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Autores: Prof. Gustavo Nascimento Profa. Adriana Pavarina Colaboradora: Profa. Christiane Mazur Doi Gestão do Conhecimento Professores conteudistas: Gustavo Nascimento / Adriana Pavarina Gustavo Nascimento Psicólogo, pós‑graduado em Administração de RH, tem especialização em Coaching Executivo e mestrado em Administração, Comunicação e Educação. Profissional com 25 anos de experiência no mercado de RH, atua em empresas nacionais e multinacionais e em programas de Recrutamento e Seleção, Treinamento e Desenvolvimento, Formação de Líderes, Cultura e Clima Organizacional. Há 12 anos na área educacional, é professor universitário de todos os subsistemas de RH. Também atua no desenvolvimento de diversos programas educacionais no Brasil e em Angola. Adriana Pavarina Profissional com sólida formação acadêmica e vasta experiência em desenvolvimento humano e gestão de pessoas. Tem graduação em Pedagogia, mestrado em Psicologia Educacional, pós‑graduação lato sensu em Psicanálise Clínica, em Psicopedagogia e em EaD e MBA em Recursos Humanos, além de estar cursando Psicologia e MBA em Gestão de Projetos, o que demonstra seu compromisso com a atualização constante e o aprimoramento profissional. Buscando complementar suas habilidades, obteve certificações como Coach pela Sociedade Latino Americana de Coaching, Analista Comportamental Disc, PNL na Prática e Master em Hipnose Clínica. Ao longo de 27 anos, atua em gestão de pessoas nos níveis estratégico, tático e operacional, com foco em processos de estruturação e reestruturação corporativa. Como consultora e mentora, auxilia organizações na otimização de talentos, promovendo o desenvolvimento e o bem‑estar dos colaboradores. Possui experiência acadêmica de 26 anos no ensino de disciplinas nas áreas de gestão de pessoas, psicologia e educação. Na EaD de Pedagogia, atua na Coordenadoria de Estágios em Educação, além de ser orientadora de TCC no MBA de Gestão de Pessoas da USP/Esalq/Pecege. É avaliadora do Inep/MEC, desde outubro de 2018, e atuou como membro da CTAA (Comitê de Ética), de dezembro de 2022 a maio de 2024, o que lhe proporcionou uma visão abrangente sobre os desafios e as tendências da educação no país. Sua atuação profissional é pautada pela busca constante do desenvolvimento humano e pela otimização dos processos organizacionais, visando ao alcance de resultados eficazes e sustentáveis. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) N244g Nascimento, Gustavo. Gestão do Conhecimento / Gustavo Nascimento; Adriana Pavarina. – São Paulo: Editora Sol, 2025. 164 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517‑9230. 1. Conhecimento. 2. Avaliação. 3. Desempenho. I. Pavarina, Adriana. II Título. CDU 658.012.226 U522.43 – 25 Prof. João Carlos Di Genio Fundador Profa. Sandra Rejane Gomes Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Profa. M. Marisa Regina Paixão Vice-Reitora de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor das Unidades Universitárias Profa. Silvia Renata Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Revisão: Prof. Alexandre Ponzetto Lucas Ricardi Deirdree Sousa Sumário Gestão do Conhecimento APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................9 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................................ 10 Unidade I 1 TREINAMENTO E DESENVOLVIMENTO DE PESSOAL .......................................................................... 13 1.1 Administração de recursos humanos (ARH) .............................................................................. 15 1.1.1 A organização e as pessoas ................................................................................................................ 15 1.1.2 Administração de pessoas ................................................................................................................... 17 1.1.3 Administração de recursos humanos como um processo ...................................................... 21 1.1.4 Políticas de ARH ...................................................................................................................................... 23 1.2 Breve histórico da área de treinamento ..................................................................................... 24 2 CONCEITO DE EDUCAÇÃO, TREINAMENTO E DESENVOLVIMENTO .............................................. 25 2.1 Conceitos de educação e de desenvolvimento pela aprendizagem ................................ 26 2.1.1 Treinamento como um meio de desenvolver pessoas ............................................................. 28 2.2 Introdução ao capital intelectual, à gestão do conhecimento e à universidade corporativa ................................................................................................................... 30 2.2.1 História da gestão do conhecimento ............................................................................................. 31 2.2.2 Conceitos de capital intelectual ....................................................................................................... 33 2.2.3 Universidade corporativa ..................................................................................................................... 35 2.3 Tipos de educação ................................................................................................................................ 38 Unidade II 3 PLANEJAMENTO E APLICAÇÃO DE TREINAMENTO E DESENVOLVIMENTO ............................... 46 3.1 Estabelecimento de objetivos .......................................................................................................... 47 3.2 Treinamento comportamental, treinamento técnico e treinamento misto ................. 56 3.3 Levantamento de necessidades e diagnóstico ......................................................................... 56 4 CICLO DO TREINAMENTO ESTRATÉGICO ................................................................................................ 64 4.1 Técnicas e práticas utilizadas .......................................................................................................... 69 4.1.1 Capacitações no local de trabalho ................................................................................................... 70 4.1.2 Capacitações fora do local de trabalho ......................................................................................... 70 4.1.3 Método do estudo de caso ................................................................................................................. 72 4.1.4 Aula expositiva ......................................................................................................................................... 75 4.1.5computação, informação, automação e robótica, química e microeletrônica. O mundo adquiriu uma nova dinâmica, com mudanças constantes. Os maiores avanços ocorreram na comunicação e na telecomunicação, com a presença da tecnologia da informação (TI). O avanço na capacidade de processamento, armazenamento e compartilhamento de informações, locais e em rede, impulsionou o crescimento da rede mundial (World Wide Web – WWW), uma das principais ferramentas para suportar a globalização e a internacionalização dos recursos produtivos e comerciais. A quarta Revolução Industrial é caracterizada pela autonomia dos processos: fábricas automatizadas, Internet das Coisas e presença da Inteligência Artificial. A globalização pode ser encarada como a fase mais intensa e avançada do capitalismo, aliada aos ditames neoliberais, que se baseiam em intercâmbio, nas interações de conhecimentos e produtos e nas diversas trocas de mercadorias, serviços e pessoas em caráter planetário. 32 Unidade I Eras empresariais (ambiente organizacional) Era da Produção em Massa (1920) Modelos tradicionais de gestão Administração científica Administração das relações humanas Administração burocrática Outros modelos tradicionais da administração Empresa vital Gestão do conhecimento Modelos biológicos/quânticos/ Teoria do Caos/complexidade Administração japonesa Administração participativa Administração empreendedora Administração holística Novos modelos de gestão Modelos emergentes Era da Eficiência (1950) Era da Qualidade (1970) Era da Competitividade (1990) Era... (2000) Ondas de transformação (macroambiente socioeconômico) Figura 4 – O cenário ambiental da evolução dos modelos de gestão Adaptada de: Santos et al. (2001). Notam‑se, na figura, as modificações ocorridas nas empresas, nas diversas “Eras Empresariais”. Até o início do século XX, o que importava era o aumento da produção: quanto maior o volume produzido, mais venda e, consequentemente, maior nível de receitas. Essa relação direta entre produção e vendas deveu‑se a um mercado crescente e ainda carente de oferta de produtos. O avanço das técnicas voltadas ao aumento da produção e, mais tarde, da produtividade, visando ao aumento da eficiência produtiva, resultou no que foi denominado Era da Produção em Massa. Na década de 1950, não bastava só produzir: era preciso fazer isso com eficiência e eficácia. A ideia era extrair o máximo dos recursos humanos, materiais e tecnológicos disponíveis nas empresas, mas pensando em atingir os objetivos e cumprir as metas organizacionais. A Teoria da Burocracia estabeleceu uma forma de organização humana do trabalho baseada na racionalidade. Propunha a adequação dos recursos materiais, humanos e tecnológicos, dos meios, dos objetivos, das metas organizacionais, ou seja, dos fins, de forma a aumentar ao máximo o aproveitamento desses recursos no trajeto em direção aos objetivos; almejava‑se a eficiência máxima. As corporações aproveitaram‑se dos ditames das Teorias de Sistemas de Ludwig von Bertalanffy. Segundo Oliveira (2013), o “moderno enfoque de sistemas” procurou desenvolver uma técnica para lidar com a 33 GESTÃO DO CONHECIMENTO amplitude das empresas. Tratava‑se de um enfoque interativo do todo, que não permite a análise em separado das partes do todo, em virtude das intrincadas inter‑relações das partes entre si e com o todo. Além disso, havia o estudo das relações entre os elementos componentes, em preferência ao estudo dos elementos entre si, destacando‑se o processo e as possibilidades de transição, especificados em função de arranjos estruturais e da sua dinâmica. Os estudos desenvolvidos na Teoria Neoclássica resultaram na Teoria da Administração por Objetivos. Essa teoria direcionou os esforços dos gestores para a solução de problemas, pois se entende que os fundamentos da administração estão enraizados nos métodos a serem adotados para identificar e solucionar problemas, dos mais simples e cotidianos até os mais complexos, que podem envolver todas as áreas da organização. O relacionamento entre os subordinados e as chefias mudou da prevalência hierárquica para um relacionamento de parceria. Esse relacionamento mais equilibrado foi alcançado por meio da definição de objetivos e de metas de forma conjunta e, ao mesmo tempo, do aumento do comprometimento de ambos para a consecução desses resultados. A partir da década de 1970, o mundo ocidental se surpreendeu com a qualidade e o nível de competitividade dos produtos japoneses. O carro japonês, por exemplo, tinha mais qualidade, inovações tecnológicas, economia e conforto, além de ser oferecido, muitas vezes, por preços mais convidativos. Todo o diferencial dos produtos japoneses foi atribuído ao modelo japonês de produção e gestão, que se baseava na produção enxuta e na filosofia Just in Time, que buscava a produção sem falhas, com estoque zero. Por conseguinte, surgiram termos que começaram a ser pesquisados e aprendidos pelos empresários ocidentais, a exemplo de Just in Time, Kanban, Kaizen, Poka‑Yoke e Zaibatsu. Chega‑se ao século XXI, em que a gestão do conhecimento passa a ser o foco principal dos gestores de negócios, devido à necessidade de atendimento das novas demandas, em que, frequentemente, são requeridas modificações significativas em tempo reduzido. 2.2.2 Conceitos de capital intelectual Segundo Stewart (1998), o capital intelectual, também chamado de CI, é o conjunto de bens intangíveis que compreendem os conhecimentos, as ideias e as informações oriundas do mercado e da sociedade, além dos níveis de integração e de relacionamentos com clientes e fornecedores mantidos pela empresa. Uma liderança eficiente e eficaz comanda e estrutura esses recursos, promovendo: • a aliança com a infraestrutura da organização; • a criação de sinergia entre os demais elementos; • a competitividade e a inovação; • a capacitação e o desenvolvimento de competências dos colaboradores; • o aperfeiçoamento dos processos; • o direcionamento em prol da consecução dos objetivos empresariais globais. 34 Unidade I O ser humano ora está dentro da empresa, trabalhando, ora está fora dela, agindo como consumidor, membro da sociedade e crítico de seus produtos. Devido a essa multiplicidade de papéis e às suas características de complexidade, o ser humano é o CI da empresa. Traz consigo um grande acervo de informações e de conhecimentos acumulados, além de valores, costumes e experiências que podem ser potencializados e aplicados no alcance de objetivos individuais e organizacionais. A organização, para contar com o conhecimento humano acumulado, deve saber liderar, comprometer e motivar cada colaborador, de forma que o seu potencial seja plenamente utilizado. Todo o conhecimento será catalogado, classificado e ordenado como capital humano corporativo para que possa contribuir com a consecução dos objetivos individuais, dos grupos funcionais, dos setores e da organização. O capital estrutural consiste nos meios para a utilização, a solidificação e a transformação do capital humano em ativo empresarial. Envolve métodos de funcionamento e processos de retenção e de compartilhamento de conhecimentos, como sistemas de informação operacionais e gerenciais e bancos de dados compartilhados. O CI deve ser sempre atualizado em virtude das mudanças ambientais ou das alterações nos objetivos e nas estratégias empresariais; assim, a empresa mantém a sua capacidade de transformar o capital humano em diferenciais competitivos. Para competir no ambiente globalizado, as organizações devem atuar como macroprocessos que captam, transformam, compartilham e, principalmente, multiplicam os conhecimentos, distribuindo‑os interna e externamente. As instituições precisam se transformar em geradoras poderosas de conhecimentos, em verdadeiras escolas potencializadas pelo capital privado. Dadas a intensidade e a velocidade das mudanças no ambiente global, as vantagens competitivas se mantêm porcurtos períodos, sendo necessária sua reciclagem ou sua substituição por outras mais atuais e tecnologicamente mais ajustadas. Enfim, o mundo tornou‑se dependente da aplicação do conhecimento, exigindo o seu desenvolvimento e a sua utilização em novos processos mais produtivos, novos produtos e serviços e tecnologias em prol do melhor atendimento das necessidades apresentadas. O capital de clientes se expressa pela capacidade da empresa em identificar, atrair, conquistar, satisfazer e manter os seus consumidores. O valor que os clientes atribuem aos serviços e produtos oferecidos pela companhia muitas vezes é bem maior do que o valor físico ou funcional oferecido. Outro aspecto importante é a inovação dos processos de geração do produto, de produção e de atendimento aos clientes, de forma consistente, para formar uma imagem de eficiência e eficácia na mente do público‑alvo. Trata‑se da retenção dos clientes, pois não basta atraí‑los nem seduzi‑los, deve‑se estabelecer um relacionamento satisfatório ao longo do tempo. Com isso, fideliza‑se o cliente, e mais outros são atraídos, o que aumenta a carteira da empresa. Essa carteira e os relacionamentos 35 GESTÃO DO CONHECIMENTO solidificados têm valor intangível. Segundo Kaplan e Norton (2004), os quesitos para solidificar o capital de clientes são bem conhecidos das áreas de marketing e de atendimento a clientes. A miopia das empresas e dos empresários tradicionais era flagrante quando valorizavam grandemente o capital financeiro em detrimento do capital de clientes. Um raciocínio simples mostra que a importância atribuída ao capital financeiro é justa e lógica, devido às necessidades de pagamento e de sustentação dos recursos materiais (insumos, matéria‑prima, instalações, máquinas e equipamentos), recursos humanos (colaboradores, gerentes e executivos) e recursos tecnológicos (métodos, consultorias técnicas e softwares). Todavia, a fonte dos recursos financeiros é a carteira de clientes da empresa. A valorização devida do capital de clientes promoverá a sustentabilidade dos negócios da instituição e fará com que ela cresça e se desenvolva continuamente. Lembrete O CI compreende um conjunto de fatores que serão mensurados em conformidade aos objetivos da empresa. Neste século, o bem mais precioso das empresas é o conhecimento, pois é por meio dele que serão concebidas e analisadas as questões negociais das companhias e dos empreendedores. O conhecimento permitirá a verificação das condições e possibilidades das atividades e ações em um negócio. Chama‑se gestão intelectual a aplicação desse arcabouço de conhecimentos, que diferenciará um negócio de vanguarda e sucesso dos demais. Intelectualidade é o que mais se precisa, nos dias atuais. O desenvolvimento de inteligência em gestão é uma área nova, que está sendo moldada para enfrentar os novos desafios deste século. Na nova economia, as corporações devem aumentar a sua capacidade de criar, desenvolver, disseminar, reter e aplicar novos ativos de conhecimento, com o objetivo de aumentar a competitividade. Saiba mais O texto indicado a seguir destaca o conceito de capital intelectual: CRUZ, J. M. Capital intelectual. InfoEscola, [s.d.]. Disponível em: https://bit.ly/3ICcJUF. Acesso em: 16 abr. 2025. 2.2.3 Universidade corporativa Para introduzir a discussão da universidade corporativa como um instrumento de desenvolvimento de pessoal nas grandes empresas, faz‑se necessário abordar a educação corporativa como o contexto principal da formação pessoal e profissional de RH. Historicamente, tudo começou na década de 1990 no Brasil, quando o conceito de treinamento e desenvolvimento passou a ser substituído pelo de educação corporativa. 36 Unidade I O treinamento comportamental teve como foco a mudança de comportamento do colaborador diante dos desafios diários, e o treinamento técnico comportamental, a alteração de procedimentos de acordo com as novas necessidades tecnológicas ou metodológicas. Superando a visão tradicional de formação e desenvolvimento, um salto qualitativo direcionou o foco para a reestruturação dos processos de treinamento, o fomento do autodesenvolvimento constante dos profissionais e a centralidade da educação profissional no âmbito das organizações. A universidade deve primar por ensinar o “aprender a aprender”. Assim, além de focar na formação profissional, comportamental e técnica, deve formar cidadãos que saibam aprender, postura imprescindível na Era do Conhecimento. A Universidade Corporativa Banco do Brasil adota os conhecimentos essenciais dos profissionais do século XXI explicados a seguir, segundo a Unesco (apud Delors et al., 2010): • Aprender a conhecer: conciliar a cultura geral, ampla o suficiente, com a necessidade de aprofundamento em uma área específica de atuação, construindo as bases para se aprender ao longo de toda a vida. • Aprender a fazer: desenvolver a capacidade de enfrentar situações inusitadas que requerem, na maioria das vezes, o trabalho coletivo em pequenas equipes ou em unidades organizacionais maiores. Assumir iniciativa e responsabilidade em situações profissionais. • Aprender a conviver: perceber a crescente interdependência dos seres humanos, buscando conhecer o outro, sua história, suas tradições e sua cultura, reconhecendo a diversidade humana. A realização de projetos comuns e a gestão inteligente e pacífica dos conflitos incluem a análise compartilhada de riscos e a ação conjunta em face dos desafios do futuro. • Aprender a ser: desenvolver a autonomia e a capacidade de julgar, bem como fortalecer a responsabilidade pelo autodesenvolvimento pessoal, profissional e social. Observação A universidade corporativa nasceu na década de 1950, iniciada pela General Electric, fundada em 1892 por Thomas Edison e Charles Coffin. Ela atua hoje em centenas de países, com produtos dos mais diversos, nas áreas de saúde, transporte, energia e iluminação. Mantém, em seu quadro, milhares de colaboradores. É uma empresa que prima pela tecnologia e pela inovação, daí o seu envolvimento com a educação corporativa. É uma instituição global, que tem a ética e a inovação como bases. Segundo Marquez (2002 apud Veloso; Quelhas, 2005, p. 3), a missão da universidade corporativa é “formar e desenvolver os talentos humanos na gestão de negócios, promovendo a gestão do conhecimento organizacional (geração, assimilação, difusão e aplicação) por meio da aprendizagem contínua e ativa, de modo a garantir a sustentabilidade das organizações”. 37 GESTÃO DO CONHECIMENTO Vale verificar a missão específica de universidade corporativa da Ambev. A empresa visa: [...] desenvolver as competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) de nossa gente (interna e externamente) e a gestão do conhecimento da Ambev para: • manter vivos o sonho e a cultura da companhia; • atingir metas desafiadoras por meio das pessoas; • garantir pessoas preparadas para novos desafios (Ambev, 2009, p. 4). O desenvolvimento de universidades corporativas foi também influenciado pela: • rápida obsolescência da informação; • capacidade de desenvolver novas competências para estar em condições de atender às contínuas exigências e aos desafios impostos no mercado de trabalho; • formação global, evidenciando‑se a necessidade de formar pessoas com visão global e perspectiva internacional dos negócios. Além desses fatos, temos o grande avanço tecnológico, tanto no campo da informática (softwares e hardwares) quanto no campo da telecomunicação (internet e intranet). As universidades corporativas são poderosas ferramentas de qualidade e geradoras de competitividade, por meio da integração e do desenvolvimento dos talentos dos colaboradores e das estratégias empresariais. Observação A educação corporativa compreende um processo educativo e um sistema de desenvolvimento de pessoas que objetiva desenvolver as competências e o aprendizado organizacional e atingir o público interno e o público externo, com aumentode competitividade. 38 Unidade I 2.3 Tipos de educação Entre os tipos de educação corporativa, podemos destacar os três pilares explicados a seguir: • Autonomia de aprendizagem: o colaborador precisa ter autonomia para aprender no contexto organizacional, buscando sua jornada de aprendizagem de acordo com seus interesses e sua disponibilidade. Nesse contexto, cabe à empresa possibilitar, por exemplo, plataformas online, permitindo cursos a distância, para que o próprio funcionário possa estabelecer o melhor processo de tempo e estratégia. • Aprendizagem personalizada: diz respeito à personalização do estudo do colaborador, aos conteúdos que de fato possam ser relevantes para o que se precisa aprender, e não somente para um estudo superficial e protocolar. Assim, a empresa deve criar conteúdo diferenciado, qualificado, com a presença de treinadores que permitam elevar o nível do conhecimento. • Tecnologia na aprendizagem: a tecnologia está inserida na área de treinamento e nas plataformas online, que, assim como os jogos, permitem inclusão digital, acessibilidade e facilidade de atuação, interagindo de forma estruturada com o colaborador. A empresa deve propiciar ambientes híbridos, com treinamentos virtuais e presenciais. 39 GESTÃO DO CONHECIMENTO Resumo Nesta unidade, apresentamos os principais conceitos da área de RH, além de um breve histórico da evolução e das abordagens adotadas nessa área. Vimos que, inicialmente, os funcionários eram tratados como componentes de um grande mecanismo ajustado para atingir os objetivos organizacionais. Com o decorrer do tempo, as pessoas passaram a ser vistas como colaboradores inteligentes e participativos do processo evolutivo e qualificador da organização em um mercado globalizado. Mostramos que as políticas de RH passaram por um processo evolutivo, de uma visão mecanicista, que considerava o ser humano um recurso limitado e medido quantitativamente, para uma visão holística, em que os seres humanos são elementos decisivos para o sucesso estratégico das empresas, agregando valores aos resultados das operações. Tratamos dos conceitos de educação, de treinamento e desenvolvimento e de processos de aprendizagem. Observamos que a educação pode ser vista como um método que visa preservar os conhecimentos e os aprendizados físicos e intelectuais de uma comunidade por meio da sua transmissão para os mais novos ou para os que necessitam de experiência. Finalizando, trabalhamos o conceito inicial de CI. Verificamos que é fundamental atualizá‑lo constantemente nas organizações. Concluímos que o CI e a gestão do conhecimento são diferenciais nas empresas modernas. Ambos promoveram a existência das universidades corporativas, criadas no intuito de manter e atualizar constantemente o conhecimento. 40 Unidade I Exercícios Questão 1. Leia o texto a seguir. ARH: entenda como funciona e como aplicá-la! A administração de recursos humanos é um recurso muito utilizado por gestores. Entenda como essa técnica é importante para sucesso da empresa. Figura 5 A ARH é uma das técnicas mais importantes na gestão de pessoas, pois, por meio dela, as empresas conseguem organizar seu sistema de gerenciamento e mostrar o caminho do sucesso que seus colaboradores devem trilhar. Segundo um estudo global sobre o índice de tendências de trabalho, da Microsoft, em 2020, 41% dos colaboradores de empresas pensaram em deixar ou mudar de profissão, e isso tem relação com a possibilidade de as pessoas poderem trabalhar remotamente. Tantas mudanças no jeito de cuidar, motivar, engajar e desenvolver profissionais revisitaram a real importância de uma boa administração de RH, que tem a responsabilidade de gerir processos essenciais dentro das organizações. O que é ARH? Também conhecida como gestão de pessoas e gestão de recursos humanos, é uma técnica de gerenciamento que as empresas utilizam na administração de pessoas, no intuito de planejar, organizar, dirigir e controlar o potencial humano do negócio. 41 GESTÃO DO CONHECIMENTO Essa é uma estratégia de melhoria, que auxilia o negócio a desenvolver suas metas e alcançar seus objetivos graças à gestão do capital humano, considerada a parte mais importante de toda empresa. O processo de administração de recursos humanos tem grande influência no modelo de administração científica proposto por Frederick Taylor (1956‑1915), chamado de taylorismo. Trata‑se de um modelo de trabalho em que o RH é responsável por controlar as tarefas realizadas pelos colaboradores. Entre as tarefas controladas pela ARH, estão: • ações de motivação de funcionários; • avaliações de desempenho; • comunicação interna; • feedbacks; • incentivo ao crescimento dos trabalhadores; • integração de novos profissionais; • recrutamento e seleção de talentos; • retenção de talentos. Outro conceito de administração de recursos humanos que também tem grande influência nas estratégias do RH, principalmente no Brasil, se baseia nos conceitos de Idalberto Chiavenato, único autor brasileiro com mais de 12 livros sobre administração geral. Para Chiavenato, a boa gestão administrativa dos recursos humanos de um negócio acontece visando ao coletivo, em que o grupo é capaz de produzir muito mais que apenas um indivíduo. Ele ressalta ainda que a administração de pessoas está integrada à administração dos recursos básicos da organização. Portanto, o gerenciamento de pessoas acontece de forma conjunta ao gerenciamento de suprimentos, manutenção e desenvolvimento, no intuito de atrair, manter e desenvolver os colaboradores. Qual é o objetivo da ARH? Podemos dizer que o principal objetivo da administração de recursos humanos é cuidar das pessoas, pois essa é a garantia de uma empresa ter profissionais engajados a um processo de trabalho fluido e com foco no crescimento, tanto pessoal quanto organizacional. Porém, por estar ligado à administração de pessoal, esse método não tem um único objetivo, e as principais finalidades da ARH são: • ter profissionais engajados em alcançar as metas da empresa; 42 Unidade I • promover um ambiente de trabalho saudável e motivador; • criar, manter e desenvolver pessoas habilidosas; • treinar os recursos humanos disponíveis para serem sempre eficientes e engajados; • gerenciar burocracias ligadas às equipes, como tarefas legais e tarefas administrativas. Dizer que empresas são feitas de pessoas pode parecer clichê, mas são realmente as pessoas que criam condições para que as empresas alcancem resultados expressivos no mercado. Portanto, a administração de pessoas e recursos humanos é fundamental no desenvolvimento de uma empresa e extremamente necessária no seu dia a dia, para que todos os processos e todas as mudanças aconteçam naturalmente e sem burocracias. Adaptado de: https://tinyurl.com/ywdc5h8w. Acesso em: 2 abr. 2025. Com base na leitura, avalie as afirmativas: I – A ARH corresponde à gestão estratégica dos colaboradores de uma empresa e visa ao alcance dos objetivos da organização, considerando a relevância do capital humano. II – As ações relativas à motivação dos funcionários estão no rol das tarefas controladas pela ARH, mas as avaliações de desempenho não fazem parte do seu escopo. III – Entre as finalidades da ARH, temos o aprimoramento das habilidades dos colaboradores da empresa e a promoção de um bom ambiente de trabalho. É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) I e III, apenas. C) II e III, apenas. D) I, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa B. 43 GESTÃO DO CONHECIMENTO Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: no texto, é dito que a “administração de recursos humanos (ARH) [...] é uma técnica de gerenciamento que as empresas utilizam na administração de pessoas, no intuito de planejar, organizar, dirigir e controlar o potencial humano do negócio”. Além disso, “essa é uma estratégia de melhoria, que auxilia o negócio a desenvolver suas metas e alcançar seus objetivos graçasà gestão do capital humano, considerada a parte mais importante de toda empresa”. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: segundo o texto, entre as tarefas controladas pela ARH, temos: • ações de motivação de funcionários; • avaliações de desempenho; • comunicação interna; • feedbacks; • incentivo ao crescimento dos trabalhadores; • integração de novos profissionais; • recrutamento e seleção de talentos; • retenção de talentos. III – Afirmativa correta. Justificativa: segundo o texto, as principais finalidades da ARH são: • ter profissionais engajados em alcançar as metas da empresa; • promover um ambiente de trabalho saudável e motivador; • criar, manter e desenvolver pessoas habilidosas; • treinar os recursos humanos disponíveis para serem sempre eficientes e engajados; • gerenciar burocracias ligadas às equipes, como tarefas legais e tarefas administrativas. 44 Unidade I Questão 2. Leia o texto a seguir: Educação corporativa, conexão entre aprendizado e gestão do conhecimento Educação corporativa, que alguns chamam de educação empresarial, é a aquisição da competência de empreender um forte processo de aprendizagem e gestão do conhecimento, de acordo com a visão e a missão da instituição. Na educação corporativa, temos os seguintes objetivos: desenvolver competências essenciais para o sucesso da empreitada, desenvolver a prática das atividades, alicerçar crenças e valores da instituição, enfatizar a cultura empresarial, desenvolver a cidadania para o sucesso da instituição. A missão da educação corporativa é formar e desenvolver talentos humanos na gestão dos negócios, por meio da aprendizagem e da gestão do conhecimento organizacional, com foco na competitividade. A aprendizagem pode ser tanto específica quanto organizacional, mas sempre funcional e continuada. Tanto a aprendizagem quanto a gestão do conhecimento precisam ser eficientes para não haver desperdício do recurso mais precioso, que é o tempo. Na educação corporativa, a visão dos objetivos e as metas a serem alcançadas devem ser compartilhadas e afinadas com a missão da empresa. No sistema de educação corporativa, o desenvolvimento de competências ocorre por meio do desenvolvimento de conhecimento, habilidades e atitudes. O conhecimento será desenvolvido pela compreensão de conceitos e técnicas, o que gera o saber. A habilidade é proporcionada pela aptidão e pela capacidade de realizar, o que gera o poder. A atitude se configura na postura e no modo de agir, o que culmina no querer. A aplicação desses três eixos associados determina a competência. Adaptado de: https://tinyurl.com/yj5hbaet. Acesso em: 2 abr. 2025. Com base na leitura, avalie as asserções e a relação proposta entre elas: I – A educação corporativa envolve a implantação de modelos de gestão do conhecimento e de gestão de pessoas, associa competências individuais e organizacionais e inclui o desenvolvimento de habilidades e atitudes. porque II – A educação corporativa equivale a um treinamento rápido, pontual e destinado a capacitar um colaborador para desempenhar uma tarefa específica, que não precisa estar vinculada a nenhuma das suas atividades funcionais nem à missão da organização. Assinale a alternativa correta: A) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II justifica a asserção I. B) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II não justifica a asserção I. 45 GESTÃO DO CONHECIMENTO C) A asserção I é verdadeira, e a asserção II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a asserção II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa C. Análise das asserções I – Asserção verdadeira. Justificativa: segundo o texto, “no sistema de educação corporativa, o desenvolvimento de competências ocorre por meio do desenvolvimento do conhecimento, habilidades e atitudes”. Nesse sistema, “o conhecimento será desenvolvido pela compreensão de conceitos e técnicas, o que gera o saber”. Já “a habilidade é proporcionada pela aptidão e pela capacidade de realizar, o que gera o poder”, e “a atitude se configura na postura e modo de agir, o que culmina no querer”. II – Asserção falsa. Justificativa: segundo o texto, na educação corporativa, “a aprendizagem pode ser tanto específica quanto organizacional, mas sempre funcional e continuada”. Nela, “tanto a aprendizagem quanto a gestão do conhecimento precisam ser eficientes para não haver desperdício do recurso mais precioso, que é o tempo”. Além disso, “na educação corporativa, a visão dos objetivos e as metas a serem alcançadas devem ser compartilhadas e afinadas com a missão da empresa”. 