COLEÇÃO FLUIDA AGUDA (30-50%) Conduta: expectante Se infectado: punção + ATB NECROSE (GRAVE) Estéril: ATB profilaxia se necrose >30% (não é consenso) Infectada: punção + avaliar NECROSECTOMIA PSEUDOCISTO (15%) Por definição forma-se somente com >4-6 semanas Suspeita quando: ⇧amilase ou massa) Pseudocisto: não epitelizado Tratamento: sintomático (compressão de estruturas adjacentes) ou complicação (hemorrágica, infecciosa) – EDA (drenagem endoscópica transgástrica) 4º. PASSO: ALTA ● Alta se: dor controlada e alimentação normal ● Avaliar colecistectomia: - Leve: na mesma internação - Grave: após 6 semanas Um algo a mais ... REVISÃO DOS CRITÉRIOS DE ATLANTA (2012): Pancreatite leve Sem falência orgânica ou complicações Pancreatite moderadamente grave Falência orgânica transitória (