46 Unidade II Unidade II 3 PLANEJAMENTO E APLICAÇÃO DE TREINAMENTO E DESENVOLVIMENTO O planejamento de um programa de treinamento é uma atividade que faz parte do processo administrativo (planejamento, organização, direção e controle). Pensando na elaboração do planejamento de um programa de treinamento, o gestor precisa ter cuidados com todas as fases que terá de executar. O conteúdo estudado a seguir, baseado em Kirkpatrick (2010), apresenta os princípios básicos para a elaboração de treinamentos, com ênfase na avaliação dos programas como forma de nortear sua execução e os devidos monitoramentos. Segundo o autor, o programa de treinamento deve ser planejado em dez etapas, que garantirão a eficiência e a eficácia da sua implementação, a fim de que sejam alcançados os resultados almejados: 1. determinação das necessidades; 2. estabelecimento de objetivos; 3. determinação do conteúdo temático; 4. seleção dos participantes; 5. determinação da agenda ideal; 6. seleção de local apropriado; 7. seleção de instrutores adequados; 8. seleção e preparação de recursos audiovisuais; 9. coordenação do programa; 10. avaliação do programa. Após a conclusão do programa de treinamento, obtemos alguns resultados que podem ser imediatamente identificados e mensurados e outros que terão de ser avaliados conforme forem se consolidando no decorrer do desempenho das atividades pelos participantes do treinamento. 47 GESTÃO DO CONHECIMENTO 3.1 Estabelecimento de objetivos Diz um conhecido ditado que “para quem não tem objetivos, qualquer caminho é bom”. A definição dos objetivos é primordial para a eficácia do programa de treinamento. O objetivo corresponde ao alvo que se quer atingir, à posição estratégica a ser obtida ou ao propósito a ser satisfeito por uma operação. Para a definição dos objetivos, devemos atentar às respostas aos macroquestionamentos apresentados a seguir: • Quais são os resultados que pretendemos atingir com o programa de treinamento? Esses resultados são mensuráveis? É possível medi‑los em termos de produção, qualidade, giro de mercadoria, assiduidade, moral, volume de vendas, lucros ou retorno sobre o investimento (ROI)? • Quais comportamentos são necessários para atingir os resultados desejados? Quem deve desenvolver esses comportamentos? • Quais são os conhecimentos, as habilidades e as atitudes essenciais para obter os comportamentos desejados? Com base na identificação de para quem e quais são os conhecimentos, as habilidades, as competências e as atitudes necessários, o profissional de treinamento passa a ter uma referência para a definição do conteúdo programático. Em alguns programas, a ampliação dos conhecimentos bastará. Em outros, será imprescindível o desenvolvimento de novas habilidades ou o aperfeiçoamento daquelas já existentes. Em vários outros, será preciso haver mudança de atitudes. Determinação do conteúdo temático Os objetivos de um programa de treinamento nortearão a definição do conteúdo programático. Devem‑se ter bem definidos os objetivos gerais do programa, que correspondem aos grandes alvos que se pretende atingir ou o que se objetiva entregar para os participantes. Esses objetivos gerais devem ser desdobrados em objetivos específicos, que são particularidades dos objetivos gerais. Os organizadores e os instrutores devem responder ao seguinte questionamento: quetemas devem ser apresentados para suprir as necessidades e cumprir os objetivos? Seleção dos participantes A seleção dos participantes dos treinamentos deve levar em consideração os objetivos do programa, o conteúdo temático, o espaço disponível e a duração do curso. Os recursos disponíveis podem ser restrições importantes a serem superadas para a viabilização dos cursos. Ao selecionar os participantes para um programa de treinamento, devemos atender a cada um dos questionamentos expostos a seguir. 48 Unidade II • A quem o treinamento pode beneficiar? Deve‑se proceder a um levantamento sobre as funções e os cargos que podem ser beneficiados pelo treinamento. Vale destacar que há casos em que o treinamento é concebido para sanar deficiências identificadas por pesquisas de desempenho. Pode‑se estender um treinamento elaborado para um grupo específico, para um departamento em especial ou para outros profissionais. O histórico da formação e as experiências profissionais podem ser aliados na seleção dos participantes, a fim de que tenhamos o máximo aproveitamento possível. Por exemplo, em um treinamento para supervisores, outras categorias de participantes também poderão ser beneficiadas. • Que programas são exigidos por lei ou por outros regulamentos? Exigências legais não são questionáveis nem opcionais: nenhum profissional envolvido em áreas que tenham exigências legais para atuação ou condução dos trabalhos pode ser excluído dos treinamentos obrigatórios. Existem exigências sanitárias e exigências relacionadas à segurança, ao meio ambiente, às habilitações profissionais (operação de equipamentos, condução de veículos, manipulação de resíduos infectocontagiosos, materiais perigosos, substâncias inflamáveis ou tóxicas etc.). • O treinamento deve ser voluntário ou obrigatório? Existem treinamentos que são compulsórios, a fim de capacitar o profissional para atuar no posto de trabalho ou cumprir exigências legais, como explicado anteriormente. Os treinamentos opcionais são aqueles que a empresa oferece para atualização profissional ou tecnológica ou para ampliar os horizontes do profissional, com o intuito de aumentar as chances de promoção ou de transferência para outra área da corporação. O problema dos cursos não obrigatórios é a insegurança na participação de colaboradores que realmente necessitam fazer o treinamento na opinião da empresa, o que nem sempre coincide com a percepção do funcionário. Pode‑se chegar a uma situação extrema: quem precisa não se inscreve, e há muitas inscrições de colaboradores que não têm a real necessidade de fazê‑lo. Após a detecção das necessidades da empresa e a contratação de treinamento para atender aos quesitos específicos de profissionais em determinada situação, o curso poderá ser obrigatório, prevalecendo as demandas coletivas da organização, e não as demandas individuais de cada colaborador. Os problemas do curso obrigatório estão na falta de motivação e na baixa aderência do colaborador, o que prejudica o aproveitamento e os benefícios funcionais para ele e para a organização. Pode‑se adotar uma estratégia mista: ser obrigatório para o público enquadrado no mapa de necessidades e ser facultativo para os demais. • Os participantes precisam ser separados por nível hierárquico na organização ou deve‑se reunir dois ou mais níveis na mesma turma? 49 GESTÃO DO CONHECIMENTO Devemos pensar no seguinte: o clima no ambiente do curso será de liberdade de participação e expressão? O subordinado emitirá suas opiniões, críticas e autocríticas, sabendo que seu chefe está atento, ouvindo tudo o que ele fala e faz? O inverso também é verdadeiro no que diz respeito às participações do superior hierárquico em relação a seus subordinados. Em muitas situações, o ideal é promover antes, ou paralelamente, uma versão “gerencial” do treinamento para os superiores hierárquicos, separada da versão destinada aos supervisores ou aos trabalhadores da base da pirâmide. • Como definir a agenda ideal? Para a definição da agenda do programa de treinamento, a equipe de instrutores não pode se basear nas suas necessidades nem nas suas preferências. Não é admissível que os melhores horários para os instrutores ou organizadores do treinamento sejam adotados, restando aos demais envolvidos reprogramar suas agendas profissionais e pessoais para se adaptarem e poderem participar do treinamento. O agendamento do programa deve levar em conta a necessidade dos stakeholders do treinamento. Os stakeholders são as partes interessadas que precisam ter as suas necessidades atendidas no que se refere às datas, à carga horária (diária, semanal ou quinzenal) e aos horários. As principais partes a serem consultadas são o público‑alvo de participantes, seus chefes e a equipe de treinadores, sempre buscando as condições técnicas ideais para o treinamento. Dependendo do tipo de treinamento e das condições envolvidas, podem ser identificados “pesos” diferentes para as necessidades de cada parte envolvida na decisão. Independentemente dos “pesos” e das importâncias, todos os stakeholders devem ser ouvidos e respeitados. Considerando‑se todas as variáveis e os fatores apresentados, deve‑se elaborar o agendamento do programa, e ele precisa ser comunicado a todos os interessados com bastante antecedência, para que se possa proceder à destinação dos recursos necessários e se possam reservar os espaços na agenda individual e no setor de trabalho. Veja, a seguir, o relato de uma situação vivida por Kirkpatrick (2010, p. 29) como organizador de treinamentos: Certa vez, conduzi um seminário de uma semana para todos os níveis de gerência em uma empresa localizada em Racine, Wisconsin, nos Estados Unidos. Participaram dois grupos de vinte pessoas. O horário da primeira turma era das 7h às 10h30. A mesma sessão para o outro grupo era realizada das 15h às 18h30. Racine era longe demais para eu voltar para casa todos os dias. Mas o que se faz em Racine das 10h30 às 15h todos os dias durante uma semana? Foi o pior horário que já tive na vida, porém era o melhor horário para os participantes dos três turnos da empresa. Lembrete O agendamento consiste na sistematização de toda a programação do treinamento, o que compreende as datas e os horários das atividades. Deve haver a divulgação antecipada dessas informações a todas as partes interessadas. 50 Unidade II Seleção de local apropriado A determinação do local de treinamento é estratégica e circunstancial e deve contribuir para a formação de um clima motivador e estimulante. A seguir, temos alguns fatores negativos na escolha do local de treinamento, conforme Kirkpatrick (2010): • espaços pequenos e restritos; • instalações desconfortáveis: poltronas, cadeiras, sanitários etc.; • salas sem proteção contra ruídos, luz natural e outras fontes de distração; • convívio com transtornos ambientais diversos; • longas distâncias entre o local de trabalho e o local de treinamento; • temperatura ambiente não adequada e ambientes não climatizados; • atendimento e serviços disponíveis aos treinandos: coffee break, almoço, estacionamento, esclarecimento de dúvidas etc. Os problemas decorrentes da escolha inadequada do local de treinamento e da falta de uma estrutura apropriada, conforme detalhado anteriormente, tornam‑se evidentes no seguinte exemplo de aplicação, que demonstra como tais deficiências podem comprometer a execução do programa de treinamento e, consequentemente, os resultados almejados. Exemplo de aplicação Um profissional foi designado para atuar como instrutor e organizador de treinamentos para um grande banco. O evento seria realizado em Salvador, em uma das praias da orla marítima da cidade. Embora o profissional e os participantes estivessem bem motivados, houve alguns inconvenientes, como o coffee break, que era formidável, com quitutes regionais. O problema é que era tão bom e completo que não durava os 15 minutos programados, chegando a 30 e, em algumas ocasiões,a 45 minutos. Outro detalhe importante: não havia uma estrutura montada para o almoço. Assim, os participantes iam almoçar em casa, como era costume em muitas cidades do Nordeste naquela época, em meados da década de 1980. Tudo isso, além de outros fatores, obrigava‑os a um esforço hercúleo para o cumprimento do programa e para a satisfação das necessidades dos usuários e do banco, como cliente contratante. Mesmo assim, o treinamento foi um sucesso em virtude de providências que foram tomadas, incluindo a realização de algumas aulas complementares. Você já vivenciou situação similar à relatada? O que você faria para evitar tais questões e manter o foco no treinamento? 51 GESTÃO DO CONHECIMENTO Seleção de instrutores adequados O motivador de todo treinamento é a equipe de instrutores, que garantirá o sucesso do programa, desde que haja foco e alinhamento com os objetivos dos cursos. Os profissionais devem ser didáticos e experientes na prática da andragogia, ou seja, no conjunto de técnicas didáticas para o ensino de adultos. O andragogo deve estar preparado para ensinar os adultos. O adulto, ao participar do processo de ensino‑aprendizagem, vem com uma bagagem de experiências e conhecimentos previamente adquiridos, que devem ser aproveitados de alguma forma durante o processo. Esses conteúdos serão somados aos novos conhecimentos, formando um novo produto intelectual que, por sua vez, acelerará a aquisição de novos saberes, gerando um círculo virtuoso. Outra forma de os adultos usarem seus conhecimentos prévios é analisar criticamente os fatos, os dados e as informações que vão sendo apresentados durante o curso. Não se trata de algo passivo, e sim interativo. O instrutor, por se tratar de um treinamento profissional para adultos, deve ser um facilitador do processo de ensino‑aprendizagem e utilizar excelente comunicação e ótima postura, de forma a motivar os estudantes a participarem intensamente das exposições, das discussões e das dinâmicas do curso. Deve estar apto para atuar com aulas dialogadas, organização de debates, grupos de discussão, dramatização, realização de trabalhos em equipes e lançamento de desafios que exijam a participação intensa e que levem não só à assimilação do conteúdo, mas também ao desenvolvimento de novos comportamentos, novas atitudes e novas habilidades. A parte mais delicada, que independe muitas vezes do profissional de treinamento, envolve o orçamento e a disponibilidade financeira. Se houver folga no orçamento, o que é raro, o profissional de RH contratará um treinador externo que tenha todas as qualificações ideais e um perfil didático profissional que dificilmente não atenderá às necessidades e às especificações do programa. Contudo, como já foi afirmado, é raro que isso aconteça. Normalmente, existe uma verba limitada para aplicações específicas e, muitas vezes, se tem um valor relativamente alto apenas para o atendimento das diversas necessidades internas. A solução é dividir o montante da melhor forma possível. Deve‑se contratar externamente quando no quadro interno não existir um profissional que possa suprir a lacuna e preparar e ministrar o treinamento. Temos, normalmente, soluções híbridas: alguns cursos com profissionais externos e outros com profissionais internos. Seleção e preparação de recursos audiovisuais Os recursos audiovisuais servem para fornecer apoio didático ao instrutor durante suas exposições. Esses recursos permitem o uso de imagens estáticas ou de filmes de vídeos que entretêm e, ao mesmo tempo, fornecem dados e informações e apresentam fatos. Tanto a quantidade de imagens quanto a duração dos filmes devem ser adequadas, pois o uso excessivo provoca efeito contrário ao desejado, enfadando e enjoando o público e servindo como distração. 52 Unidade II A seleção dos filmes deve ser criteriosa. Apesar do grande número de coletâneas de vídeos para treinamento, que já vêm divididas e classificadas em assuntos e abordagens, como “Marketing e vendas”, “Desenvolvimento pessoal e profissional”, “Técnicas para a boa comunicação” e “Qualidade e desempenho em processos”, entre outros tipos. Os filmes devem ser assistidos previamente e analisados, um a um, para que seja possível verificar a aderência do conteúdo aos objetivos do programa de treinamento da empresa. Existem muitas opções diferenciadas, dependendo da estrutura e dos recursos disponíveis para o treinamento. Há profissionais que o elaboram com os filmes já disponíveis no acervo e aqueles que adaptam o programa aos filmes disponíveis. Também existem empresas que têm departamentos especializados em seleção e aquisição de vídeos e de outros recursos (softwares, jogos, plataformas etc.) e na produção dessas ferramentas. Coordenação do programa Às vezes, o instrutor não só conduz o programa, mas também o coordena. Em outros casos, o coordenador não atua como instrutor. Como instrutor, o profissional pode viver dois extremos em relação à coordenação. Observe o exemplo a seguir. Exemplo de aplicação Em uma universidade do leste dos EUA, que oferecia cursos de educação continuada, Gustavo teve de se apresentar, descobrir onde seria servido o café no intervalo, encerrar o programa e, até mesmo, pedir aos participantes que preenchessem os formulários de avaliação. Ele achou inacreditável que uma universidade que se orgulhava tanto de sua programação educacional pudesse fazer uma coordenação tão deficitária. Outro extremo ocorreu em um programa que Gustavo conduziu para a State Farm Insurance, em Bloomington, Illinois. Dois representantes levaram sua esposa e ele para jantar na véspera do programa. No dia do curso, ele foi apanhado no hotel para ir até o local do treinamento com tempo suficiente para que a sala fosse preparada. Esse representante se certificou de que Gustavo tinha tudo de que precisaria. Ele foi apresentado aos participantes, permaneceu na sala durante o programa inteiro, ajudando na distribuição do material, e, depois, se encarregou do intervalo para o café. Além disso, levou Gustavo para almoçar e pagou a conta. Encerrou a reunião agradecendo e pedindo aos participantes que preenchessem os questionários de avaliação. Levou Gustavo de volta ao hotel e, mais uma vez, o agradeceu. Em outras palavras, ele foi um excelente coordenador e contribuiu para que o treinamento fosse o mais eficaz possível. É claro que as gentilezas que ele incluiu não são necessárias para uma coordenação eficaz, mas ilustram o quão importante é o atendimento às necessidades do instrutor, assim como às dos participantes. 53 GESTÃO DO CONHECIMENTO Controle e avaliação do programa O controle do programa deve se resumir em um relatório de “três gerações”: o passado, o presente e o futuro. Esse controle é o processo que assegura a realização dos objetivos e das possibilidades e necessidades de modificá‑los. Visa manter as atividades no seu curso normal, que foi previamente estabelecido. Há as necessidades da definição de padrões, da observação dos resultados, da comparação com os padrões definidos e das ações de correção ou de reforço do que deu certo. Já a avaliação do treinamento tem como meta verificar se tudo o que foi feito no planejamento, na organização, na direção e na execução do programa de treinamento funcionou, o quanto funcionou e se atendeu às necessidades mapeadas. Nos próximos tópicos, apresentaremos conceitos, definições e uma abordagem completa dessa fase final dos programas de treinamento: a avaliação. Observação Programas são grandes “guarda‑chuvas” que abrigam diversos projetos, os quais se encontram alinhados e integrados para o alcance de um objetivo maior em prol do sucesso organizacional. Motivos para a avaliação Nunca devemos esquecer que as áreas da empresa contam com investimentos e alocação de recursos decididos pela alta direção. A destinação deles depende de um estudo pormenorizado, que inclui a análise de oportunidades e de ameaças, de pontos a fortalecer e de impactos sociais,funcionais e econômico‑financeiros; para estes últimos, deve ser elaborado um estudo de viabilidade econômica. Algumas áreas da companhia são consideradas centros de custos, e a de RH está entre elas. Os profissionais de treinamento têm grande preocupação com a sua credibilidade diante do restante da empresa e, principalmente, com os dirigentes que alocam recursos para essa área, contando com resultados mensuráveis. Embora, muitas vezes, seja difícil mensurar resultados na área de treinamento, é necessário identificar novos e utilizar bem os meios existentes, de forma a transformá‑los em métricas confiáveis a serem apresentadas para os altos dirigentes e para que possam satisfazer às suas necessidades por resultados. Conforme afirma Kirkpatrick (2010, p. 33): Todo gerente, e não apenas nós, da área de treinamento, preocupa‑se com sua credibilidade e a de seu departamento. Quero ser aceito pela minha empresa. Quero contar com a confiança da minha empresa. Quero ter o respeito da minha empresa. Quero que a empresa e meus colegas gerentes digam: precisamos de você! 54 Unidade II Veja, a seguir, um resumo dos motivos para avaliar treinamentos, segundo Kirkpatrick (2010): • justificativa para a existência do departamento de treinamento e valor da verba; • demonstração das contribuições para as metas e os objetivos da empresa; • decisões firmes sobre a continuidade ou não de programas de treinamento; • obtenção de informações consistentes sobre como melhorar programas de treinamento futuros; • aprovações e realocações de verbas para o setor; • manutenção do emprego e dos cargos no setor de treinamento; • aumento das possibilidades de melhorias no plano de carreira e de promoções; • melhoria nas remunerações da divisão; • melhorias na qualidade do trabalho e da infraestrutura oferecida; • aumento da confiabilidade da diretoria e acatamento de suas recomendações. Cabe destacar que, em geral, os recursos disponíveis são escassos e devem ser muito bem administrados. Administrar recursos significa cortar em uma área para realocá‑los em outra mais prioritária. Quanto à necessidade de corte de gastos, a área de RH tende a arcar com a maior parte das reduções, por ser considerada de custo fixo indireto, ou seja, seus resultados são diluídos e não são diretamente relacionados com a produção ou as vendas da empresa. Quando se analisam as funções de RH (recrutamento, seleção, administração de pessoal, benefícios e treinamento), na visão de muitas empresas, quase todas as áreas são úteis e obrigatórias, exceto treinamento, que é considerada opcional. Segundo Kirkpatrick (2010), se o negócio for lucrativo, pode ser mantida uma área exclusiva de treinamento. Mantida essa área, ela precisa “mostrar seu valor”, e esse também é um motivo para avaliar os treinamentos. O programa de treinamento é um precioso investimento da empresa para desenvolver e aperfeiçoar a formação dos colaboradores. Logo, requer controle intenso. A forma de controlá‑lo é avaliando seu andamento e verificando seus resultados. Muitas vezes, o conteúdo do treinamento pode ficar desatualizado. Todos os programas precisam ser avaliados para se decidir se devem continuar sendo aplicados ou se devem ser reciclados, ou mesmo abandonados, ou seja, se o seu custo for maior do que os benefícios, o programa deverá ser suprimido ou modificado. Se tiver sido decidido que o programa precisa ser continuado, deve‑se confirmar a sua eficácia por meio de novas avaliações, e, a partir daí, devem ser tomadas medidas para aprimorá‑lo, de forma a mantê‑lo ativo e operante. Existem oito fatores que podem confirmar as necessidades de aprimoramento, apresentados a seguir: 55 GESTÃO DO CONHECIMENTO • atendimento das necessidades da empresa e dos participantes, considerando o conteúdo programático; • qualificação do instrutor para ministrar o curso; • métodos atualizados e eficazes, capazes de manter o interesse e desenvolver conhecimentos, habilidades e atitudes desejados; • instalações suficientes e adequadas; • agenda, datas e horário condizentes com as necessidades dos participantes e dos instrutores; • recursos de apoio eficazes e direcionados para a melhor comunicação e para o interesse do público; • planejamento, organização, direção e coordenação do programa eficientes e eficazes; • sistema de melhoria contínua funcionando a contento. Muitas vezes, os dirigentes de empresas têm dificuldades em serem convencidos quanto à eficácia do programa de treinamento. É difícil estabelecer relações de causa e efeito em ações tão complexas e com reflexos tão dispersos no tempo e no espaço. As respostas a esses questionamentos ajudam a resolver esse dilema, fornecendo subsídios para as argumentações, desde que apoiadas em pesquisas e levantamentos bem fundamentados. Uma análise criteriosa das respostas a essas perguntas poderá identificar meios de melhorar as apresentações futuras do programa. Existem formulários que atendem bem às necessidades de avaliação de treinamentos. Saiba mais No site indicado a seguir, é possível observar um exemplo de um formulário de avaliação de treinamento. FORMULÁRIO de treinamento on the job – RH Portal. Yumpu, 2014. Disponível em: https://bit.ly/3PSqAIX. Acesso em: 16 abr. 2025. Observação O treinamento on the job baseia‑se em uma antiga prática de treinamento no próprio trabalho, pouco utilizada atualmente. Consiste no ato de colocar alguém maduro e experiente na profissão para transmitir os conhecimentos ao novo funcionário/aprendiz. 56 Unidade II 3.2 Treinamento comportamental, treinamento técnico e treinamento misto A área de RH trabalha para motivar colaboradores e dirigentes a buscarem o alcance de suas metas por meio da realização de um bom trabalho. O diferencial das empresas está na forma como o RH trabalha a motivação de seus integrantes. Vale destacar que a área do RH responsável por promover essa motivação é a área de treinamento e desenvolvimento, embora todos sejam responsáveis por manter um ambiente e um clima motivadores na organização. É fundamental lembrar que o treinamento é o preparo da pessoa para o cargo; trata‑se da ferramenta que o gestor tem para desenvolver, adequar e ajustar, de forma constante, as pessoas em relação às responsabilidades inerentes à sua posição na organização. Podemos separar as ações para treinar e desenvolver em dois momentos distintos, mas complementares: treinamento e desenvolvimento. O treinamento diz respeito a uma ação realizada pontual e esporadicamente, ou seja, em determinados momentos. O desenvolvimento é constante e está relacionado com o “amanhã” dos colaboradores. Ele precisa ser contínuo e coerente. Podemos perceber que a área de treinamento e desenvolvimento é estratégica para as organizações. Por meio dela, os colaboradores são motivados a buscar os objetivos também almejados pelas empresas. Ela prepara os funcionários para atuarem de forma excelente em um mercado altamente competitivo. Saiba mais A referência a seguir ilustra os tipos de treinamento, como o comportamental e o de capacitação. O TREINAMENTO na busca de resultados. ABRH‑RS, [s.d.]. Disponível em: https://bit.ly/3ccE7MI. Acesso em: 16 abr. 2025. 3.3 Levantamento de necessidades e diagnóstico O primeiro passo para a elaboração de um programa de treinamento que atinja os objetivos da organização, de suas áreas funcionais específicas ou mesmo de grupos e indivíduos é a identificação das necessidades de treinamento. Essas necessidades podem ser indicadas pelas não conformidades nos processos, pelo baixo desempenho do pessoal, pelos problemas para o cumprimento de metas ou objetivos ou pelos apontamentos feitos pelos próprios clientes, internos e, principalmente, externos. Algumas formas consagradas de fazer o levantamento de necessidades são: • perguntar aos participantes; • indagar aos chefes dos participantes; 57 GESTÃO DO CONHECIMENTO • questionar a outros que conheçam bem o trabalho e saibam como ele vemsendo executado, inclusive subordinados, colegas e clientes; • testar os participantes; • analisar formulários de avaliação de desempenho. Os instrumentos a serem utilizados para esse levantamento de dados vão de entrevistas pessoais até pesquisas feitas com a utilização de questionários e formulários, entre outras ferramentas de coleta de dados. Há oportunidades de melhoria que só podem ser identificadas por meio das avaliações de desempenho feitas em formulários. Para entender melhor esses formulários, apresentaremos, a seguir, algumas instruções sobre sua elaboração e seu preenchimento: Objetivo Definir as metas principais (que foram estabelecidas para o período) relacionadas diretamente com a missão dos gerentes. Pesos A atribuição de pesos é uma forma tradicional de transformar opiniões e avaliações pessoais, que são qualitativas, em números e notas, que são quantitativos. A classificação das metas deve considerar o grau de impacto na organização como um todo. Veja a sugestão a seguir: • Peso 3: meta de alto impacto na organização ou na área específica. • Peso 2: meta importante na organização ou na área específica. • Peso 1: meta de baixo impacto na organização ou na área específica. Resultados esperados Os resultados devem ser expressos em padrões mensuráveis de desempenho, considerando os quesitos qualidade, quantidade, prazo e custo. Veja os seguintes exemplos: • Qualidade: 100% de entregas com acerto na destinação. • Prazo: até 1 hora após o recebimento. • Quantidade: nenhuma correspondência poderá ficar para o dia seguinte. 58 Unidade II Avaliação Podemos considerar três classificações que relacionam o desempenho com as metas, conforme mostrado a seguir: • Acima do esperado: quando as realizações da meta superaram o padrão de desempenho. • Dentro do esperado: quando corresponderam ao padrão de desempenho. • Abaixo do esperado: quando ficaram abaixo do padrão de desempenho. Comentários finais sobre os resultados Quando do término do ciclo ou do prazo para o cumprimento de cada meta, deverão ser registrados os comentários sobre as realizações do período. Acompanhamento do desempenho O objetivo do acompanhamento do desempenho é possibilitar o registro e a análise do andamento do cumprimento das metas e dos procedimentos complementares para a sua efetiva realização. Entre outras análises, o acompanhamento do desempenho permite identificar as deficiências que impedem a execução dos trabalhos e se os desempenhos correspondem aos padrões desejados. Veja os exemplos colocados nos quadros a seguir. Quadro 8 – Formulário de avaliação de desempenho: resultados semestrais Jura’s S.A. Avaliação gerencial semestral Semestre: / / a / ,/ Nome Depto. Avaliador Área Cargo Local Cargo Local Adaptado de: Lucena (1992). 59 GESTÃO DO CONHECIMENTO Quadro 9 – Formulário de avaliação de desempenho: avaliação gerencial Jura’s S.A. Avaliação do desempenho gerencial Nome: Cargo/divisão: Data: N. Metas Peso Padrão de desempenho Avaliação Comentários finais sobre os resultados AE DE AbE Adaptado de: Lucena (1992). Quadro 10 – Formulário de avaliação de desempenho: acompanhamento periódico do desempenho Jura’s S.A. Acompanhamento periódico Nome: Cargo/divisão: Avaliador: Data: Comentários sobre o andamento das metas Comentários sobre o desempenho (realizações e recomendações) Avaliação Comentários do gerente avaliado AE DE AbE Assin.: Assin.: Adaptado de: Lucena (1992). 60 Unidade II Quadro 11 – Formulário de avaliação de desempenho: comentários do avaliado Jura’s S.A. Comentários sobre a capacitação profissional Nome: Cargo/divisão: Avaliador: 1. Qualidade do avaliado 2. Requisitos a desenvolver Plano de desenvolvimento para o avaliado (recomendações) Comentários da gerência superior Comentários finais do avaliado Adaptado de: Lucena (1992). Existem formulários específicos para o levantamento das necessidades de treinamento com questionamentos feitos diretamente para chefes, gerentes e colaboradores. De acordo com Kirkpatrick (2010), os temas a serem considerados podem ser determinados mediante entrevistas ou simplesmente com a resposta à seguinte pergunta: que temas ajudarão nosso pessoal a fazer o trabalho da melhor maneira possível? Por exemplo, solicita‑se que os participantes assinalem uma das três colunas para cada item colocado no quadro a seguir. Esse tipo de questionamento costuma funcionar com mais eficiência do que pedir que eles listem suas necessidades em ordem de importância ou simplesmente anotem os assuntos que julgarem importantes para a melhora de seu desempenho ou de sua área de trabalhos. O uso desse formulário padroniza a lista e viabiliza a tabulação das demandas e dos seus respectivos graus de necessidade. 61 GESTÃO DO CONHECIMENTO Quadro 12 – Formulário: levantamento de necessidades de treinamento Indique a sua necessidade em relação a cada tema, coloque um X na lacuna correspondente Jura’s S.A. Grau de necessidade Temas Alta Relativa Não há 1. Diversidade no ambiente de trabalho – como entender os funcionários 2. Como motivar os funcionários 3. Comunicação interpessoal 4. Comunicação escrita 5. Como falar em público 6. Administração do tempo 7. Como delegar com eficácia 8. Planejamento e organização 9. Como lidar com queixas e ressentimentos 10. Administração de mudanças 11. Tomada de decisões e delegação de poder 12. Aplicação de estilos de decisão 13. Avaliação de desempenho 14. Coaching e aconselhamento 15. Como conduzir reuniões produtivas 16. Formação de equipe 17. Como aplicar a disciplina 18. Total Quality Improvement (TQI) 19. Segurança 20. Organização 21. Como elevar o moral – qualidade de vida no trabalho 22. Como recompensar o trabalho 23. Redução de faltas e atrasos 24. Outros temas altamente necessários Adaptado de: Lucena (1992). A próxima etapa é analisar e ponderar as pontuações de cada tema, de modo a priorizar as necessidades de treinamento mais pontuadas. Para que seja feita a pontuação, sugere‑se que a ponderação considere o que segue: • Altamente necessário: peso 2. • Relativamente necessário: peso 1. • Desnecessário (não há): peso 0. 62 Unidade II Esse formulário é flexível e pode ser aplicado no levantamento de necessidades dos colaboradores, chefes, supervisores ou gerentes. Deve‑se comparar a tabulação do levantamento com a visão que os diferentes níveis de atuação e cargos têm antes de decidir a prioridade dos temas a serem oferecidos. A decisão sobre as necessidades a priorizar não deve ser tomada individualmente, mas em grupo. Deve‑se formar um comitê consultivo de gerentes que representem os diversos departamentos e os níveis da organização. O facilitador nesses grupos de estudos é o profissional de treinamento, que mostrará os resultados da pesquisa e pedirá a sua opinião. O especialista em treinamento assimilará as observações e impressões dos participantes, como recomendações e sugestões, cabendo a ele a decisão final. Segundo Kirkpatrick (2010), esse é o compartilhamento de propósitos muito nobres, na busca de assertividade na decisão e de aplicação dos recursos necessários. Entre eles, citam‑se: • ajudar na determinação do conteúdo temático dos programas de treinamento; • informar aos membros do comitê sobre as iniciativas do departamento de treinamento para proporcionar apoio prático; • criar empatia pelas necessidades segundo a percepção dos subordinados; • estimular apoio aos programas, envolvendo os integrantes do comitê no planejamento. Para a verificação das necessidades de treinamento, podem ser utilizados testes e levantamentos. A partir de critérios técnicos, identificam‑se conhecimentos, habilidades e atitudes que um ocupante do cargo deveria desenvolver e, com isso, define‑se o conteúdo temático a ser abordado. Observação Assertividade é a qualidade de quem é pragmático, “pé no chão” e não perde o foco nem se desvia da estratégia traçada para atingir osobjetivos e os resultados que foram estabelecidos no plano de ação. Podemos elaborar um formulário como o apresentado no quadro a seguir para medir os conhecimentos, as habilidades e as atitudes dos participantes e aplicá‑lo como avaliação prévia. A análise dos resultados fornece subsídios para definir o conteúdo temático. 63 GESTÃO DO CONHECIMENTO Quadro 13 – Formulário: resumo das habilidades técnicas e comportamentais Avaliação Avaliação ATP ATS NAT ATP ATS NAT 1. Tomada de decisões 12. Flexibilidade 2. Planejamento 13. Capacidade de realização 3. Liderança 14. Autodesenvolvimento 4. Negociação 15. Espírito de equipe 5. Adm. de pessoas 16. Criatividade 6. Gestão de conflitos 17. Iniciativa 7. Organização do trabalho 18. Relacionamento interpessoal 8. Monitoramento e controle 19. Pontualidade 9. Acompanhamento de custos 20. Assiduidade 10. Comunicação 21. Uso de equip. de segurança 11. Conhecimentos técnicos Legenda: ATP – Atende plenamente ATS – Atende satisfatoriamente NAT – Não atende Adaptado de: Lucena (1992). Também podemos verificar as respostas por meio de um formulário‑instrumento padronizado que contenha relação direta com o tema do treinamento, como vemos no quadro 14. Quadro 14 – Levantamento gerencial: gestão de mudanças Jura’s S.A. Levantamento gerencial: gestão de mudanças Posicionamentos/afirmativas Concordo Não concordo 1. Quando os subordinados participam da decisão de fazer uma mudança, tendem a executá‑la com mais entusiasmo 2. Algumas pessoas não sentem o menor desejo de serem promovidas a um cargo que envolva maiores responsabilidades 3. As decisões de mudança devem basear‑se em opiniões, bem como em fatos 4. Se uma mudança estiver fadada a ser impopular entre seus subordinados, você deve efetuá‑la gradativamente, para ir conquistando sua aceitação 5. Em geral, é melhor conversar com um grupo sobre determinada mudança do que falar com seus integrantes individualmente 6. A empatia é um dos conceitos mais importantes na gestão de mudanças 7. É uma boa ideia “vender” uma mudança ao líder natural antes de tentar fazê‑lo aos demais 8. Se você for promovido a gerente, deverá tornar o cargo diferente do que era nos tempos de seu antecessor 9. Chefes e subordinados devem ter um acordo sobre os tipos de mudanças que um subordinado pode fazer sem autorização prévia do chefe 10. Você deve encorajar seus subordinados a fazerem as mudanças que acharem que precisam ser feitas Adaptado de: Lucena (1992). 64 Unidade II Atente para o fato de que os respondentes devem concordar ou discordar das afirmativas e dos posicionamentos apresentados. As respostas precisam ser analisadas pelo confronto das afirmativas com os conceitos, os princípios e as técnicas da gestão de mudanças, por exemplo. É importante observar que as opções são “concordo” ou “não concordo”, e não “certo” ou “errado”. 4 CICLO DO TREINAMENTO ESTRATÉGICO A identificação do potencial dos colaboradores envolvidos é primordial para a elaboração do planejamento do treinamento e para o seu desenvolvimento. Para a devida elaboração do planejamento, são necessários: conhecimentos, habilidades e comportamentos exigidos pelo cargo; conhecimentos, habilidades e comportamentos dos colaboradores; e talentos para desenvolver as habilidades e os comportamentos exigidos. As formas de desenvolvimento de competências são diferenciadas pela sua natureza e pelos meios a serem utilizados. No planejamento do treinamento, são aplicadas estratégias diferenciadas, como conhecimentos, habilidades, comportamentos e resultados. Os conhecimentos serão desenvolvidos por meio de estudos, do ensino formal nas escolas e do autodidatismo (que inclui as técnicas de aprender sozinho, como leituras, pesquisas ou experimentações). Veja no quadro 15. Quadro 15 – Formas de estudo Cursos formais Formação de Ensino Fundamental, Médio e Superior. Após essa formação, pode‑se dar continuidade à formação por meio de cursos de extensão universitária, de especialização, de MBA, de mestrado ou de doutorado Cursos diversos Meios eficazes para a obtenção de formação técnica em curto espaço de tempo, pois são afeitos à formação específica e restrita. O aprendiz adquire capacitação para exercer determinadas funções profissionais Leitura dirigida Nessa modalidade, são organizados textos, apostilados ou não, que são apresentados aos alunos. Periodicamente, eles são monitorados e avaliados quanto ao seu desenvolvimento. São aplicáveis a matérias e conhecimentos que não exijam intensa troca com o instrutor/professor para viabilizar o processo de ensino‑aprendizagem Grupos de debate Propícios à troca intensa de conhecimentos entre os componentes dos grupos de estudos formados para o desenvolvimento de conhecimentos comuns. O método usualmente é agregado ao processo de aprendizado por leitura dirigida As habilidades são adquiridas não só com conhecimentos, mas também com aplicações, experimentações e exercícios, principalmente nas atividades para desenvolver habilidades motoras, como operação de máquinas, montagem de equipamentos e condução de veículos de movimentação de materiais. Veja, no quadro 16 a seguir, formas de adquirir habilidades. 65 GESTÃO DO CONHECIMENTO Quadro 16 – Formas de adquirir habilidades Workshop Compreende um conjunto de técnicas que se baseiam no desenvolvimento da aprendizagem por meio da prática e do exercício/aplicação dos conhecimentos a serem adquiridos Workshop significa laboratório ou oficina de trabalho. Consiste no agrupamento de pessoas com o intuito de gerar conhecimentos que atendam a interesses ou problemas comuns O objetivo é melhorar ou desenvolver habilidades, com eficiência ou eficácia, por meio de estudos e trabalhos dirigidos e orientados por especialistas. O significado do nome em inglês, como dissemos, é laboratório, isto é, lugar de trabalho. Isso deixa clara a natureza eminentemente prática ou aplicada das técnicas utilizadas nesse método Simulação Por meio de jogos desenvolvidos por softwares cada vez mais sofisticados, os treinandos adquirem experiências vivenciais em situações simuladas que apresentam desafios e compartilhamentos baseados em fatos e acontecimentos da vida real Os mais conhecidos são os jogos de empresas, que podem ser baseados em decisões táticas ou em gerenciamento de dados Tarefas reais Nesses programas de treinamento, o treinando vai para a linha de frente, quando será exposto a situações reais de trabalho, visando exercitar e desenvolver suas habilidades por meio de tarefas temporárias especiais, estágios em áreas diferentes e job rotation. Trata‑se de programas, pela exigência da sua condução por instrutores especialistas Os comportamentos dependem de uma decisão pessoal em aprimorar‑se. As posturas básicas de um comportamento, em geral, não precisam ser ensinadas, como vemos na figura a seguir. Ser neutro Ser caloroso Ser impositivo Ser colaborador Ser frio e distante Figura 6 – Alguns comportamentos 66 Unidade II Em muitas situações, representamos papéis diversos, que nos obrigam a adotar comportamentos diferenciados. Para assumir uma conduta que não é natural, é necessária uma forte decisão pessoal, pois ninguém consegue nos obrigar a ter um comportamento que não nos é peculiar o tempo todo. Quando é necessário convencer os colaboradores a adotar determinado comportamento, a organização deve conscientizá‑los da importância e das vantagens em fazê‑lo. Na medida em que vão se preparando e passam a adotar o comportamento desejado, não têm muitos recursos para mensurar o quanto estão avançando. Nessa fase, torna‑se imprescindível o feedback de outras pessoas que participam de alguma forma do nosso cotidiano. Periodicamente, elas informarão a respeito dos progressos, o que possibilita reforços e ajustes. Existem alguns fatores importantes no treinamento comportamental. Veja no quadro a seguir. Quadro 17 – Fatores importantes no treinamento comportamental Grupos de feedbackDão‑se a partir da formação de grupos de participantes com o intuito de executar dinâmicas para a observação mútua de comportamentos. Em uma reunião de apresentação, os membros manifestam‑se informando ao grupo os comportamentos que pretendem desenvolver e adotar a partir desse evento. Os membros do grupo devem ter a possibilidade de convivência fácil, o que favorece a observação. Após essa sessão inicial, eles passam a se reunir periodicamente para fornecer feedback uns aos outros. Para viabilizar essa dinâmica, os membros do grupo devem ter o mesmo nível hierárquico e bom relacionamento entre si; animosidades desestabilizariam e inviabilizariam o grupo Orientação do mentor (mentoring) Consiste em uma forma eficaz e tradicional de treinamento, estabelecida entre um mentor e seu pupilo. Há encontros periódicos, o que exige muito preparo e disponibilidade do mentor, visando à realização das orientações e ao acompanhamento do desenvolvimento de funções organizacionais A otimização de recursos é primordial para quaisquer atividades administrativas. Em treinamentos, essa otimização se intensificará mediante à aplicação de menos esforço ao alocar recursos para treinar grupos de pessoas com mais talentos para determinada habilidade ou comportamento desejado como resultado do programa. Por fim, os resultados a serem alcançados do programa de treinamento devem ser previamente estabelecidos, isto é, as metas de mudanças de comportamento e de desempenho esperadas nos processos e nas rotinas desempenhadas pelos treinados devem ser antecipadamente estabelecidas. Lembramos que os objetivos principais devem ser monitorados para avaliar o sucesso do programa de treinamento. O programa de treinamento não pode lograr êxito sem a figura de um profissional responsável, a quem caberá o seu gerenciamento. Esse patrocinador terá que planejar, organizar, dirigir e controlar os resultados do programa. A continuidade e o sucesso dessa empreitada dependem diretamente da capacidade de gestão do responsável pelo programa. 67 GESTÃO DO CONHECIMENTO Veja, no quadro 18, as etapas do planejamento de treinamento. Quadro 18 – Etapas do planejamento de treinamento Elaboração do perfil dos cargos Identificação dos conhecimentos necessários para a ocupação do cargo Levantamento de dados e descrição do cargo Apresentação das habilidades exigidas Colaboração dos superiores hierárquicos, ocupantes dos cargos e especialistas da área de RH Apuração dos comportamentos esperados do ocupante do cargo Perfil dos ocupantes do cargo Elaboração do rol e do grau de conhecimentos das pessoas por meio de testes específicos Habilidades que os ocupantes potenciais têm desenvolvidas por meio de avaliações (360° ou pelos superiores) Análise dos comportamentos ao traçar o perfil comportamental, normalmente feita por consultoria especializada Estrutura do planejamento Necessidades identificadas Estabelecimento de formas de treinamento Eleição do responsável pelo programa Cronograma de atividades Orçamento de recursos necessários Monitoramento de indicadores de desempenho, informações dos participantes e dos superiores e avaliação dos desempenhos esperados Lembrete O planejamento do treinamento deve estabelecer os programas de acordo com as habilidades e os comportamentos a serem treinados e desenvolvidos versus os talentos identificados em cada um dos treinandos envolvidos. Segundo Marras (2000, p. 45), “treinamento é o processo de assimilação cultural em curto prazo, que objetiva repassar ou reciclar conhecimentos, habilidades ou atitudes relacionadas diretamente à execução de tarefas ou à sua otimização no trabalho”. Por meio do treinamento, o funcionário transita de um estado de acomodação dos saberes para ter uma bagagem de conhecimento ampliada e realizar suas tarefas de forma otimizada. Saiba mais A fim de planejar e executar um treinamento, leia a seguinte indicação: MARTINS, R. Plano de treinamento: como criar, etapas e passo a passo completo. Gupy, 3 nov. 2022. Disponível em: https://bit.ly/3zfDyus. Acesso em: 20 maio 2025. 68 Unidade II Mas por que treinar pessoas? • para adequá‑las aos seus cargos; • para desenvolver competências de maneira a se tornarem mais inovadoras e produtivas; • para agregar valor a elas, à organização e aos clientes; • para melhorar o desempenho nos cargos que ocupam; • para mobilizar e ajustar vários mecanismos, desde a ação motora até as operações mentais; • para alterar o comportamento de uma situação de menor rendimento profissional para uma de maior eficiência. Segundo Boog (1980), desde o desenvolvimento das civilizações, o treinamento tornou‑se necessário, na medida em que foram inventadas e aprimoradas as técnicas de transformação da matéria‑prima e de produção. É a partir do treinamento que o homem transmite, expõe, demonstra, discute ou pratica as informações sobre o trabalho em dada organização. Veja, no quadro 19, as etapas do ciclo de treinamento. Quadro 19 – Processo de treinamento: quatro etapas do ciclo de treinamento Necessidades a satisfazer Desenho do treinamento Condução do treinamento Avaliação dos resultados Diagnóstico da situação Decisão quanto à estratégia Implementação ou ação Avaliação e controle 1. Objetivos da organização 2. Competências necessárias 3. Problemas de produção 4. Problemas de pessoal 5. Resultados da avaliação de desempenho Programa do treinamento: — Quem treinar — Como treinar — O que treinar — Por quem treinar — Onde treinar — Quando treinar — Para que treinar Condução e aplicação do programa: gerente de linha; assessoria de RH; por ambos; e por terceiros Monitoramento de processos; reação dos treinamentos ao programa Avaliação e medição de resultados; o aprendizado do treinamento e as mudanças comportamentais geradas para implementação de metas organizacionais Comparação da situação com a situação anterior Análise do custo‑benefício Adaptado de: Menezes (2007). 69 GESTÃO DO CONHECIMENTO Similarmente à estrutura proposta por Menezes, os pesquisadores Bohlander, Snell e Sherman (2003) entendem que a estrutura de um programa de treinamento pode ser definida por meio de quatro etapas básicas: avaliação das necessidades, projeto, implementação e avaliação do treinamento. Segundo Marras (2000), a avaliação deve considerar dois aspectos essenciais: o técnico e o comportamental, que envolve a análise de necessidades, o preparo organizacional e as competências necessárias a determinado programa de treinamento. É importante incluir na avaliação a análise da relação entre custos e benefícios organizacionais da implementação de programas de treinamento. O treinamento, portanto, permite que as pessoas desenvolvam conhecimentos, habilidades e atitudes (CHA), objetivando aumentar o desempenho do funcionário para realizar tarefas e assumir cargos, como vemos na figura a seguir. Indivíduo Conhecimentos Habilidades Atitudes Saber: Agir Mobilizar Transferir Aprender Engajar Ter visão estratégica Responsabilizar‑se Organização Agregar valor Figura 7 – Competências como fonte de valor para o indivíduo e para a organização Dutra (2002) afirma existir grande diversidade de conceitos sobre competências, os quais podem ser complementares. O autor estrutura esses vários conceitos e entende as competências como entregas da pessoa (inputs) para a organização, que são também apresentadas como um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes necessário para a pessoa exercer suas atividades e que vão agregar valor à organização (outputs), conforme acentuado na figura anterior. 4.1 Técnicas e práticas utilizadas As capacitações promovidas pelas empresas a seus colaboradores podem ocorrer em locais específicos, no próprio local de trabalho ou pela internet, por meio de plataformas avançadas e jogos interativos. Por exemplo, ao ser realizada no local de trabalho, a capacitação custa menos para a empresa, pois, caso seja efetivada em local alheio,Dramatização............................................................................................................................................ 77 4.1.6 Simulação (jogos) ................................................................................................................................... 79 4.1.7 Workshop ................................................................................................................................................... 81 4.1.8 Palestras e seminários ........................................................................................................................... 83 4.1.9 Brainstorming........................................................................................................................................... 84 4.1.10 Dinâmicas de grupo ............................................................................................................................ 85 4.1.11 Plataformas e jogos online ............................................................................................................... 88 4.2 Avaliação e validação dos resultados dos investimentos em treinamento e desenvolvimento ...................................................................................................................................... 89 4.2.1 Reação ......................................................................................................................................................... 89 4.2.2 Aprendizagem .......................................................................................................................................... 90 4.2.3 Comportamento ...................................................................................................................................... 91 4.2.4 Resultados ................................................................................................................................................. 93 4.2.5 Avaliação da reação ............................................................................................................................... 93 4.2.6 Validação dos resultados ..................................................................................................................... 98 4.2.7 Avaliação do aumento das habilidades ......................................................................................... 99 4.2.8 Avaliação do comportamento na obtenção dos melhores resultados ...........................100 4.2.9 Tempo para as mudanças ocorrerem ............................................................................................100 4.2.10 Avaliação antes e depois do treinamento ................................................................................101 4.3 Vantagens funcionais com base em treinamento e desenvolvimento ........................103 4.4 Treinamento como diferencial competitivo ............................................................................104 Unidade III 5 AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO E DESENVOLVIMENTO DE PESSOAS ..........................................108 5.1 Conhecimento, habilidade, atitude e resultado (CHAR) .....................................................110 5.2 Conceito de avaliação de desempenho e sua relação com a área de treinamento e o desenvolvimento ...............................................................................................111 6 INDICADORES DE DESEMPENHO ............................................................................................................111 6.1 Modelos de avaliação de desempenho tradicionais ............................................................112 6.1.1 Método da escala gráfica ..................................................................................................................112 6.1.2 Método da escolha forçada .............................................................................................................. 112 6.1.3 Método de autoavaliação ..................................................................................................................113 6.2 Modelos contemporâneos de avaliação de desempenho ..................................................113 6.2.1 Avaliação 180 graus ............................................................................................................................ 113 6.2.2 Avaliação 360 graus ............................................................................................................................ 114 6.3 Tendências na avaliação de desempenho ................................................................................115 Unidade IV 7 EDUCAÇÃO CORPORATIVA E DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL ...................................121 7.1 Gestão do conhecimento ................................................................................................................122 7.1.1 Informação como base para o conhecimento ......................................................................... 123 7.1.2 Conhecimento ....................................................................................................................................... 125 7.1.3 Tipos de conhecimento ..................................................................................................................... 126 7.1.4 Identificação, criação e socialização do conhecimento ....................................................... 128 7.2 Gestão de competências .................................................................................................................133 7.3 Educação continuada .......................................................................................................................134 7.3.1 Gestão de aprendizagem organizacional ................................................................................... 135 7.3.2 Organizações do conhecimento .................................................................................................... 137 7.3.3 Características dos trabalhadores em uma organização do conhecimento ................ 140 8 DESENVOLVIMENTO DE TALENTOS: APRENDIZ, ESTAGIÁRIO, TRAINEE, CHEFE‑EXECUTIVO DE ESCRITÓRIO (CEO) ...............................................................................................142 8.1 Desenvolvimento organizacional: conceito e objetivos .....................................................143 8.2 Pressupostos e processos do desenvolvimento organizacional ......................................144 8.2.1 Conceito de cultura organizacional ............................................................................................. 145 8.2.2 Conceito de desenvolvimento ........................................................................................................ 147 8.3 Mudança organizacional .................................................................................................................148 9 APRESENTAÇÃO Olá, aluno! Integrar, treinar e desenvolver são atributos pertencentes às áreas de gestão de pessoas e de administração de recursos humanos (ARH), que estão ganhando espaço e se solidificando como estratégicas nas organizações. Com as mudanças cada vez mais presentes, o mercado sempre ativo, dinâmico e atuante e as novas competências surgindo, torna‑se essencial atualizar os colaboradores para que acompanhem as transformações da sociedade. Realizando a atualização dos colaboradores, naturalmente o capital intelectual da empresa se modifica, o que a deixa mais competitiva e a mantém viva no mercado de trabalho. Avaliar pessoas é necessário, mas como vou saber como um colaborador está se saindo? Quais são as dificuldades que ele tem? Para “abastecer” a área de treinamento e desenvolvimento, é importante conhecer as pessoas muito de perto. Somente assim criamos programas customizados que possam de fato trabalhar as necessidades dos colaboradores. Portanto, esta disciplina pretenderequer, no mínimo, o aluguel de um espaço físico e o transporte para fazer o traslado das pessoas. Um dos inconvenientes de fazer a capacitação no próprio local de trabalho é que algumas habilidades, para serem bem desenvolvidas, precisam de um espaço novo, diferente de onde se convive no dia a dia. 70 Unidade II 4.1.1 Capacitações no local de trabalho Os principais métodos de capacitações realizados no ambiente de trabalho são os explicados a seguir: • Revezamento de funções: os empregados passam a conhecer melhor as funções desempenhadas por seus colegas. A empresa ganha muito com esse tipo de capacitação, pois, em caso de ausência de um colaborador, outro poderá substituí‑lo. Ao entender uma ampla variedade de trabalhos, os colaboradores percebem a interdependência que existe entre setores, extinguindo o mito de que alguns são mais importantes do que outros. • Nomeação de suplentes: um colaborador mais antigo apresenta a um novato todas as atividades que dizem respeito à sua função. Essa capacitação também é conhecida como “relação de mentor”. O aprendiz trabalha sob a supervisão do funcionário mais antigo, que lhe serve de modelo. Tanto no revezamento de funções quanto na nomeação de suplentes aplica‑se a aprendizagem das habilidades técnicas. Para as habilidades interpessoais e de soluções de problemas, indica‑se a capacitação fora do ambiente de trabalho. Dessa forma, ela surtirá o efeito desejado pela empresa. 4.1.2 Capacitações fora do local de trabalho Existem vários métodos de capacitação fora do local de trabalho à disposição dos gestores. Entre os mais populares, podemos citar as aulas expositivas tradicionais, os vídeos e os exercícios de simulação de possíveis situações. As aulas expositivas tradicionais são excelentes para transmitir aos colaboradores informações específicas de seus cargos e para desenvolver habilidades técnicas e de solução de problemas. Os vídeos também servem para mostrar com mais clareza algumas habilidades técnicas que não podem ser apresentadas por outros métodos. As habilidades interpessoais e de solução de problemas podem ser mais bem trabalhadas por meio de exercícios de simulação (como na análise de casos concretos), de exercícios vivenciais (com a atuação de diferentes papéis) ou, ainda, em sessões de interação do grupo. Alguns cargos, obrigatoriamente, utilizam as técnicas de simulação para realizar a capacitação dos colaboradores. Os pilotos aéreos precisam de exercícios de simulação para seu desenvolvimento profissional. As capacitações fora dos locais de trabalho podem ser realizadas por consultores externos, por universidades locais ou por colaboradores da própria empresa capacitados para exercer o papel de multiplicadores de conhecimento. 4.1.2.1 Capacitações individuais A personalização dos treinamentos é uma prática comum nas grandes corporações. Elas procuram individualizar a capacitação para ajustá‑la ao estilo de aprendizagem de cada colaborador. A forma como um indivíduo processa, internaliza e recorda uma nova informação não é a mesma do outro. Considerando tal aspecto, as empresas acreditam que uma capacitação, para ser eficaz, deve ser individualizada, a fim de refletir o estilo de aprendizagem de cada funcionário. 71 GESTÃO DO CONHECIMENTO Alguns exemplos de diferentes estilos de aprendizagem incluem ler, observar, escutar e participar. Alguns captam melhor as informações pela leitura do conteúdo. Estes fazem parte de um grupo de pessoas que são perfeitamente capazes de, por exemplo, aprender informática por meio da leitura de manuais. Outros aprendem melhor por meio de observações, prestam atenção aos demais e depois tentam repetir o que viram. Estes podem operar uma máquina somente observando outra pessoa fazê‑lo. Os que preferem aprender por meio de escuta apoiam‑se em seu sentido auditivo para absorver as informações. Os arquivos de áudio são perfeitos para eles. Existem também aqueles que preferem aprender na prática, ou seja, assimilar as atividades de suas funções atuando nelas. É possível traduzir esses estilos em diferentes métodos de aprendizagem. Vejamos como: • para melhorar a aprendizagem, os que preferem aprender por meio da leitura devem receber livros e outros materiais para revisar; • para os observadores, deve ser dada a chance de observarem pessoalmente ou por meio de vídeos outras pessoas apresentando suas novas habilidades; • para os que preferem aprender por meio da escuta, devem ser fornecidos arquivos de áudio para enriquecer seus conhecimentos; • para os que preferem aprender fazendo, mais oportunidades devem ser possibilitadas para que eles possam simular e praticar suas novas habilidades. Esses estilos diferentes de aprendizagem não são mutuamente excludentes. É certo que os bons professores sabem que seus estudantes aprendem de diferentes formas e, por isso, estão sempre procurando apresentar‑lhes variados métodos de aprendizagem. Dessa forma, procuram mesclar as ferramentas dos diversos métodos para tentar chegar ao ideal. Os professores também podem estimular os alunos a realizar atividades em grupo, analisando situações concretas ou aplicando exercícios de aprendizagem vivencial. Quando você puder identificar em um colaborador a sua melhor forma de aprendizagem, mais fácil será desenvolver um programa de capacitação personalizada, para que este possa otimizar essa preferência. Porém, se você não teve oportunidade de obter essa informação, é melhor que seja oferecido aos colaboradores um programa de capacitação mais variado, que englobe as diferentes formas de aprendizagem e contemple os diferentes tipos de recursos didáticos auxiliares. Os principais métodos de treinamento são os explicados a seguir: • Método de rotação de cargos: implica um rodízio realizado entre os colaboradores nos diferentes cargos. • Método de aprendizagem prática: o colaborador conhece sua função no próprio posto de trabalho. 72 Unidade II • Método de posições de assessoria: o colaborador auxilia nas mais diversas funções da empresa, podendo conhecer, mesmo que superficialmente, um pouco do trabalho de cada um. • Participação em palestras, cursos e seminários: esse modelo pode ser aplicado dentro ou fora da empresa e é um dos métodos mais utilizados pelas empresas, apesar de seu custo algumas vezes ser bem alto. Requer bastante disciplina do colaborador para que ele possa adquirir o maior conhecimento possível. • Jogos de empresas: nesse caso, algumas situações que representam o dia a dia da organização são destacadas de forma lúdica. Saiba mais Você acha que comportamentos afetam resultados? Leia o texto a seguir. CARVALHO, P. Comportamentos afetam resultados? LinkedIn, 12 out. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3o9njsz. Acesso em: 17 abr. 2025. Cabe diferenciar método de técnica. No método, aborda‑se o conjunto de regras estabelecidas como princípios para conduzir os procedimentos para a execução. O método define o que deve ser feito, quais são as etapas e qual é a sequência lógica, do planejamento até a avaliação do aprendizado. Já as técnicas são os procedimentos didáticos utilizados pelo instrutor ou pelo professor para viabilizar o processo de ensino‑aprendizagem a que se propõe um método. A técnica define como as etapas serão executadas. Lembrete Utilizar apenas um estilo de aprendizagem coloca em desvantagem os colaboradores que não aprendem bem dessa forma. 4.1.3 Método do estudo de caso É uma abordagem investida de metodologia científica e desenvolvida para a aplicação em estudos de acontecimentos ou situações complexas. Na educação, sempre que o pesquisador ou educando depara com situações ou fatos de elevada complexidade, que dificultam a identificação e o tratamento conjunto de muitas variáveis e a interação e integração de diversos aspectos relevantes, o uso do método faz‑se necessário. O estudo de caso pode ser entendido também pela sua dimensão de método de pesquisa de campo, com objetivo central de avaliara interação entre fatos e eventos. 73 GESTÃO DO CONHECIMENTO O estudo de campo envolve diversas técnicas de observação e de levantamento de dados, em fatos e fenômenos independentes da interferência do pesquisador. Já o estudo de caso pode ser entendido como o evento, ou o conjunto de eventos relacionados, que ocorre com uma individualidade, grupos, sociedade ou organização. O estudo de caso permite uma investigação específica e particular, em que deliberadamente o pesquisador procura extrair o que essa situação tem de mais característico e essencial para contribuir parcial ou totalmente para a compreensão de fenômenos gerais ou eventos de interesse geral. Enfim, o método do estudo de caso funciona como uma ferramenta pedagógica, principalmente nos níveis de ensino em que os participantes têm independência intelectual e crítica. Ressalta‑se que muitas das grandes escolas norte‑americanas de negócios se baseiam, especialmente, nos métodos de estudo de casos. A grande utilização do método deve‑se aos resultados obtidos no desenvolvimento de habilidades e competências relativas ao pensamento analítico, à tomada de decisões e ao trabalho em equipe, entre outras. Contudo, cabe salientar que esses resultados serão obtidos apenas se os docentes e discentes estiverem cientes das possibilidades e conhecerem profundamente o método; caso contrário, a sua aplicação pode gerar frustração e desperdício de recursos, de esforço e de tempo. Na sala de aula, o método de estudo de caso consiste em uma análise prévia da capacidade situacional dos alunos participantes, bem como da escolha adequada dos casos mais apropriados para essa ocasião: tempo necessário; situações passíveis de estudo e de interpretação; correlação com o conteúdo programático do curso ou treinamento; e habilidades a serem desenvolvidas. Resumindo, o estudo de caso é uma estratégia educacional que objetiva proporcionar: • reflexões sobre situações complexas, identificando e correlacionando aspectos e variáveis múltiplas, importantes para o seu entendimento; • apresentação de um problema, permitindo análises e reflexões sobre determinado assunto ou tipo de conhecimento; • utilização de casos variados, desenvolvendo habilidades para análise e adaptação do aluno a diversificados tipos de situações empresariais; • desafios que requeiram o emprego de técnicas quantitativas de pesquisa, exigidas em muitos tipos de casos; • definição de uma estrutura consistente que permita a reflexão e o debate de ideias entre os estudantes. Diferentemente da utilização em pesquisa de campo, o caso aplicado com fins educacionais pode se basear em um texto que narra a situação‑problema, de forma resumida, trazendo os elementos e os aspectos principais para o entendimento situacional, as variáveis que se pretende colocar em análise 74 Unidade II e os dados e fatos que apresentam claramente os problemas a serem discutidos. Não há necessidade, como no caso da pesquisa de campo, de obtenção de todos os fatos, variáveis, dados e características de forma “completa”. O caso, para esse fim, deve apresentar de forma sintética os principais aspectos necessários para a sua compreensão. A utilização de casos, no estudo de administração e negócios, prima em descrever situações reais de negócios, selecionando e apresentando os aspectos mais críticos para o entendimento de um evento organizacional real. Trata‑se de um modelo representativo da situação ou do evento real que permite o desenvolvimento ou o aprimoramento de habilidades e práticas administrativas. Veja as finalidades pedagógicas do método estudo de caso, segundo Nelson (2002): • análise de um caso prático que suscite decisões; • julgamento da postura e da atitude de personagens do caso; • planejamento e visão de fatores e aspectos envolvidos na solução da situação; • estudos e reflexões de diversas dimensões; • identificação e seleção de soluções teóricas para uma situação‑problema proposta; • apresentação de princípios administrativos particulares e aplicáveis ao caso; • independência e liberdade para analisar, propor e arriscar soluções sem a possibilidade ou incursão de riscos e prejuízos reais; • aumento de confiança e responsabilidade dos gestores; • comparação de situações complexas e específicas; • desenvolvimento de habilidades conceituais, humanas e técnicas; • dinamização do ensino‑aprendizagem. Os casos podem ser classificados de diversas formas, de acordo com a sua veracidade, seu tamanho, sua aplicabilidade e seus objetivos, como vemos no quadro 20 a seguir. 75 GESTÃO DO CONHECIMENTO Quadro 20 – Classificação dos casos Classe Característica Tamanho Dimensões do caso: tempo para solução, volume do texto Diversidade Profundidade: dos simples aos mais complexos Apresentação Formal, informal, linear, sequencial, verbal ou por escrito Veículo Texto, filme, tela do computador Finalidades pedagógicas Exemplificação e aplicação de conceitos e teorias, desenvolvimento de múltiplas habilidades e aprimoramento intelectual do participante por meio do confronto com situações reais Grau de disponibilização de informações Quando as informações apresentadas não são suficientes para o entendimento e a solução da situação‑problema, obrigando os participantes a pesquisar em outras fontes para as complementações, é o caso de informações escassas. Na situação em que são suficientes, temos o caso de informações adequadas. Quando existem informações a mais, no intuito de obrigar o estudante a selecionar as informações relevantes, temos o caso de informações abundantes Estruturação Conceitos apresentados dentro de uma lógica sequencial e natural, ou seja, trata‑se de um caso bem estruturado. A estruturação pode ter o nível alto, médio ou baixo Complexidade do caso Dificuldade apresentada para desafiar os participantes, bem como o nível de intelectualidade, amadurecimento ou experiência dos estudantes desafiados Adaptado de: Richardson et al. (1994). 4.1.4 Aula expositiva É um método tradicional de ensino bastante utilizado no ensino de adultos, adolescentes e crianças nos diversos níveis de alfabetização, em cursos técnicos e em cursos superiores. O problema é que, por ser tradicional e antigo, é considerado natural, ou mesmo sinônimo de “dar aula”, o que, muitas vezes, impossibilita uma reflexão mais profunda da sua aplicabilidade, das técnicas envolvidas e da adequação do professor ou instrutor. Como todo método de ensino, ele tem seus prós e contras, podendo ser aplicado de forma excelente ou de modo péssimo. Entre um extremo e outro, existem infinitas possibilidades e classificações quanto à qualidade de sua aplicação e aos seus resultados. Pode‑se imaginar alguém em pé no tablado de uma classe, com um papel meio amassado na mão e mal conseguindo ler sem tropeços em virtude do despreparo ou do ineditismo da leitura. Claro que essa situação não apresenta uma aula expositiva nem classificável como péssima. A desatenção ao método pode gerar inúmeras situações parecidas em atuações que deveriam ser profissionais e excelentes. O método expositivo pode ser entendido como o ensinar pela palavra. O mestre verbaliza, e, ao ouvirem, os alunos aprendem. Nele, existe uma via única de comunicação no processo ensino‑aprendizagem. Isso não impede o uso de materiais de apoio bem preparados e utilizados com técnicas particulares. São permitidos os usos de slides e vídeos. Enfim, o foco da aula expositiva é a verbalização do ensino como meio de captação, aprendizado e retenção do conhecimento pelos alunos. 76 Unidade II Entre as vantagens do método aula expositiva, temos as elencadas a seguir: • a comunicação verbal pode despertar interesse intrínseco do assunto e sua integração com o todo da disciplina; • o comprometimento e o entusiasmo do mestre ficam evidentes tanto em sua postura quanto em sua fala. Sua motivação potencializa todos os aspectos: qualidade do texto, adequação ao nível do ensino, maturidade e preparaçãodos alunos, o que melhora o nível do aprendizado; • há a compreensão de materiais e assuntos complementares que não podem ser inseridos em outros métodos; • há a possibilidade de variações e adaptações, por parte do expositor, baseadas em suas percepções e na manifestação de aprendizado pelo alunado; • há a abrangência física de muitos alunos de uma única vez, dependendo do espaço físico e das condições de ampliação do áudio da exposição; • há a consolidação do expositor como um modelo para os alunos presentes; • há o controle da transmissão, da revisão e dos diversos destaques, de acordo com as necessidades do expositor; • há a manutenção da audiência em uma posição de conforto e tranquilidade, pois, em geral, não será confrontada nem terá de se expor por meio de manifestações e debates a respeito dos assuntos discutidos. Embora seja um método consagrado e utilizado em larga escala ao longo da história da educação, a aula expositiva apresenta algumas desvantagens, as quais suscitaram o desenvolvimento de outros métodos que possibilitassem suprir suas lacunas. Entre as desvantagens do método aula expositiva, temos as elencadas a seguir: • a falta de interatividade entre o expositor e sua audiência. O feedback que poderia ser obtido por interferências, questionamentos e participações dos alunos seria primordial para a correção ou a intensificação na exposição que se fizessem necessárias; • há passividade e manutenção dos ouvintes em sua “zona de conforto”, o que pode ocasionar alienação, inclusive em relação ao conteúdo ministrado. O aprendizado acaba sendo prejudicado pela falta de atividades que exijam a participação e a atuação dos alunos. O ideal seria propor uma postura participativa do estudante; • há a dicotomia entre o tempo de exposição e a manutenção da intensidade de interesse e capacidade de retenção dos alunos. São inversamente proporcionais o prolongamento do tempo 77 GESTÃO DO CONHECIMENTO de exposição e o grau de aprendizado do discente. Em média, ele ouve e retém, satisfatoriamente, o que é dito em torno de 20 a 25 minutos. Portanto, ao utilizar o método de aula expositiva, o professor deve intercalar outros modelos ou atividades para restaurar o nível ideal de atenção e interesse do grupo; • há, muitas vezes, a impossibilidade, aula a aula, assunto a assunto, de o expositor analisar o nível de compreensão prévia, a experiência ou o preparo de cada aluno. Com isso, o instrutor/ professor deve utilizar como parâmetro o nível médio de entendimento. Encontrar‑se‑á sempre um grupo de pessoas abaixo dele, que terá mais dificuldades para acompanhar e entender da exposição, da mesma forma que haverá indivíduos que estarão acima, mais preparados, e perceberão a exposição como lenta, muito simples ou mesmo desinteressante; • há a inadequação do método para o desenvolvimento de habilidades, principalmente as motoras, que requerem práticas e experimentação presencial pelos alunos. É um método mais adequado para o ensino de conceitos e definições ou para o relato de fatos; • a exposição depende da destreza e das habilidades do expositor para atingir os fins a que se destina. Se ele tiver deficiências nas técnicas para falar e dominar o público, sua aula será falha e causará frustrações e resultados deficientes. 4.1.5 Dramatização É um conjunto de técnicas grupais que utiliza artifícios cênicos e teatrais no intuito de alterar e adequar habilidades comportamentais. Baseia‑se na técnica de tornar concreta a situação que dá forma ao conhecimento e à teoria do que foi ministrado anteriormente. Funciona muito bem com alunos e participantes de nível de escolaridade médio ou superior, pois exige certa maturidade intelectual para a percepção dos detalhes e para a aquisição dos conhecimentos. Isso envolve, muitas vezes, o entendimento não só da fala, mas de um conjunto complexo de variáveis, fatores e contextos inseridos na encenação. Pode ser utilizada para públicos diversos, mas exigirá cuidados especiais com os temas, os detalhamentos e as linguagens a serem empregados. Trata‑se de um jogo de papéis (role playing): seleciona‑se uma situação real, e, com inspiração nessa realidade, serão explorados pedagogicamente os principais fatores envolvidos ou que exemplifiquem os conteúdos discutidos em aula. 78 Unidade II Veja, no quadro a seguir, os objetivos da dramatização. Quadro 21 – Objetivos da dramatização Objetivos Observação Empatia Consiste em situações empáticas em que é permitido assumir o papel do outro interlocutor Realidade social Trata‑se da apresentação de situações de relacionamentos interpessoais, em que é possível observar ou participar de experiências que mostrem problemas de inclusão e comportamentos adequados ou inadequados à socialização das pessoas Segurança pessoal A expressão verbal e corporal é uma importante aliada dos colaboradores e executivos na atuação profissional dentro e fora da empresa Análise e solução de problemas É a análise de diversas dimensões de uma situação‑problema, a ser extrapolada para a realidade do grupo ou da organização Comunicação Ocorre pela observação e análise de situações provocativas para estudo direto da comunicação e pela participação de situações simuladas que exijam padrões inovadores de comportamento e expressão Representação Permite que os atores representem seus medos, suas dificuldades e seus problemas, profissionais e pessoais, no papel de personagens que não têm ligação alguma com a sua pessoa e a sua intimidade, externamente falando Socialização do grupo A dramatização facilita a interação e a integração dos componentes de um grupo ou setor da empresa. Também deve ser utilizada para integrar indivíduos de grupos ou setores diferentes A realização da dramatização firma‑se na encenação de uma situação‑problema, na qual são apresentados problemas comportamentais ou de relações humanas, em que a síntese e a análise crítica dos papéis são reproduzidas tanto por quem os representa quanto por quem observa e examina a cena. O roteiro e o resumo dos papéis devem ter apenas o essencial, em termos de emoções e de reações esperadas de cada personagem. O restante precisa ser incorporado e realizado pelos “atores”, permitindo a participação psicológica dos colaboradores atuantes, viabilizando seu desenvolvimento social, diminuindo a timidez e melhorando a comunicação. Veja, no quadro a seguir, aspectos relativos ao planejamento e à execução da dramatização. Quadro 22 – Planejamento e execução da dramatização Planejamento da dramatização Seleção e construção, por parte do facilitador, de uma situação‑problema que abrange condições e incidentes que têm aderência com o conteúdo e a aprendizagem objetivados Elaboração e redação de fichas de característica e perfis dos papéis a serem representados pelo alunado Definição dos quesitos, dos fatores a serem observados e dos critérios a serem utilizados para observar e analisar. Apresenta‑se uma planilha Escolha e negociação da participação de cada colaborador e dos papéis que cada um irá representar Seleção do grupo que irá, criteriosamente, observar e analisar os fatores e os pontos previamente destacados e selecionados Apresentação sucinta da situação concebida e como se pretende que seja encenada 79 GESTÃO DO CONHECIMENTO Execução da dramatização Preparação da ação Os alunos reúnem as informações fornecidas pelo facilitador e discutem e definem como será executada a encenação da situação. Pode ser feita com ou sem a participação do facilitador Encenação Os atores representam a situação, incorporando o mais intensamente quanto possível os papéis definidos. O grupo de observação acompanha e analisa, criteriosamente, a encenação Análise Os alunos atuantes, os observadores e o facilitador reúnem‑se O alunado analisa fatos, aspectos importantes, comportamentos e relacionamentos apresentados São feitas discussões e apresentações de percepções e de argumentos de todos os participantes O facilitadorprocede à síntese dos comentários e relaciona‑os com os fatos e os problemas apresentados. Quando for o caso, apresenta as soluções encontradas para o(s) problema(s) colocado(s) em discussão 4.1.6 Simulação (jogos) Os jogos permitem aos participantes atuações, em grupo ou individuais, envolventes. Considerando‑se as decisões feitas e os resultados obtidos, observa‑se a atitude dos participantes durante a realização das fases do jogo: sagacidade, comprometimento e capacidade de análise, de liderança e de servir à equipe. Essas observações permitem que mestres ou professores cheguem a conclusões no que se refere às dimensões cognitivas, emocionais e sensoriais motoras. Os jogos de empresa são uma das técnicas de simulação mais importantes e utilizadas atualmente, nos quais equipes atuam como empresas fictícias e competem tomando decisões estratégicas, táticas ou operacionais, considerando situações práticas reais ou imaginadas. Destinam‑se a executivos, gestores de empresas, estudantes de nível superior e futuros gestores. Trata‑se de simuladores de negócios atuantes no mercado, envolvendo a gestão de áreas específicas de companhias, como marketing, finanças ou operações produtivas. É uma atividade lúdica e prazerosa, em que as facilidades do preparo permitem que o jogador analise as variáveis ambientais internas e externas e tome suas decisões visando à maximização dos resultados da operação simulada. A diversão, o entretenimento e a competição são requisitos primordiais para envolver e comprometer os alunos, e isso cria um ambiente muito próximo do verdadeiro, no qual os estudantes sentem‑se vivenciando a realidade dos negócios. O facilitador deve ser experiente e preparado para fazer prevalecer os aspectos mais importantes para o aprendizado e para uma experiência ampla e completa. Ele deve evitar que grupos de alunos, devido a uma agressividade competitiva, concentrem‑se somente na pontuação e nos resultados avaliados positivamente, pensando apenas no acúmulo de pontos como um fim em si mesmo e perdendo de vista os diversos aspectos e as diversas experiências que deveriam vivenciar. O atuar para ganhar pura e simplesmente deturpa o objetivo maior dos jogos, transformando‑os em uma atividade chata e mecânica, o que resultará em frustrações pessoais e pedagógicas. A liderança do 80 Unidade II facilitador durante o jogo é determinante e influencia a maneira como os participantes atuam e suas posturas diante dos desafios que serão propostos. Deve‑se fazer um trabalho inicial de conscientização e de comprometimento dos participantes com a filosofia e os objetivos da simulação. A eficácia – ou seja, o atingimento dos objetivos pedagógicos do jogo – está diretamente ligada à atuação e à liderança do facilitador. Inicialmente, deve‑se fazer um “aquecimento” das equipes, por meio de uma aula magna sobre os fundamentos e os conhecimentos envolvidos no processo. Nessa aula, podem ser apresentados os principais aspectos, a fase do jogo e sua relação com os resultados pedagógicos esperados. Assim, são criados vínculos emocionais, técnicos e didáticos com o jogo, a fim de convencer o grupo a participar com afinco e de obter o desenvolvimento máximo de habilidades fundamentais para a sua formação. Veja, no quadro a seguir, aspectos relativos ao método de simulação ou método do jogo. Quadro 23 – Método de simulação ou método do jogo Método do jogo Apresentação clara dos fundamentos e dos conhecimentos envolvidos na atividade Divulgação das finalidades do jogo e dos objetivos a serem atingidos Organização do ambiente: verificação dos equipamentos, da disponibilidade de máquinas e cadeiras, da adequação do espaço físico e dos materiais a serem distribuídos, impressos ou eletronicamente. Devem existir softwares e manuais de operação disponíveis e atualizados Nivelamento do grupo, por meio do estudo do currículo, da identificação do nível de escolaridade, das experiências e dos objetivos de cada participante Apresentação do planejamento das atividades, das etapas de execução e dos cuidados a serem tomados Comunicação escrita é imprescindível. Devem ser utilizados quadros, com a distribuição de papers instrucionais Esclarecimento de todas as dúvidas sobre o funcionamento e as instruções que acabaram de ser fornecidas sobre o jogo como um todo e sobre cada etapa a ser iniciada Definição do tempo total do jogo ou da etapa a ser jogada. Alertas periódicos sobre o andamento da atividade e o tempo restante para a sua finalização Exemplificações sobre aspectos, definições ou procedimentos mais complexos a serem adotados Durante o jogo Aproximação com os participantes. Circulação pela sala e estabelecimento de relacionamentos bem próximos e intimistas com equipes e jogadores Observação e registro da postura e dos comportamentos dos participantes durante suas interações com os desafios do jogo (liderança, cooperação, obstruções, comunicação e relacionamentos com o grupo, entre outros) Atenção e atendimento às solicitações e às dúvidas, mas é interessante interferir o mínimo possível, somente quando for requisitado ou perceber que certo procedimento em curso pode interferir negativa e definitivamente na continuidade da participação do indivíduo, da equipe ou da totalidade dos participantes Finalização Coleção de testemunhos sobre facilidades, dificuldades, objetivos atingidos e não cumpridos durante o jogo Estímulo, por meio de depoimentos, questionamentos e incitações, para que os participantes intensifiquem o fornecimento de informações e impressões sobre a participação no jogo. Valorização da participação Questionamentos aos participantes e às equipes sobre situações registradas, lideranças, cooperação, conflitos, falta de entendimento etc. Briefing e sintetização dos principais fatos, aspectos e benefícios detectados como resultados do jogo Comparação e correlações do jogo e seus resultados pedagógicos com o conteúdo relacionado e a realidade profissional 81 GESTÃO DO CONHECIMENTO 4.1.7 Workshop Em workshops, palestrantes muito experientes costumam transmitir conhecimentos específicos para um público de especialistas. A ideia é incluir, nas palestras, alguns ingredientes especiais que irão acrescentar novidades ou inovações nas práticas da área em foco. Por meio de experimentações e vivenciamentos controlados ou simplesmente conduzidos, individualmente ou em grupos que subdividem a plateia, os participantes terão uma sessão de prática dos ensinamentos colocados em discussão. Alguns eventos são baseados não em uma palestra, mas em várias palestras harmonicamente selecionadas e organizadas, de forma a propiciar ao público um conjunto de conhecimentos que se completa pela contribuição dos diversos especialistas que interagem com a plateia. A duração normal de um workshop é de um dia inteiro, o que exige escolhas bem específicas de palestrantes importantes e de um público interessado, além de um local bem amplo e confortável para abrigar e manter tranquilos e aconchegados os participantes do evento. Vale destacar que, nas palestras convencionais, o ouvinte é passivo e fica em estado receptivo para absorver todos os ensinamentos e experiências transmitidos pelo palestrante durante todo o evento. No workshop é diferente: nele, a plateia não é apenas mera espectadora, pois, no decorrer das exposições, ela será preparada e motivada a se envolver e participar, em determinados momentos ou em todos, dependendo do planejamento, da condução dos trabalhos e do perfil do facilitador, bem como do aprendizado proposto para o evento. Muitas vezes, os participantes são convocados a participar intensamente, vivenciando atividades práticas ou experiências que remetem ao tema colocado em discussão. Nesse sentido, o workshop tem caráter mais prático, e sua condução vai exigir do palestrante ou facilitador grande dedicação e abertura ao diálogo, à participação e ao confronto, por meio de debates. Em geral, nesses eventos, são incentivados os trabalhospráticos de montagens manuais, exercícios de realização e produções artísticas e técnicas, individuais, em grupos ou em painéis de plenárias, com recursos audiovisuais ou dinâmicas de dramatização. As exposições e as palestras são, na maioria das vezes, ministradas por peritos nas áreas de conhecimentos contextuais do evento; o intuito é provocar e incentivar as manifestações de desenvolvimento comportamental, técnico, criativo ou artístico, a ser complementado e continuado posteriormente. A seguir, alguns aspectos relativos ao workshop: • pesquisar e selecionar o tema ou assunto do evento; • elaborar a programação do evento, detalhando os aspectos importantes e os tipos de especialistas responsáveis por cada fase; • preparar toda a logística necessária: local, instalações, profissionais de suporte, máquinas e equipamentos e materiais de uso geral – computadores, pen drives, projetor, microfones para palestrantes e plateia, telas para projeção, mesas, equipamentos individuais para a plateia; 82 Unidade II • pesquisar e conhecer o público participante. Isso viabiliza a seleção de temas e de assuntos interessantes e envolventes; • realizar a escolha do(s) palestrante(s). Decisão muito importante, pois os participantes, em geral, têm muita experiência na área abordada no workshop; • contratar empresa especializada ou adquirir equipamentos de suporte, como projetores de qualidade e computadores com potência adequada; • realizar a programação e divisão do evento em blocos temáticos ou em fases de realização, com os devidos intervalos para preparação da fase seguinte, relaxamento, descanso e reflexão por parte dos participantes. Além disso, deve haver a programação para tomar água, ir ao banheiro e alimentar‑se; • definir assuntos mais complexos e densos como os primeiros a serem apresentados e tratados, bem como as atividades que exijam mais dedicação e esforço físico e mental da plateia; • fazer a seleção dos melhores, em termos de retenção da atenção do público, dos mais engraçados, daqueles com as abordagens mais interessantes e dos hipnotizadores de público para o final. A atenção da plateia tende a diminuir com o passar do tempo e com o decorrer dos trabalhos; • utilizar meios eletrônicos para a distribuição dos materiais (pen drives, CDs, DVDs ou mesmo tablets) já carregados com o conteúdo. Isso aumenta o interesse do público e fornece uma conotação de seriedade ao evento; • estabelecer meios para coletar o feedback do público, intermediariamente e no final do evento (opiniões, dúvidas, dificuldades e sugestões). O feedback é de suma importância para a correção de falhas nas edições seguintes e para a elaboração e o desenvolvimento de novos tipos de eventos. Quadro 24 – Cuidados especiais a serem tomados em workshops Cuidados Detalhes Expertise do palestrante Durante os preparativos, quando não tiver como ponto de partida o palestrante especialista, tenha cuidado ao escolher o palestrante. Os grupos de participantes de workshops têm, em geral, especialização prévia ou formação profissional básica na área‑tema. A escolha de um profissional não especializado nem experiente na área pode gerar desinteresse e até mesmo constrangimento durante as exposições Diretrizes temáticas Siga as diretrizes temáticas do evento, não misturando assuntos de áreas não correlatas e conflitantes. Isso pode criar dificuldades pedagógicas. O workshop deve funcionar como uma imersão ou um curso intensivo sobre um assunto‑tema bem específico Divulgação ao público‑alvo Não adianta a contratação dos melhores palestrantes, locais, equipamentos e equipe de suporte se o evento não tiver um público expressivo e conforme o previsto. A divulgação do evento deve seguir as regras básicas do marketing promocional. Deve‑se divulgar adequadamente o evento, de acordo com os locais frequentados pelo público‑alvo: hospitais, consultórios, associações, conselhos, sindicatos, universidades, locais de diversão etc. 83 GESTÃO DO CONHECIMENTO 4.1.8 Palestras e seminários O seminário tem como objetivos principais expor e discutir um assunto específico e profundo, tendo como fonte um expositor, com suas experiências, suas pesquisas e sua expertise profissional ou científica. No seminário, em geral, o público participa passivamente na primeira fase (exposição), é convocado a participar ativamente na segunda fase (discussão) e tem uma atuação mista na terceira fase (análise e conclusão). Já a palestra não tem essa proposta de aprofundamento: é uma síntese de um assunto tratado minuciosamente, do qual são extraídos os principais aspectos e as principais conclusões ou inovações. Seu planejamento e sua organização devem ser criteriosos, pois, devido à sua curta duração, os assuntos devem ser apresentados em sua essência, ressaltando‑se os pontos cruciais da discussão e destacando‑se o que de mais interessante pode haver na atualidade sobre o tema em questão. As palestras são especialmente indicadas para a atualização profissional, no caso de eventos externos, e para a disseminação de conhecimentos e boas práticas, no caso de eventos internos. Representam uma boa oportunidade de atingir um grande público com custos reduzidos. As palestras internas, além de servirem ao objetivo de treinamento, são poderosos instrumentos de integração e de melhoria do processo de comunicação, com reflexos diretos no aumento da produtividade e no desenvolvimento do próprio palestrante. O seminário consiste na reunião de um grupo reduzido de pessoas e pretende estudar de forma aprofundada determinado assunto. O evento ocorre em uma ou mais oportunidades, dependendo da abrangência e do nível de interesse no aprofundamento no tema. Assemelha‑se a um congresso, mas com a participação de um público menor, bem seleto e homogêneo. Veja alguns aspectos referentes aos seminários: • pesquisa e identificação de problemas e de soluções; • participação de interessados em expor seus conhecimentos e discutir o assunto/tema; • estímulo às discussões sobre o assunto; • conclusões individuais, não necessitando chegar a conclusões gerais sobre o assunto; • estudo de ideias e apresentação de novos conhecimentos, em grupo, reunindo as opiniões e os insights de interesse; • troca de experiências entre indivíduos e grupos com os mesmos interesses e conhecimentos; • seleção de um grupo pequeno de peritos; • realização de análises e apresentação de conclusões a cada etapa ou sessão realizada. 84 Unidade II 4.1.9 Brainstorming É uma técnica muito aplicada, principalmente em Métodos de Análise e Solução de Problemas (Masp), pois serve para o estímulo e o registro de ideias, primeiramente em quantidade e, em seguida, buscando a qualidade das contribuições. Trata‑se de uma técnica grupal utilizada para a geração da maior quantidade possível de ideias sobre um assunto‑tema. Essa técnica apoia‑se na dinâmica de grupo e em suas nuances, bem como na criatividade dos participantes. É potencializada pela criatividade do grupo, quando da divulgação das ideias sugeridas, para que todos tomem conhecimento à medida que elas vão surgindo. Pode ser utilizada para: • identificação de causas de um problema colocado claramente em discussão; • reconhecimento de problemas que estão afetando determinada operação; • enumeração das alternativas de solução, a serem selecionadas e priorizadas em outra oportunidade. O brainstorming pode ser estruturado ou não. No primeiro, o facilitador organiza as ações e a sequência em que cada participante fará as suas intervenções, dando suas sugestões. Na forma não estruturada, o facilitador restringe‑se a apresentar e a esclarecer o problema ou a situação‑problema a ser analisada, e as participações são espontâneas, sem ordenamento nem interferência de quem quer que seja. Como é um processo criativo, as intervenções de terceiros ou críticas às sugestões e ideias são terminantemente proibidas. Veja, a seguir, os aspectos do brainstorming: • escolha do facilitador pelassuas características (motivador, incentivador etc.) – ele deve ser experiente e líderar grupos e dinâmicas; • discussão e identificação do problema a ser analisado e sua abrangência (onde começa, onde termina, áreas envolvidas e afetadas, consequências e impactos) – esclarecimento de dúvidas sobre o problema; • formulação do problema; • disposição das pessoas de forma adequada, preferencialmente em semicírculo – em “U” – ou em círculo; • determinação de um tempo para a sessão de geração de ideias; • geração de ideias (modo estruturado ou modo não estruturado); • definição de tempo para que todos verbalizem as suas ideias em frases curtas e concisas (para não tomar tempo excessivo); 85 GESTÃO DO CONHECIMENTO • proibição de conversas paralelas, piadas, risos ou qualquer comportamento que perturbe a ordem ou a concentração do grupo; • registro de cada ideia apresentada: o facilitador tem a incumbência de tornar explícitas as ideias cada vez que forem apresentadas, ele deve fazer uso de flip chart, quadro branco, quadro de giz, cartazes para a exposição e a visualização das ideias por todos os participantes; • relato periódico das ideias apresentadas para disseminá‑las e incentivar seu conhecimento, na totalidade, por todos os participantes – as ideias dadas servem como referência e fonte de novas ideias para os participantes; • não se deve permitir nenhuma crítica ou comentário, positivo ou negativo, a respeito das ideias apresentadas pelos demais participantes – as intervenções podem inibir outras participações do indivíduo ou dos demais colegas; • terminada a sessão de geração de ideias, elas devem ser reunidas, organizadas, classificadas, tratadas, escolhidas ou priorizadas com a utilização de outras técnicas mais adequadas para esse fim. O brainstorming é uma ferramenta própria para a produção de ideias, alternativas e soluções para problemas. Tem como principal objetivo neutralizar as inibições individuais ou do grupo, promovendo a geração de insights. Assim, desenvolve a criatividade e a espontaneidade dos participantes, criando um clima motivador e inovador. A seguir, listamos as aplicações do brainstorming: • desenvolvimento da criatividade dos participantes; • aprimoramento do comportamento inovador; • capacitação para liderança, iniciativa e proatividade; • criação de clima de alegria e entusiasmo na equipe; • eliminação ou redução de bloqueios e inibições para participação e sugestões de ideias e soluções. 4.1.10 Dinâmicas de grupo São atividades em grupos, pequenos ou grandes, formados por uma ou várias subequipes, em que os participantes vão responder a questionamentos ou problemas que lhes são colocados por meio da produção de ideias desenvolvidas coletivamente. Aos participantes, devem ser fornecidos dados e informações, pelos facilitadores, sobre o assunto/tema ou a situação‑problema. A partir daí, eles vão interagir, discutir em grupo e apresentar sugestões, opiniões ou soluções para o que lhes foi proposto. 86 Unidade II Como técnicas de atividades em grupos, temos, por exemplo, as explicadas a seguir: • Reunião de discussões e debates: consiste em análises, discussões e tomadas de decisão em grupo sobre a atividade profissional dos participantes. O grupo é liderado por um facilitador, que organiza as discussões e cria sinergia entre os colaboradores. A técnica baseia‑se no aproveitamento dos conhecimentos pessoais e profissionais dos participantes, adquiridos em sua trajetória profissional e com suas experiências até o momento. • Brainstorming: popularmente conhecido como “toró de parpite” ou tempestade de ideias, como vimos anteriormente. O grupo é levado a superar as barreiras de inibições e de restrições de censura para que contribua com ideias em grande número, visando‑se extrair, da quantidade, a qualidade das contribuições. Durante a aplicação do método, quanto menos regras e menos intervenções houver, melhor. • Dramatização: dinâmica de aplicação não tão simples como as demais, pois exige preparação maior, além de conhecimentos específicos do facilitador. O grupo pode dividir‑se em dois, sendo que um será o de atores, que irão representar e encenar a situação‑tema, e o outro de observadores, composto de colaboradores, que irão registrar suas impressões sobre posturas, aspectos significativos e sentimentos percebidos durante o evento. • Demonstração: um professor, mestre ou instrutor demonstra na prática os procedimentos para a elaboração de um trabalho. Os alunos participam registrando e assimilando pelo exemplo e, depois, praticando os conhecimentos aprendidos e transformando‑os em habilidades básicas que serão aperfeiçoadas posteriormente. A técnica deve ser aplicada para finalizar treinamentos que transmitem conhecimentos teóricos inicialmente, mas que pretendem desenvolver habilidades motoras aplicadas a atividades profissionais manuais de montagem, de construção e de elaboração de obras pelos participantes, por exemplo. • Discussão Phillips: também conhecida como discussão 6/6, em razão de sugerir uma subdivisão do grupo participante em subgrupos com seis elementos, que terão seis minutos para a discussão dos temas propostos. O clima para a realização das atividades é o mais informal possível. A informalidade e a descontração servem de estímulo para a liberação da criatividade e o desenvolvimento do espírito de responsabilidade, resultante da divisão do trabalho, bem como de habilidades para atuar em atividades em grupo. Veja, a seguir, as etapas da discussão de Phillips: — o facilitador ou o professor formula o problema a ser discutido; — é realizada a subdivisão dos grupos de 6 em 6; — define‑se o prazo para as discussões (6 minutos); — são estimuladas as discussões distribuídas nos subgrupos anteriormente definidos pelo facilitador; 87 GESTÃO DO CONHECIMENTO — o líder de cada subgrupo registra e redige as conclusões do subgrupo; — efetua‑se a coordenação do tempo pelo facilitador – é possível que os subgrupos sejam mais produtivos do que o esperado, e, por isso, são permitidos mais alguns minutos, além dos 6 iniciais; — o facilitador cede a palavra para que os porta‑vozes dos subgrupos apresentem suas conclusões; — resumo e conclusões – com a participação de todos e a coordenação do professor facilitador, o grupo elege as conclusões mediante consenso. • Discussão livre: trata‑se de uma reunião informal proposta por um pequeno grupo de colaboradores, sem restrições de intervenções na organização de sua execução. Quando se trata de equipes autogeridas e autocontroladas, atinge‑se, com essas reuniões, o ápice da criatividade, da proatividade e da comunicação em grupo. A discussão, como técnica geral, consiste na formação de um grupo de pessoas, alinhado por meio de objetivos comuns. Baseia‑se em um tripé lógico: compreensão, reflexão e cooperação. As fases de realização de discussão são as seguintes: — identificação e formulação do problema ou do assunto‑tema; — análise dos dados e dos fatos disponibilizados pelo organizador/facilitador da dinâmica; — geração e emissão de sugestões e colaborações dos participantes da dinâmica; — análise crítica, seleção e classificação das melhores sugestões apresentadas, considerando abrangência, impacto, custo, tempo de implementação e correlação com os objetivos propostos; — encaminhamento das sugestões escolhidas para a análise final; — tomada de decisão em grupos e estabelecimento dos planos de ação. As dinâmicas de grupo constituem um conjunto de técnicas que pretende utilizar a energia e a colaboração de grupos de pessoas em prol de sua própria preparação e de sua formação profissional. As atividades são desenvolvidas em ambientes controlados e preparados e direcionam os participantes para tarefas e intervenções que contribuirão para o desenvolvimento e o crescimento profissional estabelecidos como objetivos do treinamento. Servem como atividades de treinamento e de formação complementares aos programas de treinamentoempresariais. Infelizmente, alguns instrutores gostam de “dar shows” e vender as dinâmicas de grupos como um fim em si mesmas, atendendo apenas aos seus objetivos comerciais. 88 Unidade II 4.1.11 Plataformas e jogos online A revolução tecnológica colabora no processo de treinamento e desenvolvimento. Plataformas online são criadas como forma de inclusão digital e de aumento da acessibilidade. Para diminuir distâncias físicas, os treinamentos têm se fortificado com o modo online, por meio de jogos e de simulações de processos da realidade. Nesse contexto, a gamificação surge como alternativa de treinamento, pois consegue atingir um público maior e a longa distância. A criação de avatares (bonecos com aspectos humanos), que permitem a identificação do colaborador com o jogo, e de estratégias organizacionais expostas no formato de brincar online, que educa, aumentam a capacidade competitiva das organizações. A importância do 70/20/10 A metodologia 70/20/10 é um estudo de aprendizagem que combina teoria e prática e tem o objetivo de potencializar o aprendizado. Para isso, inclui no processo novas técnicas complementares ao aprendizado tradicional. O modelo surgiu na década de 1990, a partir de pesquisas feitas por Morgan McCall, Robert Eichinger e Michael Lombardo, no Center for Creative Leadership, na Carolina do Norte, EUA. Essa metodologia é composta de 70% de aprendizado prático, 20% de aprendizado de feedbacks e 10% de aprendizado teórico. Como vimos, é um processo de aprendizagem prático, que permite ao colaborador aplicar no dia a dia de trabalho os conhecimentos adquiridos no treinamento. Assim, busca‑se levar para a sala de treinamento as discussões e as prováveis soluções. Devem ser realizadas muitas dinâmicas, pois o intuito é retirar o colaborador do lugar‑comum de receptor de conhecimento e levá‑lo a ser um agente prático na construção do saber. Saiba mais O vídeo a seguir ilustra bem o que é o modelo 70/20/10: ORIGENS do modelo 70:20:10. 2016. 1 vídeo. (4 min). Publicado pelo canal Espresso3. Disponível em: https://bit.ly/3ck6I2H. Acesso em: 16 abr. 2025. 89 GESTÃO DO CONHECIMENTO 4.2 Avaliação e validação dos resultados dos investimentos em treinamento e desenvolvimento Existem, segundo Kirkpatrick (2010), quatro níveis de avaliação progressivos para o acompanhamento dos processos de avaliação de programas de treinamento. Esses quatro níveis são encadeados conforme o próprio processo de treinamento e as suas etapas. Sua progressividade se dá não só pelo andamento dos processos, mas também pelos resultados sucessivos, pelo aumento de sua importância e pelas dificuldades de obtenção, tratamento e avaliação das informações fornecidas. A avaliação deve ser sequencial e ininterrupta, sem que nenhuma etapa seja desconsiderada. Os níveis de avaliação são os apresentados a seguir. 4.2.1 Reação Consiste na avaliação da satisfação das expectativas dos principais clientes, os usuários do treinamento. Ao serem inscritos em um treinamento, interno ou externo, os usuários criam muita expectativa em relação ao atendimento, à infraestrutura, à qualidade dos instrutores, ao conteúdo programático, à sala, ao ambiente psicológico da turma e ao instrutor. Ao se inscreverem em um curso, os treinandos podem fazê‑lo de forma voluntária ou compulsória; independentemente do modo, o importante é satisfazê‑los plenamente, para aumentar as chances de estarem envolvidos e comprometidos e obterem o melhor aproveitamento durante o decorrer do curso. Nesse nível, o que se pretende captar é a essência da reação do usuário em relação ao curso. É uma avaliação da satisfação do cliente com os serviços oferecidos no programa de treinamento. Quando o treinamento é público e externo, da mesma forma que na modalidade in company, que consiste na customização, ou seja, na personalização de um curso público aberto, em uma versão exclusiva para os funcionários de uma empresa‑cliente, o prestador de serviços especializa‑se em fornecer excelência nos quesitos que fazem diferença para os usuários, de forma que, ao final do curso, estejam todos plenamente satisfeitos. Esse posicionamento é levado a sério pelos prestadores de serviços na área da educação corporativa, pois eles sabem que a satisfação dos clientes primários é um importante quesito a ser considerado pela empresa‑cliente para as futuras contratações de treinamentos. Da mesma forma, em um programa de treinamento interno, mesmo que os funcionários, na maioria dos casos, sejam obrigados a participar dos programas de treinamento, suas reações deverão ser avaliadas e terão peso significativo na avaliação do programa e na determinação de seu sucesso, que resulta na continuidade de sua realização, e de seu insucesso, que resulta no abortamento do programa. As informações sobre a reação dos clientes internos, formais ou informais, chegarão aos altos dirigentes, que serão influenciados a investigar melhor sobre o real sucesso e a continuidade desses programas na empresa. É interessante analisar o exemplo de formulário‑questionário apresentado no quadro 25 a seguir. 90 Unidade II Quadro 25 – Avaliação de programa de treinamento: desenvolvimento de habilidades em supervisão 1. Descreva a sua organização A. Tamanho B. Produtos ( ) Menos de 100 funcionários ( ) De consumo ( ) 100‑500 funcionários ( ) Indústrias ( ) 500‑1.000 funcionários ( ) Ambos ( ) Mais de 1.000 funcionários ( ) Outros 2. Descreva a si mesmo A. Cargo ( ) Líder ou supervisor ( ) Mestre ou superintendente B. Quantas pessoas você supervisiona? ( ) 0‑5 ( ) 6‑10 ( ) 11‑15 ( ) 16‑20 ( ) Mais de 20 C. Quem você supervisiona? ( ) Só homens ( ) Principalmente homens ( ) Principalmente mulheres ( ) Só mulheres D. Que tipo de funcionário você supervisiona? ( ) Produção sem qualificação ( ) Produção semiqualificada ( ) Produção qualificada ( ) Manutenção ( ) Administrativo E. O quanto o informaram sobre o programa, antes de iniciá‑lo? ( ) Informações completas ( ) Bastante ( ) Um pouco ( ) Quase nada F. Até que ponto você acha que será capaz de melhorar seu desempenho como supervisor por participar deste programa? ( ) Bastante ( ) Um pouco Fonte: Kirkpatrick (2010, p. 58). 4.2.2 Aprendizagem Entre os resultados de um bom treinamento, temos o aumento dos conhecimentos e o desenvolvimento de novas habilidades pelos participantes, em função dos benefícios adquiridos durante o curso. Houve aprendizagem como consequência do treinamento se este produziu mudanças na atitude e no comportamento dos treinandos. Existem três tipos de quesitos a serem considerados na avaliação: atitude, comportamento e habilidades, que resultarão na competência do participante, como vemos no quadro 26. Quadro 26 – Eficácia da aprendizagem Tipo de mudança Tipo de curso Atitude Programas temáticos sobre diversidade na força de trabalho, cultura, consciência pessoal e social Comportamento Temas sobre liderança, motivação e comunicação Habilidades Programas técnicos Adaptado de: Kirkpatrick (2010). 91 GESTÃO DO CONHECIMENTO As mudanças no nível de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades são imprescindíveis para que ocorra uma efetiva alteração no comportamento do colaborador. Observação Eficácia corresponde à capacidade de atingir objetivos e gerar resultados previamente definidos. Na organização, uma das formas de avaliar o desempenho eficaz é a verificação e o acompanhamento do cumprimento das metas estabelecidas pelo colaborador ou pela área funcional. 4.2.3 Comportamento Quanto os colaboradores que participaram do curso alteraram seu comportamento pessoal e profissional? Essa é uma das questões mais importantes da avaliação de treinamentos. O treinamento valeu se causou significativa mudança no comportamento dos treinados. A mudança, como um dos principais objetivos do treinamento, deve ser muito apreciada, mas sem desconsiderar as fases anteriores, pois os treinandos podem ter tido uma boa reação diante do treinamento eassimilado satisfatoriamente o seu conteúdo. Contudo, surge a seguinte questão: isso resultará em uma mudança de comportamento? Não necessariamente, pois existem outras condições exigidas para tal, como vemos nos questionamentos apresentados a seguir: • O colaborador quer mudar? • O ambiente de trabalho é adequado ou readequado para a mudança? • O colaborador sabe o que e como fazer para mudar? • Existem recompensas claramente identificadas e compensadoras para a mudança? O bom programa de treinamento terá em seu escopo a conscientização dos ensinamentos necessários para incitar o participante a realizar as mudanças necessárias. Ele vai perceber que a nova situação trará muitos e compensadores benefícios, pessoais e profissionais. Nesse caso, a situação que configurava a sua “zona de conforto” passou pelo chamado processo de descongelamento, está inquieta, não é mais segura e confortável como antes. As condições ambientais, principalmente centradas na chefia desse colaborador, têm papel preponderante no processo de mudança comportamental que está para começar. O líder, bem como seu estilo de atuação, pode criar condições muito favoráveis à mudança comportamental de seus subordinados ou gerar uma situação inversa, que pode quebrar todo aquele ímpeto pela mudança criado pela primeira condição discutida. Veja o quadro 27 a seguir. 92 Unidade II Quadro 27 – Condições ambientais: liderança Condição Características Coibição O chefe proíbe o participante de fazer o que lhe ensinaram no programa de treinamento. Ele pode estar sob a influência da cultura organizacional implantada pela diretoria, ou seu estilo de liderança pode estar em conflito com o que foi ensinado no programa Desestímulo O chefe não proíbe o participante de mudar seu comportamento, mas deixa claro que ficará descontente se ele o fizer. Ou, então, o chefe não é um modelo de comportamento ensinado no programa, e esse exemplo negativo desestimula o subordinado a mudar Neutralidade O chefe ignora o fato de que seu subordinado passou por um programa de treinamento. Continua tudo como antes. Se o subordinado quiser mudar, o chefe não fará qualquer objeção, desde que o trabalho seja feito. Se houver resultados negativos decorrentes da mudança de comportamento, o chefe poderá criar um ambiente de desestímulo ou até de coibição Apoio O chefe encoraja o participante a aprender e aplicar no trabalho o seu aprendizado. Idealmente, ele terá conversado sobre o programa com o subordinado antes do início do treinamento e combinado de ambos discutirem como aplicá‑lo assim que o programa tiver terminado. Basicamente, o chefe dirá: ”Gostaria de saber o que você aprendeu e como posso ajudá‑lo a aplicar seu aprendizado no trabalho” Exigência O chefe sabe o que o subordinado aprendeu e cuida de assegurar que seu aprendizado seja aplicado no trabalho. Em alguns casos, faz‑se um contrato de aprendizagem, definindo o que o subordinado se compromete a fazer. O contrato pode ser preparado no final do treinamento, com cópia para o chefe. O chefe assegura‑se de que ele seja cumprido Adaptado de: Kirkpatrick (2010). Muitas vezes, o colaborador percebe a necessidade de mudança, mas não sabe como nem por onde começar. Ele vai se desvencilhar dessa encruzilhada por meio do apoio e do suporte da liderança, desde que ela seja, no mínimo, “apoiadora” da mudança. Outra possibilidade é o encontro do caminho pelo relacionamento com lideranças informais, que podem aconselhar ou mesmo servir de exemplo e referência. Em geral, a mudança exige grande esforço do colaborador, e este, como qualquer ser humano, tem de perceber claramente o tipo e o valor das recompensas que receberá por esses resultados positivos. Se não compensar, dentro dos critérios de valoração individuais do funcionário, ele não se esforçará suficientemente para mudar. O colaborador pode identificar recompensas intrínsecas (internas), que consistem nas percepções de valor em fatores não materiais, como a realização profissional, o nível de status a ser adquirido, a satisfação pessoal, o orgulho da posição ou do resultado obtido para a empresa ou para o grupo. Quanto às recompensas extrínsecas (externas), elas incluem a melhoria do relacionamento, o reconhecimento velado ou público pelo chefe, as recompensas monetárias, as promoções e os aumentos de salário. Observação O comportamento consiste na conduta, no conjunto de procedimentos ou nas reações do indivíduo; envolve ações e reações observáveis em circunstâncias encontradas no ambiente organizacional. 93 GESTÃO DO CONHECIMENTO 4.2.4 Resultados Os resultados dos treinamentos devem ser avaliados da forma mais eficiente possível. A intenção principal é a prestação de contas para os stakeholders. Entre eles, estão os executivos que alocam os recursos para tais programas e desejam ter os resultados mensurados quantitativamente e em termos financeiros. Essa fase da avaliação é a que alimenta as maiores expectativas em poder transformar os resultados comportamentais, as atitudes e as habilidades em valores monetários, passíveis de comparação objetiva e de análises de retornos sobre investimentos. Os resultados talvez não sejam totalmente satisfatórios. Todavia, segundo Kirkpatrick (2010), podem chegar a incluir aumento da produção, melhora da qualidade, redução de custos, menor frequência e/ou de gravidade de acidentes, mais vendas, menor rotatividade e lucros mais altos. Os objetivos de um programa de treinamento, sempre que possível, devem ser estabelecidos em termos desses resultados mensuráveis. Apesar da dificuldade, espera‑se sempre o ideal: que os resultados tangíveis sejam obtidos e demonstrados. Imagine que seja realizado um programa de treinamento sobre a diversidade na força de trabalho. O objetivo principal é alterar o comportamento e a atitude dos líderes (supervisores e gerentes) em relação aos subordinados, reais ou potenciais, que seriam compostos de minorias étnicas em seus departamentos. O objetivo não é financeiro, mas de mudança de atitude. Nesse caso, como na maioria, os resultados não são mensuráveis quantitativa, mas qualitativamente. É difícil medir resultados de programas sobre temas como liderança, comunicação, motivação, administração do tempo, empowerment, tomada de decisões ou gestão de mudanças. Nesses casos, a análise de resultados limita‑se a comparar comportamentos antes e pós‑treinamento, para avaliar o aumento ou a diminuição de intensidade de atitudes positivas e negativas. 4.2.5 Avaliação da reação Avaliar a reação é similar a medir a satisfação do cliente. Para que o treinamento seja eficaz, é importante que os treinandos reajam favoravelmente a ele; do contrário, não ficarão motivados a aprender. As informações sobre a reação dos usuários devem ser coletadas por processos confiáveis e sistematizados. Esses formulários carregam grandes esperanças dos instrutores em obterem avaliações positivas dos clientes e terem seus cursos de treinamento perpetuados nos futuros programas da empresa. Veja, a seguir, algumas diretrizes de avaliação de reação: • defina o que você quer saber; • crie um formulário que quantifique as reações; 94 Unidade II • incentive comentários e sugestões por escrito; • obtenha 100% de reações imediatamente; • obtenha respostas sinceras; • desenvolva padrões aceitáveis; • contraste as reações com os padrões e tome as providências adequadas; • comunique as reações, conforme seja apropriado. As avaliações são abrangentes, mas o profissional de treinamento deve estar seguro do tipo de informações que pretende obter dos treinandos a cada sessão. Assim, é importante que ele consiga informações críticas do orientando sobre reações relativas às seguintes questões: • tema; • instrutor; • instalações (localização, conforto e conveniência); • agenda (horário, duração do treinamento, intervalos e conveniência); • refeições (quantidade e qualidade da comida etc.); • estudos de caso, exercícios etc.; •recursos audiovisuais adequados e eficazes etc.; • material impresso (utilidade, quantidade etc.); • valor dado a cada aspecto do programa. Formulário para quantificar as reações Devem ser definidos os formulários a serem utilizados, a fim de sistematizar e criar a cultura de coleta e de tratamento de informações sobre treinamento. O formulário precisa fornecer dados em quantidade e qualidade suficientes para a avaliação do treinamento e o feedback dos participantes para os instrutores e os organizadores do programa. São necessários muitos cuidados para a aplicação dessas ferramentas de levantamento de dados para que não se obtenham informações truncadas e parciais. Isso ocorre porque a avaliação é feita no final do curso, momento em que os treinandos estão, em geral, ansiosos e com muita pressa de ir embora. 95 GESTÃO DO CONHECIMENTO Saiba mais No site indicado a seguir, é possível observar um exemplo de um formulário que pode ser utilizado com esse fim: EXEMPLO de avaliação de eficácia de treinamento. RH Portal, 19 out. 2014. Disponível em: https://bit.ly/3uVXmkm. Acesso em: 23 abr. 2025. Incentive comentários e sugestões por escrito Além dos resultados quantitativos, é muito bom obter do treinando e/ou de sua chefia informações relativas a uma avaliação qualitativa, por meio de comentários e da especificação de detalhes acerca do motivo das apreciações positivas e negativas sobre o treinamento. As notas são importantes para a tabulação e para a identificação da tendência média da avaliação dos participantes, mas são as avaliações por escrito que subsidiarão a identificação de itens a serem corrigidos para programas futuros. O procedimento de finalizar as atividades, solicitar o preenchimento do formulário de avaliação e deixá‑lo em determinado lugar, antes de sair, não funciona muito bem. A tendência, pela pressa e pela ansiedade para ir embora, é de que dificilmente o aluno vá elaborar com cuidado os textos referentes à avaliação textual do programa. Segundo Kirkpatrick (2010, p. 50), antes da hora programada para o final, o instrutor pode dizer: “Agora vocês terão um tempo para responder aos questionários de avaliação, inclusive para fazer suas observações. Depois, farei um comentário final”. Esse procedimento induz e potencializa a importância da elaboração da avaliação textual por todos os participantes do curso. Obtenha 100% de reações imediatamente A ideia da avaliação da reação dos clientes do curso está centrada na captação imediata de suas impressões, da mesma forma que é feita com clientes de um restaurante quando queremos saber suas reações quanto aos pratos sugeridos, às refeições servidas, à atenção dos garçons etc. A reação de encanto, ou de decepção, se dilui com o tempo pelos mais diversos motivos. O que deve ser evitado é a solicitação de entrega a posteriori do formulário de avaliação. Após alguns dias, muitos participantes já terão esquecido de suas principais percepções sobre os quesitos solicitados. Segundo Kirkpatrick (2010, p. 50‑51), se o responsável achar que as reações terão mais significado dando aos participantes mais tempo para preencher o formulário, pode‑se elaborar um formulário de reação de acompanhamento e enviá‑lo aos participantes com um memorando com a mensagem a seguir. Obrigado pelo questionário de avaliação que você respondeu no final do curso. Agora, ao refletir sobre o treinamento, talvez você tenha outras ou mais reações e comentários a fazer. Queira preencher o formulário anexo e devolvê‑lo nos próximos três dias. Nossa proposta é proporcionar o treinamento mais adequado possível. Sua opinião nos ajudará bastante. 96 Unidade II Obtenha respostas sinceras A identificação ou o sigilo de quem preencheu a avaliação pode ser determinante na obtenção de informações verídicas e confiáveis. Geralmente, quando a avaliação é ruim, o sigilo libera e permite a crítica mais aberta e completa pelo participante. No caso de uma avaliação positiva, a identificação pode não afetar a emissão de opinião do participante ou torná‑la exagerada e bajulatória. O ideal é deixar a identificação e a assinatura opcionais. O participante que não se sentir constrangido nem ameaçado pela opinião emitida identifica‑se; caso contrário, não o faz. A identificação é muito interessante para os avaliados poderem divulgar os pontos positivos que podem trazer bons frutos para os futuros treinamentos e possibilita a localização e o contato com o avaliador para esclarecer e detalhar os motivos ou as causas do descontentamento com o quesito mal avaliado. Desenvolva padrões aceitáveis O maior trunfo em uma avaliação é a transformação de opiniões em padrões numéricos que facilitem a tabulação e a análise de tendências. Os formulários geralmente permitem essa conversão, o que ajuda no tratamento das informações obtidas. Podemos utilizar um padrão da escala de cinco pontos para avaliar melhor as respostas em um formulário. Fazemos o seguinte: • contamos as respostas em cada categoria para todos os itens; • em cada um deles, multiplicamos o número de respostas pelo peso correspondente e somamos esses produtos; • dividimos esse resultado pelo número total de respostas obtidas. Por exemplo, para calcular a avaliação em um item com 82 respostas coletadas, realizamos o cálculo a seguir: • Tabulação: — 10 respostas com peso 5; — 5 respostas com peso 4; — 3 respostas com peso 3; — 1 resposta com peso 2; — 1 resposta com peso 1; — total de 82 respostas. 97 GESTÃO DO CONHECIMENTO Procedemos à ponderação com os pesos: (10 × 5 = 50) + (5 × 4 = 20) + (3 × 3 = 9) + (1 × 2 = 2) + (1 × 1 = 1) = 82 Como há 20 respostas, dividimos o resultado por 20. Logo, a avaliação ponderada é 82/20, ou 4,1. Contraste as reações com os padrões e tome as providências adequadas A etapa mais importante do controle é a produção de ações consequentes aos resultados. Partindo de padrões realistas, devemos avaliar os resultados do programa com base nos padrões estabelecidos. Veja as possibilidades a seguir: • Mudar: caso haja condições técnicas e orçamentárias, deve‑se proceder à mudança de instrutores, das instalações, do assunto ou de alguma parte do treinamento. Sempre que necessário e possível, deve‑se dar chances de superação das dificuldades apresentadas ao instrutor avaliado. • Modificar a situação: depois de sucessivas chances de superação, se o instrutor não atingir o padrão, deve‑se tentar ajudá‑lo, oferecendo conselhos e novos recursos audiovisuais ou propondo novas atividades para o treinamento. • Conviver com uma situação insatisfatória: opta‑se por isso, caso momentaneamente não seja possível, técnica ou orçamentariamente, efetuar a substituição ou a modificação dos recursos humanos, materiais ou tecnológicos aplicados no programa de treinamento. • Alterar o padrão: isso é feito, caso sejam identificadas situações nas quais as condições (políticas da empresa, tecnologia, necessidades dos treinandos, níveis de exigência etc.) foram modificadas, ou se for identificada alguma anomalia nos padrões adotados, por não serem mais condizentes com a realidade apresentada. Comunique as reações, conforme apropriado Os primeiros a terem contato com os formulários de avaliação são os próprios instrutores que aplicam e recolhem as avaliações. A análise inicial das reações é deles. O responsável pela equipe de treinamentos ou do setor de RH deve estabelecer uma política de captação, tabulação e divulgação de resultados das avaliações de maneira formal e oficial. Isso evita que pessoas indevidas difundam resultados de acordo com os seus próprios interesses. É importante que os indivíduos designados tomem as decisões cabíveis com base nesses resultados. 98 Unidade II Observação Medir as reações é relativamente fácil e não requer tanto esforço quanto parece. A sua importância deve‑se à necessidade de obter dados concretos que permitam avaliar os treinamentos e subsidiar as tomadas de decisões consequentes. No tocanteao fator “quem quer vê‑los?”, a equipe de treinamento terá de decidir se isso é apropriado. É mera curiosidade ou o solicitante tem motivos legítimos? Os responsáveis por tomar decisões sobre contratações, orçamentos, aumentos salariais, promoções e cortes, por exemplo, devem ser informados, formal e oficialmente, de modo seguro e definitivo. Saiba mais Para ampliar seus conhecimentos a respeito de estratégias de sucesso em treinamento, leia o artigo. DIAS, M. Treinamento e desenvolvimento de pessoas: o que é e como criar uma estratégia de sucesso. Gupy, 9 ago. 2019. Disponível em: https://bit.ly/3RKFIJO. Acesso em: 23 abr. 2025. 4.2.6 Validação dos resultados Essa fase da avaliação intenciona responder às seguintes questões: • Que conhecimentos foram adquiridos? • Que habilidades foram desenvolvidas ou aprimoradas? • Que atitudes foram modificadas? O principal em identificar a eficácia do aprendizado do programa de treinamento é verificar se serão produzidas as mudanças de comportamento entre os participantes. Veja algumas diretrizes para a avaliação da aprendizagem: • utilização de um grupo de controle; • avaliação de conhecimentos, habilidades e/ou atitudes antes e depois do programa; • aplicação de um teste por escrito para medir conhecimentos e mudanças nas atitudes; 99 GESTÃO DO CONHECIMENTO • aplicação de um teste de desempenho para medir habilidades; • obtenção de 100% de respostas; • utilização dos resultados da avaliação para tomar providências adequadas. Utilização de um grupo de controle O chamado grupo de observação é aquele que recebe o treinamento e é avaliado quanto ao seu desempenho ao final do seu preparo no curso. Visto que existem diversos fatores que podem interferir no desempenho dos colaboradores além dos efeitos da aprendizagem no treinamento, para validar essa avaliação de desempenho, elegemos um grupo de trabalhadores que não participou do treinamento, que será avaliado antes e depois do período de treinamento dos outros funcionários, treinados, nos mesmos períodos e nas mesmas condições que os demais. A comparação dos resultados de desempenho dos dois grupos tende a eliminar os efeitos de fatores que não correspondem aos impactos do treinamento. Avaliação de conhecimentos, habilidades e/ou atitudes Devemos medir os conhecimentos, as habilidades e/ou as atitudes antes e depois do programa. A diferença indicará “qual” aprendizado ocorreu. Para tanto, podemos utilizar um formulário, a exemplo do formulário‑questionário apresentado anteriormente. Avaliação do aumento de conhecimento e de mudanças A avaliação do treinamento é importante por dois motivos. Primeiramente, ela mede a eficácia do instrutor em aumentar os conhecimentos e mudar as atitudes. Se tiver ocorrido pouco ou nenhum aprendizado, haverá pouca ou nenhuma mudança de comportamento. 4.2.7 Avaliação do aumento das habilidades Se o objetivo de um programa for aprimorar as habilidades dos participantes, precisaremos fazer testes de desempenho antes e depois do treinamento para possibilitar as devidas comparações e análises. Os mesmos princípios e as mesmas técnicas aplicam‑se quando são ensinadas as habilidades técnicas, como usar um computador, criar formulários ou vender algo. É claro que aplicar testes antes e depois do treinamento é desnecessário quando o aprendiz não tem qualquer habilidade prévia. 100 Unidade II Observação A importância do grupo de controle durante o processo de avaliação da aprendizagem está na obtenção de provas melhores de que ocorreram mudanças. Qualquer diferença entre o resultado do grupo de observação e o resultado do grupo de controle demonstra que houve aprendizado em função do treinamento realizado. 4.2.8 Avaliação do comportamento na obtenção dos melhores resultados O objetivo do programa de aprendizado é a mudança do comportamento dos colaboradores, no sentido de se chegar ao padrão desejado. O principal motivo para a decisão de se realizar o programa é obter, ao final, a adequação de comportamento. Veja, a seguir, algumas diretrizes para a avaliação da mudança de comportamento: • se possível, use um grupo de controle; • dê tempo para que a mudança de comportamento ocorra; • avalie antes e depois do treinamento, se isso for viável; • pesquise e/ou entreviste um ou mais entre os seguintes: treinandos, seu superior imediato, seus subordinados e outros que observem seu comportamento com frequência; • obtenha 100% de respostas ou use uma amostragem; • repita a avaliação em intervalos apropriados; • avalie a relação custo/benefício. Da mesma forma que explicamos nas diretrizes para avaliação de aprendizagem, é importante usar um grupo de controle para a análise do comportamento. 4.2.9 Tempo para as mudanças ocorrerem Os participantes de um treinamento precisam de tempo para assimilarem os novos conhecimentos, desenvolverem novas habilidades e assumirem novas atitudes. A avaliação justa deve ocorrer em tempo razoável, após a realização do treinamento, ou, ainda melhor, deve ser feita periodicamente para medir e acompanhar a evolução dos desempenhos em todos os quesitos do treinamento. Segundo Kirkpatrick (2010), mesmo que um participante tenha a 101 GESTÃO DO CONHECIMENTO oportunidade imediata de aplicar em seu dia a dia aquilo que aprendeu, você ainda deve lhe dar algum tempo para que essa transferência ocorra. Para alguns programas, dois ou três meses após o treinamento é uma boa regra prática. 4.2.10 Avaliação antes e depois do treinamento Como dissemos, devemos medir os conhecimentos, as habilidades e/ou as atitudes antes e depois do programa. A diferença indicará qual aprendizado ocorreu. Para que esse procedimento surta efeitos significativos, será necessária a definição clara de quais comportamentos pretendemos obter após a realização do curso: aumento da eficácia, elevação da eficiência e melhora da comunicação, entre outros. Podemos avaliar o comportamento somente após o programa, considerando‑se, por exemplo, as limitações de tempo e de recursos. Após o treinamento, realiza‑se uma entrevista ou pesquisa, em que pedimos que os participantes identifiquem quaisquer mudanças de comportamento decorrentes do treinamento. O quadro a seguir traz um exemplo de um formulário apropriado para esse fim. Quadro 28 – Avaliação de programa de treinamento: mudanças de comportamento 1. Até que ponto o programa melhorou a relação profissional entre participante e superior imediato? ( ) Bastante ( ) Um pouco ( ) Não mudou ( ) Piorou 2. Desde a conclusão do programa, houve comunicação bidirecional participante‑superior imediato? ( ) Muito mais ( ) Um pouco mais ( ) Não mudou ( ) Um pouco menos ( ) Muito menos 3. Qual é o grau de interesse do participante por seus subordinados desde a conclusão do programa? ( ) Muito maior ( ) Um pouco maior ( ) Não mudou ( ) Um pouco menor ( ) Muito menor É essencial pesquisar e/ou entrevistar pessoas que observem seu comportamento com frequência. Devemos consultar os envolvidos: treinandos, seus superiores imediatos, seus subordinados e outros que conheçam bem o comportamento deles. Nesse contexto, as quatro perguntas a seguir precisam ser respondidas: • Quem é o mais qualificado para avaliar as mudanças de comportamento? • Quem é o mais confiável? 102 Unidade II • Quem é o mais disponível? • Existe algum motivo pelo qual uma ou mais dessas pessoas não devam ser pesquisadas e/ou entrevistadas? Uma decisão importante é escolher entre usar um questionário ou fazer uma entrevista. Ambos têm suas vantagens e suas desvantagens. A entrevista dá a oportunidade de obter mais informações. A melhor abordagem é adotar uma entrevista padronizada, em que sejam feitas as mesmas perguntas a todos os entrevistados. Desse modo, poderemos tabular as respostas e compilar dados quantitativos sobre a mudança de comportamento. Obtenha 100% de respostas ou use uma amostragem Quando o retorno de respostas não for o esperado e o número for inferior ao total de participantes,formar e atualizar você, aluno, para que possa aplicar os conceitos e os métodos de treinamento e desenvolvimento, identificando prioridades na formação dos colaboradores, sempre de acordo com as metas das organizações. Temos, assim, como objetivos: • mostrar como fazer o diagnóstico de necessidades, o planejamento de objetivos e a proposta de atividades de treinamento e desenvolvimento nas organizações; • atualizar as competências essenciais para o mercado de trabalho; • apresentar as atividades de qualificação de instrutores, bem como facilitar a comunicação entre o instrutor e os treinandos da empresa, pela consolidação dos conceitos sobre a natureza da aprendizagem; • diferenciar o conhecimento tácito do conhecimento explícito; • desenvolver o raciocínio claro e consistente sobre os princípios de aprendizagem aplicados ao treinamento, seus métodos e suas ferramentas, escolhidos de acordo com as necessidades das áreas funcionais e da empresa como um todo; • preparar e simular, por meio de ferramentas, planilhas e outros instrumentos, a avaliação de treinamento, usando testes objetivos e testes de respostas abertas; • avaliar as habilidades e as atitudes do treinando, bem como a relação custo/benefício do treinamento; 10 • explicar a simulação e a análise em laboratório do planejamento, da execução e da avaliação de treinamentos; • mostrar a importância da avaliação de desempenho nas organizações, instrumento de verificação das competências desenvolvidas e das que necessitam de desenvolvimento; • discorrer sobre a gestão do conhecimento da empresa, destacando a importância da atualização constante do capital intelectual da organização. INTRODUÇÃO Tratar do tema treinamento e desenvolvimento é compreender historicamente como foi a sua construção. Os conceitos envolvidos (treinar e desenvolver) são alinhados com educar, que é um dos fatores primordiais do processo de formação de pessoas. Neste livro‑texto, trataremos desses conceitos e de outros, principalmente no que se refere a como eles podem ser aplicados na aprendizagem e no desenvolvimento dos colaboradores da organização. Vamos tratar desse tema logo no início da nossa trajetória de ensino. Estamos na Era do Conhecimento, e o assunto capital intelectual está em destaque. Qual é o seu capital intelectual? Quais são as competências e as atividades que você realiza muito bem? E em quais você precisa melhorar? Essas informações têm impacto muito grande no contexto organizacional e, principalmente, nas ações que as empresas realizam para desenvolver e reter talentos. Aqui entra a gestão do conhecimento, pela criação de universidades corporativas, verdadeiros centros de geração de conhecimentos nas empresas. No decorrer do nosso livro‑texto, abordaremos esses tópicos. Uma pergunta clássica, feita por presidentes e diretores, quando chegamos às empresas é a seguinte: “Devemos treinar os funcionários? Depois de um tempo, eles irão embora, e desperdicei meu dinheiro!”. A resposta que costumamos dar é: “E se você não investir e eles ficarem?”. Reflita! Você gostaria de ter um colaborador despreparado atendendo seus clientes, colocando em risco toda a carteira de clientes que levou anos para ser construída? Veja como treinar e desenvolver pessoas é estratégico para a organização. Se não desenvolvo, fico marginalizado, aquém das necessidades do mercado. Por isso, precisamos trabalhar com treinamentos técnicos e comportamentais, utilizando com maestria todas as fases do ciclo de treinamento, com diagnósticos e ferramentas precisas e assertivas, tornando assim a área de treinamento e desenvolvimento cada vez mais estratégica nas organizações. Claro que o treinamento precisa ser bem aplicado, com instrutores capazes, com boa formação, comunicação afiada e conhecimento do que está falando. Esses são diferenciais estruturais de um bom formador de pessoas. Quando tratamos de mercado, não podemos esquecer as competências organizacionais. Antigamente, tínhamos a definição de CHA. Conhece o CHA? É uma sigla referente a conhecimento, habilidade e atitude. Pois ela foi atualizada. Agora, falamos do CHAR, que se refere a conhecimento, habilidade, atitude e resultado. Resultado é algo que não pode faltar nas empresas. Na verdade, sempre estivemos diante 11 desse cenário, mas, com o avanço da competitividade e a diminuição do lucro, o resultado passou a ser ainda mais cobrado. Nenhuma empresa sobrevive sem bons resultados. E para se manter viva no mercado, ela precisa atualizar as competências dos seus colaboradores. Viu como é um ciclo? O investimento nas pessoas volta para a empresa como forma de resultado! Para que esse ciclo seja bem estabelecido, precisamos desenvolver ferramentas que avaliem os profissionais de maneira isenta e precisa, para que possamos identificar os pontos fortes e os pontos a melhorar. Veremos desde modelos clássicos de avaliação de desempenho até os mais modernos, projetando o futuro dessa ferramenta. São informações que trataremos ao longo das unidades deste material. Atualmente, a única certeza que temos é de que tudo vai mudar. Nossas empresas dormem nacionais e acordam multinacionais, são compradas, vendidas, realizam fusão com outras... O que podemos ter como absoluta certeza é que esse processo não parece ter um final próximo. E nesse processo tão conturbado que vivemos no mercado, com epidemias e crises políticas, econômicas e financeiras, o mundo é um lugar em constante transformação. Esses movimentos se refletem diretamente nas organizações. Impossível hoje ficarmos marginalizados das novas competências que surgem e são ressignificadas a cada momento. Reforçar a gestão do conhecimento e das competências nas organizações será fundamental, principalmente se a concebermos como diferencial competitivo. Quando falamos de time, de mudanças, não podemos esquecer as ferramentas de trabalho: elas precisam ser atuais, inclusivas e permitir reflexões. Os treinamentos são cada vez mais customizados de acordo com cada necessidade presente no ambiente organizacional. Precisamos falar mais ainda sobre gestão do conhecimento. De nada valeria treinar e desenvolver um colaborador e não aproveitar esse conhecimento nem o colocar em prática no dia a dia. Esse conhecimento, que antes estava na “cabeça”, agora vira um processo, que se transforma em um manual e que poderá servir a outros colaboradores. É o treinamento tácito se transformando em explícito, voltando para tácito e, depois, voltando novamente para explícito! Isso é realizar gestão do conhecimento nas empresas, fazer com que a informação possa ser retida e atualizada pelos colaboradores. Olhe quantos aspectos importantes nós temos na área de treinamento e desenvolvimento. Nem sempre é fácil implantar um treinamento ou um novo modelo de se conduzir ou de se fazer um processo. Você já deve ter ouvido algo como: “Mas na minha época era assim! Era melhor!”. Pois é, “minha época” não existe mais, não é mesmo? “Minha época” é hoje. Não podemos ficar presos ao passado. O passado deve servir como experiência, não como prisão. As pessoas resistem às mudanças. E como resistem... De certa forma, é natural que isso aconteça, pois temos dificuldades em renunciar a uma situação cômoda para correr riscos, mas, no mundo atual, não temos opções. O risco faz parte do nosso dia a dia. Assim, trabalhar essa insegurança gerada pela mudança é mais do que necessário. Para isso, o desenvolvimento organizacional (DO) precisa ser implementado, a fim de que as pessoas possam ter a consciência de que a mudança é um caminho sem volta. Não mudamos 12 pelo simples fato de mudar, mas para acompanhar uma necessidade de mercado, uma atualização e, portanto, visando sempre a melhorias profissionais. Treinar é pontual, desenvolver é constante. Temos certeza de que você irá se encantar pela área de gestão de conhecimento. 13 GESTÃO DO CONHECIMENTO Unidade I 1 TREINAMENTO E DESENVOLVIMENTO DE PESSOAL O papel dos gestoresserão necessários cuidados estatísticos com o objetivo de selecionar uma amostra adequada e analisar os resultados estatisticamente. O ideal é que todos os integrantes participem, sendo que devemos tomar providências para que isso seja alcançado. Por exemplo, fazer com que o preenchimento dos formulários de avaliações seja parte das atividades do curso, com entrega em um momento intermediário do período do curso, e não no final dele. Vale destacar que a avaliação deve ser repetida em intervalos apropriados. O comportamento das pessoas não é estático, ele muda conforme o tempo passa. Para avaliar comportamentos, é necessário colecionar uma série histórica de resultados, considerando os mesmos quesitos, a fim de que possamos traçar uma linha de tendência. Isso permitirá a eliminação de variações esporádicas, de picos ou de vales que apareceram devido a circunstâncias momentâneas ou sazonais. Avalie a relação custo/benefício Como comentado no decorrer deste livro‑texto, o investimento em treinamento deve ser tratado como os demais investimentos da empresa. Existe uma grande preocupação dos especialistas em medir o desempenho e os resultados dos programas de treinamento em termos quantitativos e valoráveis, que permitam uma apuração de resultados financeiros e, consequentemente, de ROI, para subsidiar a avaliação e a tomada de decisão dos executivos da corporação. Vale destacar que mesmo uma avaliação qualitativa serve para se decidir sobre a validade e a continuidade de investimentos em determinado programa. Devemos verificar se os objetivos comportamentais esperados foram devidamente modificados, ou quanto foram modificados, para que a efetividade do treinamento seja posta à prova. 103 GESTÃO DO CONHECIMENTO Saiba mais Leia um pouco mais sobre avaliação de treinamento e ROI no artigo indicado. MARTINS, R. ROI de treinamento: como calcular e medir o retorno sobre investimento. Gupy, 15 dez. 2023. Disponível em: https://tinyurl.com/ysf4e95n. Acesso em: 21 maio 2025. 4.3 Vantagens funcionais com base em treinamento e desenvolvimento Muitas são as vantagens oriundas do processo de treinamento e desenvolvimento, como as destacadas a seguir: • Redução de turnover: colaboradores que conseguem perceber o investimento em sua carreira por meio do treinamento sentem‑se mais satisfeitos. As pessoas preferem trabalhar em empresas que incentivam o crescimento e as novas oportunidades profissionais. Logo, a diminuição do turnover é natural. • Maior capacitação dos profissionais: a construção do crescimento sólida e prática faz diferença no cotidiano da organização, eleva o nível de conhecimento e melhora a solução de problemas no dia a dia. Ganha a empresa com maior competitividade. • Melhoria no clima organizacional: quando o treinamento é inclusivo, feito para todos, permite o melhor desempenho das atividades e, assim, maior produtividade. Desse modo, a tendência é que haja melhora no clima organizacional. • Aumento de produtividade: naturalmente, colaboradores qualificados reduzem o tempo de resposta nas atividades e há tendência de maior qualidade na entrega e de aumento da produtividade. • Maior integração da equipe: grupos treinados interagem melhor, pois sua integração é mais natural e intensa. • Melhor circulação de conhecimento: empresas que treinam tendem a circular com maior facilidade o conhecimento entre os colaboradores. Marca‑se na cultura da organização que aprender e compartilhar é algo natural e tranquilo. 104 Unidade II 4.4 Treinamento como diferencial competitivo Em um mercado absolutamente dinâmico e competitivo, treinar pessoas é um investimento, e não um custo. Uma frase comumente dita por presidentes no passado era a seguinte: “Se investirmos no colaborador e ele for embora, teremos um investimento teoricamente perdido”. Hoje questionamos: “E se não houver o investimento? O colaborador deve permanecer na empresa mesmo atendendo mal a um cliente? Vale a pena correr o risco de perder clientes, a principal fonte de lucro?”. Felizmente, a mentalidade mudou. Hoje, é fundamental para a sobrevivência do negócio ter pessoas preparadas com novas competências e formas de atuar, a fim de suprir uma demanda ativa e em constante processo de mudança. 105 GESTÃO DO CONHECIMENTO Resumo Vimos, nesta unidade, a importância do planejamento nos processos de treinamento: quanto mais planejarmos, melhores serão os resultados obtidos. Depois do planejamento, falamos do levantamento das necessidades da empresa, a fim de que técnicas apropriadas possam ser aplicadas para atendê‑las, visando à obtenção de resultados que, de fato, impactem os colaboradores e a organização. Detalhamos os principais métodos de ensino e aprendizagem, de forma a explicitar sua importância e sua aplicabilidade em programas de treinamento. Explicamos os seguintes métodos de treinamento: aula expositiva, estudo de caso, dramatização, simulação, workshop, palestra, seminário, brainstorming e dinâmica de grupo. Destacamos que há três tipos de treinamento. O primeiro é o técnico, usado, por exemplo, para treinar uma equipe de profissionais que irão atuar com determinadas máquinas e que, naturalmente, precisam saber operá‑las. O segundo é o comportamental, que visa à mudança de dada atitude no cotidiano, como lidar com o cliente, por exemplo. Por fim, temos o híbrido, que é a junção dos dois treinamentos mencionados e pode ser utilizado no dia a dia das empresas. Hoje, treinar é algo fundamental, pois eleva o capital intelectual dos colaboradores e traz dinamismo e oportunidades para a organização. Além de o treinamento proporcionar integração, trabalho em equipe e sentimento de satisfação nos funcionários, melhora o clima organizacional. 106 Unidade II Exercícios Questão 1. Leia o texto a seguir: O que é levantamento de necessidades de treinamento (LNT)? De forma prática, o LNT é o processo feito para identificar quais são as dificuldades, as lacunas e as oportunidades de crescimento do time. Nesse levantamento, as necessidades são identificadas, basicamente, analisando qual é a diferença entre aquilo que o colaborador deveria saber fazer e o que ele realmente faz no dia a dia. Assim, é possível diagnosticar quais são as carências de conhecimento ou de habilidades no desempenho atual do colaborador. Com o LNT, você consegue identificar essas brechas e traçar planos para melhorar a performance dos seus colaboradores em sua organização. Disponível em: https://bit.ly/3O2HeEm. Acesso em: 2 abr. 2025. Com base na leitura e nos seus conhecimentos, avalie as asserções e a relação proposta entre elas: I – O LNT é um processo que visa acelerar a rotatividade dos colaboradores que trabalham em uma empresa. porque II – O LNT é um processo no qual são identificadas as necessidades dos colaboradores no sentido de aprimorar suas habilidades e melhorar seus desempenhos nas funções exercidas na organização. Assinale a alternativa correta: A) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II justifica a asserção I. B) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II não justifica a asserção I. C) A asserção I é verdadeira, e a asserção II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a asserção II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa D. 107 GESTÃO DO CONHECIMENTO Análise da questão Conforme exposto no texto, “o LNT é o processo feito para identificar quais são as dificuldades, as lacunas e as oportunidades de crescimento do time”. Além disso, “com o LNT, você consegue identificar essas brechas e traçar planos para melhorar a performance dos seus colaboradores em sua organização”. O LNT não visa acelerar a rotatividade dos colaboradores que trabalham em uma empresa. Questão 2. Vimos, no livro‑texto, que a escolha do local adequado para a realização de um treinamento é muito importante para que tenhamos êxito nesse processo. Em relação a esse tema, avalie as características a seguir: I– Espaços exíguos e restritos. II – Salas sem proteção quanto à entrada de luz natural. III – Ambientes não climatizados. IV – Disponibilidade de sanitários. São fatores negativos em relação à seleção do local de realização de um treinamento os apontados em: A) I, II e III, apenas. B) I e II, apenas. C) II e III, apenas. D) I, III e IV, apenas. E) I, II, III e IV. Resposta correta: alternativa A. Análise da questão Conforme exposto no livro‑texto, segundo Kirkpatrick (2010), alguns fatores negativos no que se refere à escolha do local de realização de um treinamento são: espaços exíguos e restritos; instalações desconfortáveis; salas sem proteção quanto aos ruídos externos e à entrada de luz natural; locais com convívio de transtornos ambientais diversos; e ambientes não climatizados. A falta de disponibilização de serviços como coffee break e de estacionamentos para os participantes do treinamento também tende a afetar negativamente o treinamento. 108 Unidade III Unidade III 5 AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO E DESENVOLVIMENTO DE PESSOAS Segundo Pontes (2021, p. 26): “Avaliação ou administração de desempenho é uma metodologia que visa, continuamente, estabelecer um contrato com os funcionários referente aos resultados desejados pela organização, acompanhar os desafios propostos, corrigir os rumos, quando necessário, e avaliar os resultados conseguidos”. Vamos entender a história da avaliação. A primeira abordagem de gestão de desempenho surgiu com a administração científica, criada pelo americano Frederick Winslow Taylor no início dos anos 1900. O desempenho dos funcionários era medido da mesma forma que o das máquinas, ou seja, em termos de avaliação de desempenho, não havia diferença nenhuma entre máquina e homem. O foco para alcançar bons resultados no processo de produção era avaliar padrões de produtividade, qualidade e tempo levado na execução, inclusive medindo a força física. Após alguns anos, na Primeira Guerra Mundial, a capacidade das pessoas de executar as atividades tornou‑se o centro da gestão de desempenho, haja vista a necessidade do período. Oficiais do exército americano eram continuamente avaliados por sua capacidade de liderança, e essa abordagem acabou se espalhando para outros contextos, como o governo e a indústria. Por volta dos anos 1950, a medição do desempenho passou a avaliar também as questões do comportamento dos colaboradores e as entregas dos trabalhos realizados. Vivíamos, naquele período, a descoberta de teorias motivacionais, advindas de Maslow e Herzberg. Em 1954, surgiu o conceito de administração por objetivos (APO), de Peter Drucker, adotado por várias organizações. Sua teoria dizia que o resultado deveria ser alcançado por meio das pessoas, e não somente das máquinas. Com isso, a avaliação de desempenho dos funcionários começou a ser estruturada com base nos objetivos definidos pela empresa, sempre considerando a cultura organizacional. Com o processo de globalização em andamento, a partir de 1990, a nova tendência passou a ser a análise comportamental dos funcionários. Entre 1990 e 2000, o foco tornou‑se a avaliação por competências, que consiste em avaliar conhecimentos, habilidades, atitudes e resultados. Atualmente, um dos métodos mais utilizados na gestão de desempenho é a avaliação de comportamento com o foco em resultados. Isso ocorre porque os fatores comportamentais estão diretamente ligados ao bom desempenho das atividades e, como consequência, ao alcance de resultados/ metas propostas pela empresa, tudo sempre de acordo com sua cultura. Por isso, avaliar somente 109 GESTÃO DO CONHECIMENTO comportamentos, sem analisar as entregas feitas, não é a forma mais efetiva de identificar o nível de desenvolvimento do colaborador. Mas somente aproximando as competências do colaborador e as necessidades da empresa conseguiremos mensurar o desempenho da organização e, principalmente, o que falta para atualizar ou criar uma competência. A avaliação hoje é utilizada em diversos campos, munindo principalmente a área de treinamento e desenvolvimento do que é necessário para deixar a organização atualizada. Quais são os objetivos da avaliação de desempenho? • oferecer aos funcionários a oportunidade de realizar uma discussão frequente com seu gerente sobre seus comportamentos, seu desempenho e suas competências no período; • fornecer ao gerente uma forma de visualizar os pontos fortes e os pontos fracos de cada colaborador; • mostrar de forma objetiva quais são os pontos que o colaborador precisa melhorar, o que auxilia o gestor a implementar um programa de treinamento personalizado e de mudança de hábitos; • trazer um histórico de desempenho do colaborador para que seja usado como base para bonificações, reajustes de salário, possíveis desligamentos e mudanças de função; • melhorar a interação do gerente com sua equipe e motivar os colaboradores; • gerar maior engajamento com as atividades que estão sendo executadas, mostrando o quanto elas se encaixam nos objetivos da empresa; • ajustar o perfil do empregado ao seu posto de trabalho para que ele tenha maior identificação com sua função; • evitar um alto índice de rotatividade de colaboradores, a fim de impedir desgastes da equipe e manter a credibilidade com os clientes. Lembrete Com o processo de globalização em constante evolução, desde 1990 a nova tendência passou a ser a análise comportamental dos funcionários. Entre 1990 e 2000, o foco tornou‑se a avaliação por competências, que consiste em avaliar conhecimentos, habilidades, atitudes e resultados. 110 Unidade III 5.1 Conhecimento, habilidade, atitude e resultado (CHAR) A sigla CHAR refere‑se aos seguintes aspectos: • C: conhecimento de algo. • H: habilidade em saber fazer. • A: atitude em querer fazer. • R: resultado como consequência do processo. Antes, a sigla era apenas CHA, e só recentemente ganhou o R, de resultado. A área de treinamento e desenvolvimento lida diretamente com a formação de novas competências ou atualiza aquelas defasadas. No ciclo de aprendizagem, quando pensamos nas competências, basicamente temos os componentes da sigla CHAR. Vejamos: • Conhecimento: dominar um assunto ou determinada área. É tudo o que você aprende ao longo da vida, por meio de leituras, experiências, curso, treinamentos e formação acadêmica. É o saber que se adquire gradativamente. • Habilidade: refere‑se a colocar em prática tudo o que você sabe, ou seja, está relacionada ao seu conhecimento. É o saber ou poder fazer. Em uma empresa, temos aquele profissional que tem habilidade em determinada área, o que o ajuda a desempenhar melhor sua função. A habilidade pode ser técnica, como dominar dada tecnologia ou certa máquina, ou comportamental, como ocorre com alguém hábil em negociação, por exemplo. Com o tempo, a tendência é de que todas as habilidades que a pessoa tem sejam aperfeiçoadas. • Atitude: você toma a iniciativa ou antevê o problema. Assim, toma uma atitude para resolver aquele problema. É o ser ou querer fazer. É o que as empresas mais buscam: pessoas que queiram fazer de fato. • Resultado: é a consequência do processo. Nenhuma empresa vive sem resultado: ele é fundamental para a permanência das pessoas na companhia. Reconhecemos o esforço, premiamos o resultado. Por isso, conhecimento, habilidade, atitude e resultado andam juntos, complementando‑se. Um profissional só será verdadeiramente competente quando dominar bem o conhecimento, for capaz de aplicá‑lo para obter resultado e tiver atitude para fazer o resultado acontecer. Avaliamos o tempo todo competências nas empresas, sejam técnicas, sejam comportamentais, como estudaremos a seguir. 111 GESTÃO DO CONHECIMENTO 5.2 Conceito de avaliação de desempenho e sua relação com a área de treinamento e o desenvolvimento A avaliação de desempenho é uma apreciação sistemática do desempenho de cada colaborador em função das atividades que ele desempenha e do seu potencial de desenvolvimento, combase nas metas e nos resultados a serem alcançados. De forma resumida, pode‑se dizer que a avaliação de desempenho é o processo pelo qual as organizações analisam o desempenho e o desenvolvimento do colaborador no cargo. A relação direta entre avaliação de desempenho e desenvolvimento de pessoas está justamente em aproximar as competências do profissional das solicitadas pela empresa. Quanto mais próximas essas competências estiverem, mais o profissional terá possibilidades de “performar”, visto que está de acordo com a cultura e as metas exigidas pela organização. Portanto, desenvolver as competências dos profissionais é potencializar pessoas. 6 INDICADORES DE DESEMPENHO Indicadores de avaliação de desempenho são parâmetros elaborados com base nos resultados da performance do colaborador, de forma individual e no grupo. Eles fornecem referências para o gestor compreender o quanto os colaboradores estão próximos ou distantes do objetivo organizacional e da cultura da empresa. Veja alguns dos principais indicadores de desempenho: • Indicadores de produtividade: são relativos às horas trabalhadas e aos resultados entregues. • Indicadores de qualidade: envolvem a qualidade do que é entregue pelo colaborador. • Indicadores de capacidade: equivalem à capacidade e à quantidade de itens ou de serviços entregues pelos colaboradores. • Indicadores estratégicos: mostram a forma como a empresa está estabelecendo suas metas e vislumbrando a estratégia de seus negócios, comparando como está hoje e como poderia ser no futuro. Observação Destacamos que a escolha e a maneira de aplicar cada indicador depende da cultura de cada organização, do seu estilo de atuar, da sua forma de escolher os líderes etc. 112 Unidade III 6.1 Modelos de avaliação de desempenho tradicionais 6.1.1 Método da escala gráfica É o método de avaliação mais utilizado e divulgado. Aparentemente, é o mais simples, mas sua aplicação requer uma multiplicidade de cuidados, a fim de neutralizar a subjetividade e o pré‑julgamento do avaliador, aspectos que podem ter enorme interferência. Nesse método, utiliza‑se um formulário de dupla entrada, no qual as linhas representam os fatores de avaliação de desempenho, e as colunas, os graus de avaliação dos fatores. Os fatores são selecionados para definir as qualidades a serem avaliadas, e cada um é definido com uma descrição simples e objetiva, para não haver distorções. Veja, no quadro a seguir, um exemplo desse tipo de formulário. Quadro 29 – Formulário: método da escala gráfica Fatores Ótimo Bom Regular Ruim Péssimo Assiduidade (comparece ao trabalho sem faltas) Pontualidade (comparece ao trabalho sempre no horário) Trabalho em equipe Criatividade (capacidade de inovar) Produção (realiza o trabalho solicitado) Resolução de problemas 6.1.2 Método da escolha forçada Foi desenvolvido durante a Segunda Guerra Mundial para escolher os oficiais que seriam promovidos. Esse método, aplicado experimentalmente, possibilitou resultados satisfatórios. Posteriormente, foi adaptado e implantado em várias empresas. Ele consiste em avaliar o desempenho dos indivíduos por intermédio das frases descritivas. Em cada bloco de um formulário, composto por duas, quatro ou mais frases, o avaliador deve escolher obrigatoriamente apenas uma ou duas que mais se aplicam ao desempenho do avaliado. Vamos detalhar esse tipo de formulário. Em cada bloco, podemos ter duas frases de significado positivo e duas frases de significado negativo. O avaliador escolhe a frase que mais se aplica e a que menos se aplica ao desempenho do avaliado. Em cada bloco, também podemos ter quatro frases de significado apenas positivo, e o avaliador escolhe as que julgar mais adequadas. O termo escolha forçada foi cunhado justamente com o intuito de o colaborador ser levado a escolher somente as opções dadas pelo teste (ele é “forçado” a fazer uma escolha). 113 GESTÃO DO CONHECIMENTO Veja, no quadro a seguir, um formulário relativo ao método da escolha forçada. Quadro 30 – Avaliação de desempenho: método da escolha forçada Nome: _____________________________________ Cargo: _______________ Departamento: ________________ Embaixo você encontrará blocos de frases. Anote um “X” na coluna ao lado, com o sinal “+” para indicar a frase que melhor define o desempenho do funcionário e com o sinal “‑” para a frase que menos define o seu desempenho. Não deixe nenhum bloco sem preencher duas vezes N. + ‑ N. + ‑ Apresenta produção elevada Dificuldade em lidar com pessoas Comportamento dinâmico Tem bastante iniciativa Tem dificuldade com números Gosta de reclamar É muito sociável Tem medo de pedir ajuda Tem espírito de equipe Tem potencial de desenvolvimento Gosta de ordem Toma decisões com critério Não suporta pressão É lento para executar tarefas Aceita críticas construtivas Conhece o seu trabalho Tem boa aparência pessoal Nunca demonstra descontentamento Comete muitos erros Produção razoável Oferece boas sugestões Tem boa memória Decide com dificuldade Expressa‑se com dificuldade 6.1.3 Método de autoavaliação É o método por meio do qual o próprio empregado é solicitado a fazer uma sincera análise de suas próprias características de desempenho. Pode utilizar sistemáticas variadas, incluindo formulários baseados nos esquemas já apresentados nos diversos métodos de avaliação de desempenho. 6.2 Modelos contemporâneos de avaliação de desempenho 6.2.1 Avaliação 180 graus É uma ferramenta que tem como foco a gestão estratégica de pessoas, em que o avaliado é analisado somente pelos seus superiores, ou seja, ela permite que o gestor realize uma avaliação de cada membro da sua equipe tendo por base as metas que lhe foram determinadas durante o período. Nesse tipo de avaliação de desempenho, o superior fornece orientação, aconselhamento, informação, equipamentos, metas e objetivos e cobra resultados, enquanto o subordinado fornece desempenho e resultados e cobra recursos do gerente, como esquematizado na figura 8 a seguir. 114 Unidade III Superior imediato Autoavaliação Figura 8 – Esquema: avaliação 180 graus Com a avaliação 180 graus, o superior tem uma variedade de funcionalidades em sua autoavaliação, podendo contar com o auxílio de gráficos, consenso prático e plano de desenvolvimento individual, de forma que o desenvolvimento do colaborador ganha nova direção e os relatórios para o RH e os diretores passam a ser mais completos e fidedignos. 6.2.2 Avaliação 360 graus É um modelo de avaliação funcional em que o profissional é analisado por uma série de avaliadores, tais como a chefia imediata, os colegas de trabalho, os subordinados e até os clientes da empresa, como vemos na figura a seguir. Ou seja, essa avaliação compreende a utilização de feedback, envolvendo todas as pessoas que se encontram no entorno do avaliado – subordinados, pares e superiores. AutoavaliaçãoVisão do gestor Visão dos pares Visão da chefia Visão dos clientes Visão dos subordinados Figura 9 – Esquema: avaliação 360 graus Algumas vezes, a pessoa analisada escolhe os avaliadores, sujeitos à aprovação de um gestor, com o entendimento de que as análises produzidas serão confidenciais. Por exemplo, os formulários preenchidos podem não conter o nome do avaliador, e os resultados podem ser consolidados para cada nível. 115 GESTÃO DO CONHECIMENTO Saiba mais O artigo a seguir explica do que se trata a avaliação de desempenho, destacando a avaliação 360 graus. DEDILA, C. Avaliação 360 graus: o que é, como funciona e vantagens. Gopy, 28 ago. 2019. Disponível em: https://tinyurl.com/4z8z247w. Acesso em: 23 abr. 2025. Segundo Pontes (2021, p. 35), A avaliação 360 graus tem como pressuposto central o desenvolvimento da competência das pessoas por meio de feedbacks de seus pares, superiores, liderados e cliente internos ou externos, substituindo a ideia central das metodologias clássicas de avaliação – de o líder avaliar o subordinado. Lembrete Indicadores de avaliação dedesempenho são parâmetros elaborados com base nos resultados da performance do colaborador, de forma individual e no grupo. 6.3 Tendências na avaliação de desempenho Os processos de avaliação de desempenho têm sofrido mudanças gradativas. Em vez de avaliações anuais, marcadas pontualmente, muitas vezes, eles têm acontecido de forma aleatória, incentivados a cada momento que o feedback possa ser dado. Entre os motivos para isso, temos o preparo que os profissionais realizam quando sabem que terão uma avaliação pela frente, deixando o processo mais “quadrado” e menos espontâneo, o que inibe a verdadeira avaliação. Saiba mais Para ampliar seus conhecimentos, leia a obra indicada. CASTILHO, Á. Construindo equipes para alto desempenho: fundamentos e técnicas. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1998. 116 Unidade III A tendência que grandes organizações adotam é um sistema geralmente prático, inclusive via aplicativo, no qual logo após um evento o profissional possa dar ou pedir feedback. Sim, é simples mesmo. Por exemplo, imagine que participamos de uma reunião e, após a apresentação de todo o processo, é possível analisar os pilares fundamentais de avaliação da empresa (comunicação, conteúdo, assertividade, trabalho em equipe etc.). Nesse momento, por meio do aplicativo, o condutor da reunião pede que os participantes abram seus aplicativos e avaliem seu trabalho, recebendo um feedback instantâneo e estruturado. Observação A situação apresentada vale para outras atividades do dia a dia, como um trabalho que o líder, um par ou outra área da empresa requisita. Assim, pratica‑se o feedback de forma constante, como algo natural e bem‑vindo, proporcionando o desenvolvimento contínuo dos colaboradores. 117 GESTÃO DO CONHECIMENTO Resumo Nesta unidade, estudamos um processo fundamental nas organizações: a avaliação de desempenho e sua relação com a área de treinamento e desenvolvimento. Trata‑se de uma ferramenta importante que o gestor tem à sua disposição para alcançar o desenvolvimento de pessoas, compreender se as competências do colaborador estão próximas das competências da empresa e aprimorar as competências dos funcionários. Também desenvolvemos o conceito de CHAR, acrônimo de conhecimento, habilidade, atitude e resultado, e seus principais aspectos. Explicamos características de algumas avaliações tradicionais de desempenho, como a escala gráfica e a escolha forçada, e de algumas avaliações contemporâneas de desempenho, como a 180 graus e a 360 graus. No que se refere à avaliação de desempenho, vimos que há a tendência de modificar o estilo dessas avaliações, tornando‑as mais ágeis e pontuais, principalmente com o uso da tecnologia, a exemplo do feedback instantâneo via aplicativo. 118 Unidade III Exercícios Questão 1. Vimos, no livro‑texto, que a avaliação de desempenho objetiva acompanhar continuamente a performance dos funcionários no que se refere aos resultados desejados pela organização, averiguar os desafios propostos, corrigir os rumos, quando isso for necessário, e avaliar os resultados efetivamente obtidos. Em relação aos objetivos da avaliação de desempenho, avalie os itens a seguir: I – Possibilitar que o gerente observe os pontos fortes e os pontos fracos de cada colaborador. II – Criar oportunidades para que o colaborador realize conversas com seu gerente sobre seu desempenho em determinado período. III – Gerar maior comprometimento dos colaboradores com as atividades desenvolvidas. IV – Aumentar o índice de rotatividade de colaboradores. São os objetivos da avaliação de desempenho os apontados em: A) I, II, III e IV. B) I e II, apenas. C) I, II e III, apenas. D) II e III, apenas. E) I, III e IV, apenas. Resposta correta: alternativa C. Análise da questão Vimos, no livro‑texto, que alguns dos objetivos da avaliação de desempenho são os apontados a seguir: • possibilitar que o gerente observe os pontos fortes e os pontos fracos de cada colaborador. Assim, o gestor pode, por exemplo, implementar um programa de treinamento personalizado; • criar oportunidades para que o colaborador realize conversas com seu gerente sobre seu desempenho em determinado período. Além disso, a interação entre o gerente e seus colaboradores tende a tornar‑se mais frequente e efetiva; 119 GESTÃO DO CONHECIMENTO • gerar maior comprometimento e engajamento dos colaboradores com as atividades desenvolvidas; • elaborar um histórico de desempenho do colaborador para que seja utilizado como referência para bonificações e reajustes de salário e para embasamento de possíveis desligamentos e mudanças de função; • evitar um alto índice de rotatividade de colaboradores, a fim de impedir desgastes da equipe e manter a credibilidade com os clientes. Questão 2. Leia o texto a seguir: O que é CHAR? Esse conceito é muito falado nos dias atuais e vem ganhando espaço nas organizações. O CHAR é um acrônimo formado a partir de: conhecimento, habilidade, atitude e resultado. O conceito é utilizado pela gestão de pessoas quando falamos em gestão por competência. Antigamente, um profissional era classificado como competente por ter vasto conhecimento teórico sobre a área em que estava inserido, mas isso não funciona mais assim. Ter apenas o conhecimento (o saber), que é adquirido nos treinamentos, nos livros, nas universidades, nas escolas e na vida, não faz a pessoa ser competente em algo. É necessário que os outros dois critérios estejam presentes para consolidar uma competência de acordo com o conceito CHAR. A habilidade é o saber fazer. Resumidamente, é colocar em prática o que se aprende na teoria. Uma pessoa que preenche esse critério já errou, reinventou‑se e tentou várias vezes; assim, tornou‑se hábil em realizar uma tarefa, um processo ou um procedimento. Já a atitude se refere à ação, ao querer fazer. Muitos profissionais detêm o conhecimento adequado e a habilidade necessária, porém decidem não fazer o que deve ser feito. E todos sabemos que, sem a ação, não é possível que as coisas se concretizem. Então, para que alguém valide uma competência, é necessário que esses três critérios sejam preenchidos de acordo com o modelo da organização ou da instituição. Adaptado de: https://bit.ly/3uJzFeC. Acesso em: 2 abr. 2025. Com base na leitura e em seus conhecimentos, avalie as afirmativas: I – Na sigla CHAR, C representa o conhecimento, ou seja, o saber adquirido exclusivamente por meio da conclusão de cursos de pós‑graduação. II – Na sigla CHAR, H representa a habilidade, ou seja, o saber fazer, que reflete a aplicação prática de conhecimentos teóricos. III – Na sigla CHAR, A representa a atitude, ou seja, o querer fazer, que se vincula à decisão de efetivamente realizar o que precisa ser feito. 120 Unidade III É correto o que se afirma em: A) I e II, apenas. B) I e III, apenas. C) II e III, apenas. D) III, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa C. Análise das afirmativas I – Afirmativa incorreta. Justificativa: no acrônimo CHAR, C representa o conhecimento. Segundo o texto, “antigamente, um profissional era classificado como competente por ter vasto conhecimento teórico sobre a área em que estava inserido, mas isso não funciona mais assim”. Além disso, “ter apenas o conhecimento (o saber), que é adquirido nos treinamentos, nos livros, nas universidades, nas escolas e na vida, não faz a pessoa ser competente em algo”. II – Afirmativa correta. Justificativa: no acrônimo CHAR, H representa a habilidade. Segundo o texto, “a habilidade é o saber fazer”, ou seja, “resumidamente, é colocar em prática o que se aprende na teoria”. Além disso, “uma pessoa que preenche esse critério já errou, reinventouse e tentou várias vezes; assim, tornouse hábil em realizar uma tarefa, um processo ou um procedimento”. III – Afirmativa correta. Justificativa: no acrônimo CHAR, A representa a atitude. Segundo o texto, “a atitude se refere à ação, ao querer fazer”. Além disso, “muitos profissionais detêmo conhecimento adequado e a habilidade necessária, porém decidem não fazer o que deve ser feito”, e “todos sabemos que, sem a ação, não é possível que as coisas se concretizem”. 121 GESTÃO DO CONHECIMENTO Unidade IV 7 EDUCAÇÃO CORPORATIVA E DESENVOLVIMENTO ORGANIZACIONAL Com todo o cenário de transformação no mercado de trabalho que vivemos, as empresas têm a preocupação de planejar e de implementar mudanças que propiciem o melhor desempenho dos colaboradores na organização, deixando‑a mais competitiva. Quando tratamos de desenvolvimento organizacional, nos remetemos às décadas de 1960 e 1970, em que o desenvolvimento ganhou forma e força, originando métodos e objetivos para melhorar o desempenho das empresas. Chiavenato (2021, p. 168) define desenvolvimento organizacional “como um esforço de longo prazo, apoiado pela alta direção, com o propósito de melhorar os processos de resolução de problemas e de renovação organizacional [...]”. Desenvolvimento organizacional é a aplicação de diversas técnicas comportamentais buscando melhorar a condição e a eficiência da empresa, para que ela possa se adaptar a ambientes em constante processo de transformação, procurando solucionar seus problemas e lidar com a realidade. Observação A base dessa transformação é o conhecimento; vivemos na era em que aprender e dominar algo significa poder. Assim, sabendo dessa máxima, as empresas tendem a investir em conhecimento para sobreviver em um mercado altamente competitivo. Paralelamente ao processo, temos cunhado de desenvolvimento organizacional o termo educação corporativa. Ela representa uma estratégia voltada para a gestão de pessoas da empresa, em que habilidades devem ser desenvolvidas em favor do contexto organizacional sempre em mutação. Isso significa que a prática vai muito além de oferecer treinamentos ou simplesmente qualificar a mão de obra. A promoção de cursos de capacitação tem como principal objetivo elevar as competências de cada colaborador, de acordo com os interesses e as necessidades da companhia e do mercado de trabalho. Segundo Martins e Fuerth (2016 apud Casado; Genes, 2017, p. 20): “a globalização e a expansão das fronteiras organizacionais requerem uma dinâmica de competências e uma crescente gestão do conhecimento, forçando a consolidação do conhecimento organizacional e da inteligência competitiva”. A educação corporativa é um sistema de desenvolvimento de pessoas pautado pela gestão de indivíduos por competências, visando à atualização constante do conhecimento circulante nas empresas. 122 Unidade IV 7.1 Gestão do conhecimento Devemos conceituar dado, informação e conhecimento para que possamos compreender a gestão do conhecimento, uma vez que é comum tratar esses conceitos como sinônimos. Dado, por exemplo, quer dizer material de nível simbólico, de codificação alfanumérico e móvel, que pode ser armazenado sem consideração quanto ao seu significado. Em uma organização, trata‑se do registro de determinado evento para o sistema. Davenport e Prusak (1998) definem dado, de forma geral, como um conjunto de fatos distintos e objetivos, relativos a eventos. Os autores o descrevem como informação bruta, a representação precisa de algo ou de um acontecimento, ressaltando sua importância como matéria‑prima fundamental para a geração de informação e a variabilidade de seu significado dependendo do contexto. Informação, por sua vez, é a disposição organizada de dados, que cria padrões e ativa significados na mente de uma pessoa. Pode ser representada por palavras, números, tabelas, gráficos, imagens e sons, por exemplo. Trata‑se de um conjunto de dados com determinada acepção para o sistema. Segundo Drucker (1999, p. 32), a informação é composta de “dados interpretados, dotados de relevância e propósito”. É um fluxo de mensagens, um produto capaz de gerar conhecimento. Ou seja, é um meio ou material necessário para extrair e construir o conhecimento. Setzer (2004) diz que dados são abstrações formais quantificadas, que podem ser armazenadas e processadas por computador. Informações são abstrações informais (não podem ser formalizadas segundo uma teoria matemática ou lógica) que representam, por meio de palavras, sons ou imagem, por exemplo, algum significado para alguém. Segundo o autor, conhecimento é uma abstração interna e pessoal gerada a partir da experiência. Nesse sentido, não pode ser completamente descrito nem representado, caso contrário, seria apenas informação. Stewart (1998) discute a visão comum de que o conhecimento se organiza em uma hierarquia, desde os dados até a sabedoria. Contudo, o autor argumenta que a classificação de algo como dado ou conhecimento é relativa à pessoa que o interpreta. Para ele, os ativos do conhecimento possuem valor e justificam investimento apenas quando alinhados com a estratégia organizacional. Conhecimento é o conteúdo agregado com valor do pensamento humano, derivado da percepção e manipulação inteligente de informações. Ele é transcendente e é a base para a ação inteligente. Nesse sentido, o acesso, a disponibilidade, o tratamento e a efetiva utilização da informação são de fundamental importância, uma vez que a informação é a matéria‑prima do conhecimento. Segundo Albrecht (2004), quem lida com dados e informações como matéria‑prima sem agregar valor significativo, por meio de seus próprios processos mentais, não é um trabalhador do conhecimento no sentido emergente do termo. Conforme a nova definição, muitas funções burocráticas não empregam mais conhecimentos do que tarefas manufatureiras de dificuldade moderada. Precisamos aprender a fazer outras diferenciações que no passado podem ter parecido meramente acadêmicas, mas que podem tornar‑se cada vez mais significativas. 123 GESTÃO DO CONHECIMENTO Devemos salientar, em especial, as diferenças entre o conhecimento e a matéria‑prima da qual ele emerge, ou seja, os dados e as informações. O objetivo aqui é raciocinar a partir de uma pirâmide, ou hierarquia de conhecimentos, que ascende, em termos de valor agregado, a níveis progressivamente mais altos. Lembrete Conhecimento é o conteúdo agregado com valor do pensamento humano, derivado da percepção e manipulação inteligente de informações. Ele é transcendente e a base para a ação inteligente. Nesse sentido, o acesso, a disponibilidade, o tratamento e a efetiva utilização da informação são de fundamental importância, uma vez que a informação é a matéria‑prima do conhecimento. Veja a figura 10. Conhecimento Conteúdo agregado derivado da manipulação inteligente de informações em determinadodado contexto Dados Públicos e publicados Relembrando Informação Dados analisados, com valor agregado Figura 10 – Dados, informação e conhecimento 7.1.1 Informação como base para o conhecimento Peter Drucker (apud Davenport; Prusak, 1998, p. 5) definiu informação como “dados dotados de relevância e propósito”. Segundo ele, a informação requer análise, exige consenso em relação ao significado e necessariamente interação humana. Podemos dizer que se trata de um conjunto de dados com significado em determinado contexto. Atualmente, verificamos imensa produção de informação. No entanto, muitas organizações investem fábulas em tecnologias de informação que não parecem ter relação direta com o desempenho organizacional e continuam com problemas informacionais. Por quê? Precisamos, primeiramente, fazer uma distinção entre tecnologia da informação e gestão da informação. 124 Unidade IV A tecnologia da informação está relacionada a softwares, hardwares, redes eletrônicas de comunicação etc. Tudo isso somente fará sentido se alinhado com os negócios da organização e se, junto a todo o conjunto de informações da empresa, for criada uma arquitetura tecnológica capaz de dar suporte e servir como ferramenta e facilitadora de compartilhamento do conhecimento. Claro que os investimentos em tecnologia são necessários, mas isso não é o suficiente para operarmudanças, uma vez que estamos falando “na maneira como as pessoas criam, distribuem, compreendem e usam a informação” (Davenport; Prusak, 1998, p. 14). Para Drucker (apud Davenport; Prusak, 1998, p. 43), os executivos precisam aprender a fazer perguntas como: “De que tipo de informação necessito, sob que forma e quando? [...]”. As seguintes questões também necessitam ser feitas: “A quem devo que tipo de informação? Quando e onde?”. O que acontece é que as organizações, muitas vezes, não prestam atenção à qualidade da informação necessária e, com isso, trabalham ora com carência de informações, ora com informações desnecessárias. Carvalho e Tavares (2001, p. 13) trabalham o conceito de informação essencial como “aquela essencialmente útil ao negócio de uma organização e que se apresenta de forma limpa, racionalizada e sistematizada”. Para elas, a informação essencial é aquela que contribui diretamente com o negócio da empresa e circula, dentro dela, de forma limpa (minimizando ao máximo o ruído e a veiculação de informações desnecessárias), sistematizada, construindo uma linguagem entendida por todos e com o mesmo sentido de interpretação, e coerente com processos de trabalho e sistemas informacionais que reproduzam tal racionalidade. Davenport e Prusak (1998) afirmam que os gestores ecológicos da informação produzem ambientes informacionais, mobilizando estratégias, política e comportamentos ligados à informação, além do suporte a equipes e processos de trabalho. Enxergam de maneira holística não apenas o ambiente informacional imediato, mas também o ambiente organizacional como um todo. Toda e qualquer organização, seja qual for o porte e o ramo de negócio, adota estratégias para alcançar os objetivos planejados, visando direcionar e coordenar esforços, definir a estrutura e sobreviver ao ambiente competitivo. Para Fernandes e Alves (apud Araújo, 2002), uma economia baseada em informação caracteriza‑se principalmente por dois fatores: a informação cada vez mais é a base para a comunicação; e as necessidades do gerenciamento da informação devem acionar as alternativas tecnológicas. Assim, elas afetam a estratégia tanto como um dado vital para o processo de planejamento quanto como uma variável essencial da definição da estratégia. Baseadas nas informações do ambiente interno e externo, as organizações podem utilizar três estratégias competitivas, explicadas a seguir. • Diferenciação de produtos/serviços: a informação é utilizada para desenvolver vantagem competitiva, gerando oportunidades de produtos/serviços. 125 GESTÃO DO CONHECIMENTO • Diferenciação do mercado: a informação é usada para a abertura de novas possibilidades, uma vez que os produtos passam a competir em novos segmentos com um nível de igual ou superior competitividade. • Manutenção dos custos de produção em níveis considerados baixos: a informação bem utilizada permite que a empresa possa oferecer seus produtos/serviços a preços considerados baixos no contexto do mercado sem, no entanto, prejudicar a qualidade. Uma definição estratégica passa necessariamente pelo processo decisório, e este também depende de informações oportunas com conteúdo adequado e confiável. A gestão da informação nas organizações funciona como o sistema nervoso central, uma vez que ela serve como base competitiva. Consequentemente, o sucesso organizacional depende da clara identificação feita pelos gerentes das informações essenciais que estejam alinhadas ao negócio. Segundo Drucker (1999), a informação é o recurso‑chave, que cria, cada vez mais, o elo entre os colegas de trabalho, a organização e sua rede. 7.1.2 Conhecimento A palavra conhecimento tem sua origem no latim cognoscere, que remete à ideia de conhecer através dos sentidos. No processo de construção do conhecimento, diferentes teorias enfatizam ora as sensações e impressões, ora a associação de ideias e a cognição. O conhecimento se desenvolve a partir da informação, que, por sua vez, se origina dos dados. Sua natureza complexa e multifacetada o torna impuro, fluido, estruturado e intuitivo, o que dificulta sua completa verbalização ou compreensão puramente lógica. Por residir intrinsecamente nas pessoas, o conhecimento se revela complexo e imprevisível. Para Nonaka e Takeuchi (1997), o conhecimento é criado pelo fluxo de informações, mas ancorado nas crenças e nos compromissos de seu detentor, e está diretamente relacionado à ação humana, sendo sempre conhecimento com algum fim. Segundo Davenport e Prusak (1998, p. 6), “o conhecimento pode ser comparado a um sistema vivo que cresce e se modifica à medida que interage com o meio ambiente”. Drucker (1997, p. 214) enfatiza que o “conhecimento é informação que modifica algo ou alguém, seja inspirando ação, seja tornando uma pessoa (ou uma instituição) capaz de agir de maneira diferente e mais eficaz”. Carvalho e Tavares (2001) afirmam que a informação precisa ser organizada de modo lógico que permita a produção de um novo entendimento. Os autores dizem que conhecer implica a capacidade interpretativa do homem. Como as pessoas são diferentes e carregam histórias, crenças, valores distintos, isso acarreta reações diversas frente a um mesmo assunto. O conhecimento é produzido e adquirido pelas pessoas e organizações de acordo com suas emoções, seus interesses e suas motivações. Talvez isso possa explicar o motivo de as definições do termo conduzirem à ação e que o simples fato de “ter” informação não a transforma em conhecimento, uma vez que ela precisa ser interpretada, contextualizada e conduzir à ação. Von Krogh, Nonaka e Ichijo (2001) afirmam que o conhecimento em si é mutável e pode assumir vários aspectos em diferentes organizações. Eles defendem os três pontos a seguir. 126 Unidade IV • O conhecimento é crença verdadeira e justificada: é uma construção da realidade que se faz a partir das crenças, da sensibilidade e da experiência individual. • O conhecimento é tácito e explícito: existe um tipo de conhecimento que se pode expressar, enquanto outras de suas formas estão vinculadas aos sentidos, a algo individual, difícil de descrever (o próximo tópico trata com mais detalhes os tipos de conhecimento). • A eficácia da criação do conhecimento depende de um contexto capacitante: trata‑se de um espaço compartilhado que fomente novos relacionamentos. Em resumo, para Von Krogh, Nonaka e Ichijo (2001, p. 16), “o conhecimento é dinâmico, relacional e baseado na ação humana; depende da situação e das pessoas envolvidas, e não de verdades absolutas e fatos tangíveis”. Podemos observar, nessas definições, que, apesar de partirem de pressupostos diferentes, o princípio é um só: conhecimento é algo mutável com o tempo e está relacionado com a visão de cada indivíduo que o detém. Em nenhum momento uma definição contradiz a outra, apenas a complementa. Saiba mais Para observar alguns dos desafios da gestão de conhecimento, leia a indicação a seguir: GONZALEZ, R. V. D.; MARTINS, M. F. O processo de gestão do conhecimento: uma pesquisa teórico‑conceitual. Gestão & Produção, v. 24, n. 2, abr./jun. 2017. Disponível em: https://tinyurl.com/2z9huzh8. Acesso em: 23 abr. 2025. 7.1.3 Tipos de conhecimento Michael Polanyi (apud Melo et al., 2019) foi o primeiro autor a estabelecer uma distinção entre dois tipos de conhecimento: o tácito e o explícito. O que ele defende é que os seres humanos adquirem conhecimentos criando e organizando ativamente suas experiências. O conhecimento tácito refere‑se a elementos cognitivos e técnicos, é subjetivo e representa o conhecimento da experiência. Já o conhecimento explícito é o conhecimento da racionalidade e da objetividade. Ele pode ser articulado na linguagem formal, inclusive em afirmações gramaticais, expressões matemáticas, especificações e manuais, por exemplo, sendo facilmente transmitido, sistematizado e comunicado. Esse foi o modo dominante de conhecimento na tradição filosófica ocidental. O conhecimento tácito é difícilde ser articulado na linguagem formal. Trata‑se do conhecimento pessoal incorporado à experiência individual, que envolve fatores intangíveis, como crenças pessoais, 127 GESTÃO DO CONHECIMENTO perspectivas, sistema de valor, insights, intuições, emoções e habilidades. É considerado uma fonte importante de competitividade entre as organizações. Veja a seguir uma figura que apresenta as diferenças entre as formas de conhecimento. É tangível. Pode ser articulado em linguagem formal, através de descrições, manuais, especificações, expressões etc. Facilmente transmitido Conhecimento explícito É intangível. É pessoal, incorporado à experiência individual. Só pode ser transmitido pela vivência, pela prática Conhecimento tácito Conhecimento Figura 11 – Formas de conhecimento Nonaka e Takeuchi (1997) trabalharam esses conceitos propondo um modelo dinâmico de interação entre ambos os conhecimentos. Stewart (1998) e Terra (2001) adotam o conceito de Nonaka sobre os tipos de conhecimento: “alguém que deseje investir em pessoas inteligentes ou gerenciá‑las – esse material intelectual precisa ser formalizado, capturado e alavancado a fim de gerar um ativo de maior valor” (Stewart, 1998, p. 61). Terra (2001) considera que o trabalho de Nonaka e Takeuchi (1997), The knowledge‑creating company, foi aquele que, provavelmente, mais do que qualquer outro, conseguiu desenvolver um modelo coerente, capaz de associar o processo de inovação aos conhecimentos tácitos e aos conhecimentos explícitos existentes em uma corporação. Os conhecimentos tácitos e explícitos são unidades estruturais básicas que se complementam, e a interação entre eles é a principal dinâmica da criação do conhecimento na organização de negócios. Conforme Carvalho (2012, p. 21) reforça: A gestão do conhecimento não torna a organização capaz de criar conhecimento com hora marcada. O que ela faz é propiciar a gestão sistêmica do processo de criação de conhecimento. Quando não acontece “no susto”, esse processo tende a ser mais eficaz e eficiente para todos os envolvidos. 128 Unidade IV 7.1.4 Identificação, criação e socialização do conhecimento Carvalho e Tavares (2001) sustentam que informação é a base do conhecimento e que, por isso, somente devem ser incorporadas ao ambiente organizacional as informações essenciais ao negócio da empresa. Elas deverão estar prontas para serem interpretadas diante dos contextos organizacionais. Para Von Krogh, Nonaka e Ichijo (2001), a instituição criadora de conhecimento envolve tanto ideias quanto ideais, e isso fomenta a inovação. Criar novos conhecimentos é recriar a organização e todas as pessoas que a compõem. Segundo Nonaka e Takeuchi (1997), para se tornar uma “empresa que gera conhecimento” (knowledge‑creating company), a organização deve completar uma “espiral do conhecimento”, espiral esta que vai de tácito para tácito, de explícito para explícito, de tácito para explícito e, finalmente, de explícito para tácito. A conversão do conhecimento poderá ser feita de quatro maneiras, conforme vemos a seguir: • Socialização (conhecimento tácito para tácito): a transferência do conhecimento tácito se dá pelo compartilhamento de experiências, pela observação e pela imitação. Isoladamente, ela é uma forma limitada de criação de conhecimento, pois, embora o aprendiz absorva as habilidades do mestre, nenhum dos dois agrega qualquer insight sistemático ao conhecimento do ofício. Na prática, ocorreria por intermédio de atividades, como sessões informais, brainstormings e interações com clientes. Como esse conhecimento não se torna explícito, fica difícil para a organização alavancá‑lo. • Combinação (conhecimento explícito para explícito): é o processo de sistematização de conceitos existentes em um novo sistema de conhecimentos. Essa combinação não amplia a base de conhecimentos já existentes. Como exemplo, podemos dizer que, quando alguém na organização coleta informações de todos e as transforma em um relatório, essa pessoa está sintetizando ou combinando informações de várias fontes diferentes. • Externalização (conhecimento tácito para explícito): modelos mentais individuais e habilidades são transformados em conceitos comuns. Ocorre uma interação entre o compartilhamento dos modelos mentais e a análise quando se consegue desenvolver uma abordagem inovadora com base em conhecimentos tácitos desenvolvidos ao longo dos anos. • Internalização (conhecimento explícito para tácito): trata‑se de vivenciar o resultado prático de um novo conhecimento. É um exercício continuado e um processo de autoaprimoramento que está relacionado com o aprender fazendo. Na medida em que um conhecimento é explicitado e compartilhado, outras pessoas começam a internalizá‑lo, ou seja, utilizam‑no para ampliar, estender e reformular seus próprios conhecimentos tácitos. Portanto, o conhecimento deve ser articulado e, então, internalizado, para se tornar parte da base de conhecimento de cada pessoa. Sempre que se caminha na espiral, pois ela deve ser recomeçada depois de ter sido completada, a aplicação do conhecimento é ampliada em outras áreas da organização. Para Nonaka e Takeuchi (1997), 129 GESTÃO DO CONHECIMENTO na empresa criadora de conhecimento, todos os quatro padrões estão presentes, em constante interação dinâmica, constituindo uma espécie de espiral, conforme vemos na figura a seguir. Dimensão epistemológica Conhecimento tático Socialização Internalização Dimensão ontológica Conhecimento explícito Externalização Combinação Individual Grupo Organização Interorganização Nível de conhecimento Figura 12 – Espiral da criação do conhecimento organizacional Adaptada de: Nonaka e Takeuchi (1997). Observe o esquema da figura 13. Explícito Externalização (modelos) Combinação (reuniões e documentos formais) Tácito Explícito Socialização (brainstormings) Internalização (vivência de resultado prático) Tácito Figura 13 – Conversão do conhecimento Adaptada de: Nonaka e Takeuchi (1997). Os autores creem que a externalização (conversão do conhecimento tácito para o explícito) e a internalização (uso do conhecimento explícito para ampliação do conhecimento tácito) são as fases críticas da espiral do conhecimento, pois ambas exigem o envolvimento ativo do eu: o comprometimento pessoal. 130 Unidade IV Para a promoção da espiral de criação do conhecimento, os autores identificam cinco condições em âmbito organizacional, elencadas a seguir: • Intenção: aspiração da organização às suas metas. • Autonomia: ação das pessoas de forma autônoma de acordo com as circunstâncias. • Flutuação e caos criativo: hábitos ou estruturas cognitivas, colapso. • Redundância: superposição intencional de informações sobre a empresa. • Variedade de requisitos: acesso de forma rápida a um número maior de informações necessárias, percorrendo o menor caminho. Além de uma estrutura organizacional adequada e de um estilo gerencial facilitador para a criação do conhecimento, esse processo deverá passar por cinco fases: compartilhamento do conhecimento tácito; criação de conceitos; justificação dos conceitos; construção de um modelo; e difusão interativa do conhecimento. Garvin (2000, p. 52) questiona Nonaka quanto à seguinte afirmação: “a invenção de novos conhecimentos não é uma atividade especializada, é uma forma de comportamento; na verdade, um modo de ser, em que todos são trabalhadores do conhecimento”. Para ele, essa definição não oferece referencial para a ação, havendo apenas recomendações abstratas e sem respostas para muitas questões. Segundo Garvin (2000), o desenvolvimento do aprendizado inicia‑se, principalmente, a partir de novas ideias, e as organizações que aprendem são habilidosas em cinco atividades principais: solução de problemas de maneira sistematizada, experimentação de novas abordagens, aprendizado com as próprias experiências e antecedentes, aprendizado com as experiências e melhores práticas alheias, e transferência rápidae eficiente do conhecimento em toda a companhia. Stewart (1998) entende que os ativos de conhecimento de uma empresa estão em três elementos: capital humano, capital estrutural e capital do cliente. Nesse tripé está o capital intelectual da instituição, pois, quando se pensa em categorias, é possível fazer perguntas que permitam identificar tanto o conhecimento tácito quanto o explícito. Para ele, a distinção entre capital humano e estrutural é fundamental na medida em que o capital humano é uma importante fonte de inovação e renovação. Davenport e Prusak (1998) alegam que o conhecimento tem origem e é aplicado na mente dos conhecedores e que, nas organizações, ele costuma estar embutido não apenas em documentos ou repositórios, mas em rotinas, em processos, em práticas e em normas organizacionais. Conforme os autores, a criação do conhecimento leva à inovação contínua, gerando a vantagem competitiva para as organizações. Para tanto, a organização precisa desenvolver uma cultura de inovação, reconhecendo que o grupo responsável precisa ser inspirado, protegido e provido com autonomia e recursos. 131 GESTÃO DO CONHECIMENTO Até agora foram abordadas a identificação e a criação do conhecimento na organização, mas torna‑se importante lembrar que é preciso saber identificar o conhecimento externo. A absorção do conhecimento externo e seu aproveitamento pela organização são uma poderosa fonte de vantagem competitiva. Vale destacar que, na teoria de Nonaka e Takeuchi (1997), são considerados os diversos níveis criadores de conhecimento: individual, grupal, organizacional e interorganizacional. Embora vários autores tratem a questão da identificação e da criação do conhecimento de forma diferente, todos reconhecem que a criação do conhecimento consiste, basicamente, em: • transformar o conhecimento tácito em conhecimento explícito; • converter os conhecimentos individuais em conhecimento coletivo organizacional; • não apenas investir em criação de conhecimento, mas aproveitar o novo conhecimento gerado; • criar mecanismos que possam oportunizar a transferência e o compartilhamento, tendo em vista um melhor desempenho organizacional. Transferência e compartilhamento ou socialização do conhecimento É importante buscarmos as definições de transferência e compartilhamento, já que, muitas vezes, essas duas palavras têm sido utilizadas com um mesmo significado. Segundo o Grande dicionário Larousse cultural da língua portuguesa (1999), temos o que segue: • Transferir: passar para adiante, deslocar, envolvendo as ações de transmitir (comunicação). • Compartilhar: partilhar com, tomar parte em, envolvendo a ação de participar. Ao analisarmos as duas palavras, podemos entender que transferir conhecimento remete a uma ação muito mais unilateral, ao passo que compartilhar implica uma ação coletiva. Garvin (2000) faz a junção dos dois termos quando diz que as ideias geram impacto maior na medida em que são transferidas, assimiladas por outras pessoas, compartilhadas, e não quando enclausuradas nas mentes dos indivíduos. Para Stewart (1998), compartilhar e transmitir conhecimento – alavancá‑lo – exige ativos intelectuais estruturais, como sistemas de informação, laboratórios, inteligência competitiva e de mercado, conhecimento dos canais de mercado e foco gerencial, que transformam o know‑how individual em propriedade de um grupo. Retornando à espiral do conhecimento desenvolvida por Nonaka e Takeuchi (1997), o conhecimento tácito será compartilhado pela socialização da equipe. Esse conhecimento está ligado à experiência pessoal e, por isso, é difícil transferi‑lo. 132 Unidade IV Entre as formas de compartilhar o conhecimento tácito, podemos citar a troca de experiências, observações e imitações, a experimentação, a comparação e a execução conjunta. Quando as empresas falam em transferir e compartilhar conhecimento, logo pensam em tecnologia, mas a organização precisa estar atenta aos aspectos tácitos do conhecimento e ao fato de que as pessoas precisam estar motivadas para transferir e usar os conhecimentos provenientes de outros lugares. Portanto, as instituições necessitam fomentar o conhecimento tácito, criar processos de interação humana e trabalhar na construção de relacionamentos por meio de um contexto capacitante. Mas onde está o conhecimento nas organizações? Veja a figura 14. Políticas e diretrizes Grandes linhas de atuação da empresa Processos e procedimentos O que fazer e como fazer Tarefas e instruções de trabalho Como realizar uma tarefa Estratégia empresarial O que queremos hoje e onde queremos chegar Figura 14 – Conhecimento na organização O conhecimento na organização está tanto na definição de onde estamos como naquela de onde queremos chegar, desdobrado nas políticas e nas diretrizes, que resultam em processos e procedimentos e no passo a passo de como realizar uma tarefa. Processo de gestão do conhecimento A gestão do conhecimento é um processo focado na estratégia empresarial e envolve a gestão do capital intelectual, a gestão da inteligência competitiva, a gestão de competências, o sistema de educação corporativa e a aprendizagem organizacional. Na figura 15 a seguir, vemos cada um dos cinco componentes do processo de gestão do conhecimento. 133 GESTÃO DO CONHECIMENTO Gestão do capital intelectual Sistema de inteligência competitiva Sistema de aprendizagem organizacional Sistema de educação corporativa Gestão de competência Figura 15 – Processo de gestão do conhecimento 7.2 Gestão de competências Segundo Santos et al. (2001), competência é o elo entre conhecimento e estratégia: trata‑se da capacidade de gerar resultados observáveis. Ela está relacionada à prática, ou seja, a exercitar tudo aquilo que se sabe em um dado contexto. Está associada às realizações das pessoas, àquilo que elas produzem e/ou entregam. A competência não é um estado nem um conhecimento que se tem. Nem é resultado de treinamento. Há competência apenas quando existe competência de ação. Do ponto de vista empresarial, é a prática que interessa. Isto é, o conhecimento aplicado gera capacidade de produzir resultados, ou seja, competência. Conforme Fleury e Fleury (2000, p. 21), “cada indivíduo, cada equipe, cada área precisa ser competente de modo a agregar valor econômico para a organização e valor social para o indivíduo”. O indivíduo deve ser competente a fim de atender às expectativas da organização, e a organização tem de valorizar essa competência. Vejamos como funciona esse esquema na figura 16 a seguir. 134 Unidade IV Organização Agregar valor Indivíduo Conhecimentos Habilidades Atitudes Social Econômico Saber agir Saber mobilizar Saber transferir Saber aprender Saber se engajar Ter visão estratégica Assumir responsabilidades Figura 16 – Competências como fonte de valor para o indivíduo e para a organização Adaptada de: Fleury e Fleury (2001). Dentre as abordagens sobre competência apresentadas por Dutra (2002), destaca‑se a perspectiva defendida na década de 1990 por Le Boterf, Zarifian e Elliot Jacques. Esses autores conceituam competência como a aplicação prática do conhecimento em um dado contexto, frequentemente influenciado pelas dinâmicas do trabalho, cultura organizacional, imprevistos e limitações de recursos e tempo. Nessa visão, a competência se manifesta na ação, abrangendo o saber ser e a capacidade de mobilizar conhecimentos em diversas situações. A segunda está vinculada à feitura da gestão de competências, que é mapear os conhecimentos, habilidades e atitudes para operar processos, construir produtos, prestar serviços e manter relacionamentos que gerem resultados. 7.3 Educação continuada O aprendizado não convencional compreende mais do que o aprendizado convencional (treinamento em sala de aula), pois privilegia o conhecimento tácito. Trata‑se da educação continuada para que as pessoas permaneçam produtivas, em condições de acompanhar as mudanças e otimizandoseu tempo. O foco do treinamento passa a ser on the job, vivencial, de experimentação, de compartilhamento de experiências, de apresentação de melhores práticas, de discussão e de solução de problemas. O foco sai do treinamento do empregado isoladamente para o desenvolvimento da capacidade de aprender da organização. 135 GESTÃO DO CONHECIMENTO Veja, no quadro a seguir, um paralelo entre o treinamento e a educação corporativa. Quadro 31 – Paralelo entre o treinamento e a educação corporativa Treinamento Educação corporativa Foco: reativo Foco: preventivo Alcance: tático, localizado Alcance: estratégico, sistêmico Apresentação: instrutor Apresentação: mediador Metodologia: aula Metodologia: troca de experiências Responsável: chefia de treinamento Responsável: lideranças das áreas Público: operadores do processo local Público: participantes de um processo organizacional Resultado: aumento da qualificação Resultado: agregação de valor 7.3.1 Gestão de aprendizagem organizacional A aprendizagem organizacional vem sendo apontada como uma maneira de enfrentamento das mudanças pelas quais as organizações estão passando e irão passar. Para Senge (1990), a aprendizagem organizacional envolve errar, avaliar riscos, tolerar o fracasso e corrigir o rumo até alcançar os objetivos. É a capacidade das instituições em criar, adquirir e transferir conhecimentos e em modificar seus comportamentos para refletir os novos conhecimentos e insights. Desta forma, os trabalhadores contribuem para o desempenho da empresa aplicando seus conhecimentos e suas habilidades e procurando resolver os problemas inovando constantemente. Cria‑se a organização que aprende e que gera conhecimento. De acordo com Senge (1999, p. 32), [...] nas organizações que aprendem, as pessoas expandem continuamente sua capacidade de criar os resultados que elas realmente desejam, onde maneiras novas e expansivas de pensar são encorajadas, onde a aspiração coletiva é livre e onde as pessoas estão constantemente aprendendo a aprender coletivamente. O autor popularizou as organizações que aprendem em seu livro The fifth discipline e sugeriu o uso de cinco “tecnologias componentes”, que são as explicadas a seguir: • Pensamento sistêmico: é ter a visão do todo, do inter‑relacionamento dos processos, do impacto de um processo em outro, no meio (clientes, fornecedores, sociedade etc.) e na capacidade de agregar valor. • Domínio pessoal: relativo à determinação e à capacidade de concentrar forças, se aprofundar, buscar, criar, analisar, entender e produzir os resultados desejados. 136 Unidade IV • Modelos mentais: são os paradigmas de como enxergamos o mundo, as coisas, os processos e as pessoas. A capacidade de trazer à tona esses modelos, esclarecer as premissas por trás deles e testar suas validades para então aperfeiçoá‑los é uma das chaves do aprendizado. Trata‑se de ter uma metodologia de análise e de solução de problemas. • Visão compartilhada: é o modelo mental estabelecido por um grupo de pessoas. Ele gera foco e energia para a busca de um objetivo e de resultados comuns. • Aprendizagem em equipe: é a capacidade de entrar em consenso, alinhar objetivos comuns e criar uma estratégia para obter os resultados definidos pela equipe. Trata‑se da sinergia de objetivos e resultados. De acordo com Garvin (2001, p. 52), os acadêmicos fazem análises sobre organizações que aprendem de uma forma “reverencial e utópica, cheia de terminologia quase mística”. Ele acredita que esses conceitos sejam desejáveis, mas questiona quanto a oferecer algum referencial para a ação, considerando as recomendações abstratas e com muitas questões sem respostas. A sua posição a respeito passa a ser: “a organização que aprende é a que dispõe de habilidades para criar, adquirir e transferir conhecimentos, e é capaz de modificar seu comportamento, de modo a refletir os novos conhecimentos e ideias”. O autor defende que os gerentes somente disporão de bases mais firmes para o desenvolvimento de uma organização que aprende se abordarem três temas críticos e essenciais para a implementação desses conceitos, mostrados a seguir: • Significado (meaning): definição do que é realmente uma organização que aprende. • Gestão (management): refere‑se a aspectos práticos e envolve recomendações operacionais em vez de grandes aspirações. • Mensuração (measurement): necessidade de melhores ferramentas para avaliar a velocidade e os níveis de aprendizado da organização. Além desses, diversos autores tratam sobre o tema. Percebe‑se que existem algumas divergências: uns acreditam em mudanças comportamentais; outros, em desenvolvimento de novas formas de pensamento. Alguns entendem que a efetivação do aprendizado se dá pelo processamento de informações, e outros propõem o compartilhamento de insights. No entanto, quase todos o veem como um processo que se desdobra no tempo e está vinculado à aquisição de conhecimento. Portanto, o sistema de aprendizagem organizacional é o tema central da gestão do conhecimento e envolve: • aproveitar o conhecimento que já existe para que as pessoas procurem, encontrem e apliquem as melhores práticas; • registrar, disponibilizar e disseminar as melhores práticas; 137 GESTÃO DO CONHECIMENTO • manter um sistema de informações de mercado, clientes, concorrentes, fornecedores, parceiros e empregados e incluir eventos econômicos, reguladores, políticos e sociais que tenham impacto no negócio. Desse modo, o processo de gestão do conhecimento tem as funções ilustradas na figura 17. Criar e capturar Organizar/codificar Disseminar AvaliarMensurar Apren diza gem organiza cio nal Capital intelectual Gestão de competências Educação corporativa Inteligência empresarial Práticas de GC Figura 17 – Funções da gestão do conhecimento Adaptada de: Pereira (2004). Até então, vimos que a gestão do conhecimento implica práticas gerenciais compatíveis sobre os processos de identificação, criação, disseminação, compartilhamento e aprendizagem individual e organizacional. Consequentemente, a coordenação é vista nas várias perspectivas: organizacional e individual, estratégica e operacional. 7.3.2 Organizações do conhecimento Segundo Von Krogh, Nonaka e Ichijo (2001), muitas organizações desenvolveram técnicas de gerenciamento, como qualidade total e reengenharia, mas isso não as tornou mais lucrativas. Eles acreditam que o fato de o conhecimento ser dinâmico, valioso e, em parte, tácito o torna recurso exclusivo de uma empresa, dificilmente imitado por seus concorrentes. Embora os autores considerem que as empresas têm vários motivos para desenvolverem programas de conhecimento, classificam‑nas em três categorias amplas: minimizadoras de risco, prospectoras de eficiência e inovadoras. 138 Unidade IV Obviamente, as inovadoras são as que chegaram mais longe na trajetória do conhecimento, conforme ilustrado na figura 18. Fo co n o pr oc es so Inovadoras Prospectoras de eficiência Minimizadoras de risco Foco no conhecimento existente Foco no novo conhecimento 1. Capturando e localiza ndo 2. Tr ansfer indo e comparti lhando 3. Capacit ando Fo co n o co nh ec im en to Figura 18 – Organização do conhecimento Adaptada de: Von Krogh, Nonaka e Ichijo (2001). As empresas começam como minimizadoras de risco, ou seja, com tentativas de localizar e captar os conhecimentos existentes e que são valiosos para a execução de várias tarefas operacionais. Nesse sentido, são disponibilizadas várias ferramentas para a captação de conhecimento, tais como: data warehouse, auditorias de conhecimento e sistemas baseados em regras (rule‑based systems) que captam o conhecimento de especialistas. Em seguida, as organizações passam a ser prospectoras de eficiência. Seu principal objetivo é transferir experiências e melhores práticas em toda a organização, como meio de alcançar algumas vantagens de custo, evitando‑se redundâncias na criação do conhecimento. Aúltima fase ocorre quando as companhias não mais se contentam com o conhecimento existente e proporcionam condições para que novos sejam criados, possibilitando, assim, inovações. São as empresas inovadoras. Para Von Krogh, Nonaka e Ichijo (2001), nas organizações do conhecimento, o papel da gerência é fundamental no que se refere ao desenvolvimento de novos valores competitivos, no processo de catalisar e coordenar a criação de conhecimento, ao gerenciamento de vários contextos, ao desenvolvimento de uma forte cultura de conversas (discussões, incentivo a manifestações de opiniões) e à globalização do conhecimento local. Embora sejam enfáticos na importância do gerente como ativista do conhecimento, consideram que o conhecimento é parte integrante da maioria dos ambientes de trabalho em qualquer organização e, portanto, usado por todos, não cabendo a figura de um guru ou de um especialista do conhecimento. 139 GESTÃO DO CONHECIMENTO Sveiby (apud Terra, 2001) apresenta, no quadro a seguir, os princípios das organizações baseadas no conhecimento. Quadro 32 – Paradigmas da Era do Conhecimento Item Paradigmas da Era do Conhecimento Pessoas Geradores de receitas Fonte de poder Nível de conhecimento Luta de poder Trabalhadores do conhecimento versus gerentes Principal responsabilidade da gerência Apoiar os colegas Informação Ferramenta para comunicação, recurso Produção Trabalhadores do conhecimento convertendo conhecimento em estruturas intangíveis Fluxo de informação Mediante redes colegiadas Gargalos da produção Tempo e conhecimento Efeito do tamanho Economia de escopo das redes Relação com os clientes Interativa através de redes pessoais Conhecimento O foco do negócio Propósito do aprendizado Criação de novos ativos Valores de mercado (ações) Decorrentes em grande parte dos ativos intangíveis Economia Baseada em retornos crescentes e decrescentes Adaptado de: Sveiby (apud Terra, 2001). Para Terra (2001), as organizações do conhecimento têm administração com poucos níveis hierárquicos e aplicam, para a solução de seus problemas, o trabalho interfuncional e de equipe, permitindo o fluxo do conhecimento no ambiente organizacional e facilitando sua transferência, sua assimilação e sua utilização. O autor acredita que essas organizações devem ter a capacidade de utilizar e combinar as várias fontes e os vários tipos de conhecimento para desenvolverem competências específicas e capacidade inovadora, que se traduzem permanentemente em novos produtos, processos e sistemas gerenciais e liderança de mercado. Segundo Serafim Filho (1999), nas organizações do conhecimento, cada vez mais os contratos de trabalho serão psicológicos. Organizações e pessoas estarão mais envolvidas na identificação das expectativas dos outros. Reter talentos dependerá fundamentalmente disso. Ele acrescenta que os sistemas de autoridade com ênfase no controle e na coerção estarão definitivamente sepultados. Também as normas e os valores da empresa serão decisivos para definir quem irá (poder/querer) trabalhar para ela. Ao considerar todos os aspectos relatados até agora e as características de uma organização do conhecimento, o sucesso de tais instituições estará na sua capacidade intelectual e sistêmica, o que consequentemente exigirá um novo perfil de trabalhador. Isso será tratado no próximo tópico. 140 Unidade IV Saiba mais Para observar aspectos de como as organizações aprendem, leia a indicação a seguir: BUAINAIN, A. O que é aprendizagem organizacional: conceito, como aplicar e ganhos. Gupy, 22 set. 2021. Disponível em: https://tinyurl.com/yajywawd. Acesso em: 24 abr. 2025. 7.3.3 Características dos trabalhadores em uma organização do conhecimento Drucker (1999, p. 108) afirma que “na sociedade do conhecimento, a premissa mais provavelmente correta para as empresas é a de que elas precisam dos trabalhadores do conhecimento muito mais do que os trabalhadores do conhecimento precisam delas”. Dreyfuss (1996, p. 58) sintetiza o perfil dos novos profissionais e do emprego como: [...] “Talentos livres”, munidos de seus instrumentos de trabalho (conhecimento, experiência e computador), formados em centros acadêmicos de excelência mundial – que estão passando por reengenharia de curriculum, se tornam a espinha dorsal do novo formato de emprego nas corporações que enfrentam no mercado global. Segundo Araújo (2002), a nova organização necessita de um novo perfil de trabalhador, seja ele líder ou liderado, com novas competências e habilidades. Entre elas, destacam‑se as elencadas a seguir: • Habilidade humana: é a capacidade de trabalhar com outras pessoas, de entendê‑las e motivá‑las, como indivíduos ou membros de grupos. • Habilidade conceitual: é a habilidade de considerar a empresa como um todo, de coordenar e integrar todos os interesses e atividades de uma organização, compreendendo que suas partes dependem umas das outras e prevendo que qualquer mudança afetará o todo. • Habilidade técnica: é a capacidade de usar procedimentos, técnicas e conhecimentos de um campo de especialização. É o conhecimento especializado. Para a autora, o perfil generalista é a proposta que melhor se adapta ao contexto de transformação da organização do trabalho que estamos vivenciando, visto que o generalista compreende não apenas o como fazer, mas o porquê fazer, aprendendo as implicações do seu trabalho para toda a empresa. Ela acrescenta que, além dessas habilidades, os gerentes devem desenvolver as competências listadas a seguir, que lhes permitem praticar com sucesso a sua função e consolidar o seu perfil generalista: 141 GESTÃO DO CONHECIMENTO • Competências intelectuais: trata‑se de produzir, transferir e generalizar conhecimentos. • Competências organizacionais ou metódicas: trata‑se de autoplanejamento, auto‑organização. • Competências comunicativas: trata‑se de expressão e de comunicação com os outros elementos humanos da organização. • Competências sociais: trata‑se de transferir os conhecimentos da vida cotidiana para o ambiente de trabalho e vice‑versa. • Competências comportamentais: trata‑se de iniciativa, criatividade, vontade de aprender e abertura à mudança, entre outras. • Competências políticas: trata‑se de compreender sua posição e sua função na estrutura produtiva. Para Serafim Filho (1999), o trabalhador do conhecimento é, essencialmente, a fonte básica da formação do conhecimento na organização do conhecimento. Com sua inteligência e seu talento e com a tecnologia da informação a seu dispor, esse profissional, no seu dia a dia, analisa dados e informações, comunica‑se intensivamente com os demais componentes de sua equipe, tem conhecimentos globais do negócio e possui especialização em sua área de atuação. Veja, no quadro a seguir, um paralelo entre as características do trabalhador tradicional e do trabalhador do conhecimento. Quadro 33 – Paralelo entre características do trabalhador tradicional e do trabalhador do conhecimento Características Tradicional Do conhecimento Principal tarefa Fazer Pensar Principais habilidades Físicas Mentais Processo de trabalho Linear Não linear Resultado do trabalho Produto Informação Conhecimento utilizado Aplicado Criado O trabalhador do conhecimento se autogerencia, busca inovação e agrega valor em termos de qualidade à organização. Ela, por sua vez, precisa desenvolver uma cultura de inovação, reconhecendo que o grupo responsável precisa ser inspirado, protegido e provido com autonomia e com recursos. Se o trabalhador não estiver preparado para as novas exigências, ele estará fora do contingente dos colaboradores do conhecimento e teremos o desemprego funcional. 142 Unidade IV 8 DESENVOLVIMENTO DE TALENTOS: APRENDIZ, ESTAGIÁRIO, TRAINEE, CHEFE‑EXECUTIVO DE ESCRITÓRIO (CEO) Desenvolver pessoas é uma arte, e os programas de aprendiz, estágio e trainee são considerados cruciais em quaisquer organizações. Geralmente, esses programas são bem estruturados, com muitosno desenvolvimento da carreira dos colaboradores tem sofrido mudanças muito relevantes nos últimos tempos. O gestor sai do paternalismo, em que a empresa era totalmente responsável por administrar a carreira de seus colaboradores, e passa somente a apoiá‑los. Durante parte do século XX, as empresas fizeram questão de recrutar candidatos jovens com a intenção de que eles passassem toda sua vida profissional na mesma organização. Para aqueles que tinham boa formação acadêmica e motivação, eram criados, pelas empresas, programas de carreira em que, a cada responsabilidade absorvida pelo colaborador, este galgava mais um patamar na sua ascensão funcional. De um lado, estavam as empresas, que ofereciam os meios para o crescimento profissional de seus colaboradores, proporcionando‑lhes oportunidades, cursos e capacitações. Do outro lado, estavam os colaboradores, demonstrando merecer o que era oferecido pelos patrões em troca de sua lealdade e bons trabalhos. Atualmente, muitas empresas têm rejeitado esse tipo de planejamento dirigido de carreiras, preferindo substituí‑lo por carreiras autodirigidas, nas quais o colaborador tem responsabilidade total por seu crescimento profissional, cabendo à empresa apenas apoiá‑lo em sua busca por melhorias. Por isso, hoje, os colaboradores estão muito mais interessados em manter suas capacidades e seus conhecimentos sempre atualizados, pois sabem que somente assim poderão estar preparados para as novas exigências do mercado. Eles começaram a sentir que o processo de aprendizagem é algo contínuo e incessante, assim como o crescimento de uma carreira autodirigida. Por isso, tendem a utilizar as horas livres de trabalho para realizar cursos e capacitações, assistir a seminários etc. Histórico do treinamento nas organizações Por muito tempo, pensou‑se no treinamento organizacional como o simples ato de “adestrar” os colaboradores para que desempenhassem suas funções na empresa. O colaborador recebia a “receita” de como deveria trabalhar e, durante todo o tempo em que estivesse naquela função, apenas repetiria o que lhe fora passado, sem retirar nem acrescentar. Após o treinamento, o colaborador transformava‑se num mero repetidor de tarefas, dispensando, assim, o uso de suas habilidades intelectuais ou mentais. Com a evolução dos estudos organizacionais, aliados à forte atuação do setor de recursos humanos nas organizações, a ideia de treinamento de funcionários sofre considerável mudança, evoluindo para uma ferramenta que possibilita ao colaborador desenvolver suas habilidades técnicas e intelectuais, bem como assumir a responsabilidade pelos resultados que lhe cabem na organização. 14 Unidade I Como é o treinamento nos dias de hoje? Quais são, atualmente, as responsabilidades das empresas em relação às carreiras de seus colaboradores? A maioria das organizações está apostando em programas de desenvolvimento progressivo de carreiras, cuja base está em apoiar os colaboradores no crescimento contínuo de suas capacidades e conhecimentos. Esse apoio inclui: • comunicar de forma clara aos colaboradores quais as metas e as estratégias futuras da organização; • criar oportunidades de crescimento, como a possibilidade do colaborador em assumir novas e mais importantes funções; • oferecer assistência financeira, como o pagamento integral ou parcial de cursos de capacitações e de mensalidades de faculdades, entre outros; • oferecer tempo de aprendizagem para os colaboradores. Dessa forma, é possível que os objetivos organizacionais e os objetivos individuais sejam alcançados simultaneamente. O treinamento, quando aplicado no âmbito organizacional, deve prioritariamente tentar possibilitar aos colaboradores o alcance de novas habilidades, diferentes conhecimentos e mudanças positivas nas suas atitudes, tudo em prol de um desenvolvimento próprio. As empresas já se deram conta de que investir em treinamento representa uma grande redução em seus custos, pois colaboradores bem‑preparados estarão habilitados para o perfeito manuseio de seus equipamentos de trabalho, evitando desperdícios, bem como acidentes de trabalho. O colaborador precisa enxergar o treinamento como uma oportunidade de crescimento próprio. Mesmo que receba da organização um treinamento específico para o desenvolvimento de determinada tarefa, toda e qualquer aprendizagem que receber ficará consigo e fará parte de sua bagagem intelectual. O que se aprende, se leva. Pensando dessa forma, ou seja, percebendo o treinamento como uma forma de atualização, o próprio colaborador irá considerar o treinamento, bem como todo o conhecimento por ele proporcionado, como uma forma de autodesenvolvimento. Saiba mais Assista ao filme Divergente. Diante de um cenário futurístico, podemos observar aspectos, como autoconhecimento, plano de carreira e perfis comportamentais. DIVERGENTE. Direção: Neil Burger. EUA: Summit Entertainment; Red Wagon Entertainment, 2014. 140 min. 15 GESTÃO DO CONHECIMENTO 1.1 Administração de recursos humanos (ARH) Administrar é uma palavra que vem do latim, composta de ad, que significa tendência para a direção, e minister, que significa subordinação ou obediência, ou aquele que realiza uma função sob o comando de outrem, isto é, aquele que cumpre uma obrigação de trabalho a outro. São várias as definições de administração. Há quem a julgue uma ciência e quem a defina como arte. Veja, no quadro a seguir, algumas definições de administrar. Quadro 1 – Algumas definições de administrar Origem do conceito Definição de administrar Dicionário Michaelis (2025) Exercer o comando de; administrar, gerir; tomar determinada direção; elaborar planos e coordenar sua realização Teorias da administração Governar organizações total ou parcialmente Processo de planejar, organizar, dirigir e controlar a aplicação dos recursos organizacionais Alcançar os objetivos organizacionais de forma eficiente e eficaz, ou seja, de maneira efetiva Interpretar os objetivos propostos pela organização e transformá‑los em ação organizacional por meio do processo administrativo Geral Trabalho com e por intermédio de outras pessoas para realizar os objetivos da organização Assim, a administração consiste em tomar decisões alinhadas aos objetivos estratégicos, táticos e operacionais da empresa, elaborar estratégias de curto, médio e longo prazos e criar sinergia entre as partes organizacionais, visando atingir os propósitos da organização. As estratégias envolvem a alocação dos recursos necessários (humanos, materiais e tecnológicos) de forma eficaz e eficiente para o alcance dos objetivos propostos. 1.1.1 A organização e as pessoas A organização da empresa é definida como o agrupamento de funções e recursos necessários para alcançar os objetivos e os resultados estabelecidos. Organizar consiste numa atividade administrativa voltada para a obtenção da otimização dos recursos humanos (RH), dos recursos materiais (RM) e dos recursos tecnológicos (RT), utilizando‑se técnicas científicas que envolvem aspectos comportamentais e instrumentais e os ambientes interno e externo da entidade. A estrutura organizacional é o conjunto ordenado de responsabilidades, autoridades, comunicações e decisões das divisões da organização. A palavra organização tem sido empregada como sinônimo de arranjo, sequenciamento e eficiência, porém, nessa tratativa, não deve ser compreendida apenas pela visão estrutural e seus cargos, definidos pelos respectivos títulos, mas também por atribuições básicas, responsabilidades, relações formais, níveis de autoridade e aspectos culturais. Segundo Daft (2002), “as organizações são entidades sociais [...] dirigidas por metas, são desenhadas como sistemas de atividades deliberadamente estruturados e coordenados e são ligados ao ambiente externo”. 16 Unidade I Ainda de acordo com Daft (2002), a importância das organizações consiste em: • aportar recursos para alcançar metas e resultados desejados; • gerar bens e serviços comcandidatos inscritos, e suas fases são criadas conforme a necessidade de cada empresa. São excelentes formas de buscar talentos para a organização, oxigenando áreas e concepções de pensamento. As diferenças entre o aprendiz, o estagiário e o trainee estão apresentadas a seguir: • Aprendiz: de acordo com a CLT, alterada pela Lei n. 10.097 (Brasil, 2000), aprendiz é o trabalhador entre 14 e 24 anos que tem um contrato de aprendizagem em uma empresa com o objetivo de ganhar experiência e conhecimentos para o mercado de trabalho. • Estagiário: necessariamente, o profissional precisa ser um estudante, isto é, vinculado a uma universidade. A legislação não é a mesma da CLT, seguindo regras específicas de horário de trabalho, de remuneração e de descanso. • Trainee: é um profissional contratado como CLT, comumente formado há dois anos. Seu diferencial é participar de um programa de formação de liderança para que, no período determinado (em torno de um ano e meio a dois anos), tenha a oportunidade de assumir uma posição de liderança. Observação A leitura da legislação do aprendiz e estagiário é essencial para garantir os direitos e deveres de ambas as partes, evitando assim irregularidades e promovendo um ambiente de trabalho justo e educativo. Compreender as normas legais assegura a correta aplicação das leis trabalhistas e o desenvolvimento profissional adequado dos jovens. Além disso, o conhecimento da legislação contribui para a segurança jurídica das empresas e para a formação de futuros profissionais conscientes de seus direitos. Ao mesmo tempo, há o desenvolvimento dos demais profissionais, de acordo com a necessidade da empresa e da pessoa. Geralmente, para cargos mais elevados, como CEO, temos, na organização, ações pontuais, como coaching e mentoring. Veja, a seguir, as diferenças entre esses termos: • Coaching: ferramenta que visa espelhar o desejo do profissional, com ações e metas estabelecidas no curto, no médio ou no longo prazo. Trata‑se de um recurso eficaz que ajuda executivos (CEO) na busca dos resultados. 143 GESTÃO DO CONHECIMENTO • Mentoring: essa ação é um aconselhamento de um profissional, geralmente mais experiente, sobre as melhores atitudes na empresa. 8.1 Desenvolvimento organizacional: conceito e objetivos A Teoria do DO surgiu em 1962, decorrente das ideias de vários autores a respeito do ser humano, da organização e do ambiente em que cresce e se desenvolve. Assim, esse conceito está intimamente ligado ao pensamento de mudança e de capacidade adaptativa a ela. Os autores do desenvolvimento organizacional adotam uma posição antagônica ao conceito tradicional da organização, salientando as diferenças fundamentais existentes entre os sistemas mecânicos (típicos do conceito tradicional) e os sistemas orgânicos (abordagem do desenvolvimento organizacional). Os sistemas orgânicos tornam as organizações coletivamente conscientes dos seus destinos e da orientação necessária para melhor se dirigir a eles. Desenvolvem nova conscientização social dos participantes das organizações, os quais, contando com a vivência particular, o passado pessoal e sua autoconscientização, definem o papel deles em relação à sua organização. Além disso, os autores do desenvolvimento organizacional consideram que mudar a estrutura institucional não é suficiente para modificar uma organização. A única maneira viável de fazer isso é mudar sua cultura, isto é, os sistemas em que as pessoas vivem e trabalham. Para que as organizações possam sobreviver e se desenvolver, para que exista a renovação e a revitalização, devem mudar sua cultura. Segundo um dos seus idealizadores, Warren Bennis (1969 apud Boog, 1999, p. 121): [...] o desenvolvimento organizacional é uma ação planejada que envolve toda a organização, conduzida do topo, que tem a finalidade de aumentar a eficiência e a solidez da organização mediante intervenções planejadas sobre processos dela mesma [...]; uma estratégia de base complexa que se propõe como fim à mudança das convicções, das atitudes, dos valores, das estruturas organizacionais, para que possam adaptar‑se melhor às novas tecnologias, aos novos mercados, aos novos desafios e à velocidade vertiginosa das próprias mudanças. Os princípios do DO são os apresentados a seguir: • nova concepção do homem, baseada em um conhecimento ampliado das suas complexas e mutáveis necessidades, o que substitui a ideia simplificada e ingênua do ser humano como alguém que apenas “aperta o botão”; • novo conceito de poder pautado na colaboração e na razão, o que substitui o modelo de poder baseado na coação e na ameaça; • novo conceito de valores organizacionais, apoiado em ideais “humanístico‑democráticas”, o que substitui o sistema de valores despersonalizados e mecânicos da burocracia. 144 Unidade IV Veja, no quadro a seguir, algumas características do DO. Quadro 34 – Teoria do Desenvolvimento Organizacional: características Novos conceitos Resultados esperados Trabalho em equipe Aplicação dos conceitos de aprendizagem Horizontalização ou process management Transformação do “saber” em ação Categorias e estratégias de negócios Adequação à missão, sua cultura e seus valores Processos e cadeias integradas na operação Atuação constante de forma processual e antropológica Diversidade, pensamento amplo e complexo Competência e reputação Atuação sem fronteiras internas e externas Resultados claros, visíveis Avaliação pelo que sabe e faz Marras (2016, p. 301) acentua: O desenvolvimento organizacional desempenha importante missão na área da gestão estratégica de pessoas: diz respeito às responsabilidades de planejar e acompanhar o crescimento organizacional, no seu todo, ao longo do tempo, garantindo que os objetivos estrategicamente traçados mantenham‑se no rumo. 8.2 Pressupostos e processos do desenvolvimento organizacional Comportamentalmente, segundo Chiavenato (2004), a organização é a coordenação de diferentes atividades de contribuintes individuais com a meta de efetuar transações planejadas com o ambiente. O autor considera a noção de divisão do trabalho ao se referir às diferentes atividades e à coordenação existente na empresa e às pessoas como contribuintes das organizações, em vez de estarem elas próprias, as pessoas, totalmente nas organizações. As contribuições de cada um variam em função não somente das diferenças individuais, mas também do sistema de recompensas e de contribuições oferecidos pela organização. A empresa não está flutuando no “espaço sideral”, mas sim inserida em um contexto empresarial, denominado ambiente externo. A sua sobrevivência depende da maneira como ela se relaciona com esse meio. A organização deve ser estruturada e dinamizada em função das condições e das circunstâncias que caracterizam seu meio. No desenvolvimento organizacional, adota‑se uma posição antagônica ao conceito tradicional da companhia, em que ponderamos as diferenças fundamentais existentes entre os sistemas mecânicos (típicos do conceito tradicional) e os sistemas orgânicos (abordagem do desenvolvimento organizacional). Os sistemas orgânicos tornam as organizações coletivamente conscientes de seus destinos e da orientação necessária para melhor se dirigir a eles, além de desenvolverem nova conscientização social 145 GESTÃO DO CONHECIMENTO dos participantes das corporações, os quais, contando com sua vivência particular, seu passado pessoal e sua autoconscientização, definem o papel deles em relação à sua organização. Veja, no quadro a seguir, diferenças entre sistemas mecânicos e sistemas orgânicos. Quadro 35 – Diferenças entre sistemas mecânicos e sistemas orgânicos Sistemas mecânicos Sistemas orgânicos Ênfase exclusivamente individual e nos cargos da organização Ênfase nos relacionamentos entre e dentro dos grupos Relacionamento do tipo autoridade‑obediência Confiança e crença recíprocas Rígida adesão à delegação e à responsabilidade dividida Interdependência e responsabilidade compartilhadaRígidas divisão do trabalho e supervisão hierárquica Participação e responsabilidade multigrupal Tomada de decisões centralizada Tomada de decisões descentralizada Controle rigidamente centralizado Amplo compartilhamento de responsabilidade e de controle Solução de conflitos por meio de repressão, arbitragem e/ou hostilidade Solução de conflitos por meio de negociação ou de solução de problemas Adaptado de: Chiavenato (1999). Lembrete Coordenar significa criar sinergia entre os componentes de uma atividade ou organização, direcionando todos os esforços e a aplicação de recursos para a obtenção de resultados coletivos e a consecução dos objetivos organizacionais. 8.2.1 Conceito de cultura organizacional Chamamos de cultura organizacional o conjunto de valores e de pressupostos que determinam o seu modo de vida, que é desenvolvido de formas diferentes pelos seus participantes. A cultura organizacional repousa sobre um sistema de crenças e valores, tradições e hábitos. Trata‑se de uma forma aceita e estável de interações e de relacionamentos sociais típicos de cada organização. De acordo com Johann (2017, p. 144), “a cultura é formada pelo contexto comum em que os indivíduos de uma sociedade vivem as suas vidas. A cultura reveste‑se de aspectos compartilhados pelos membros da sociedade, que tornam possíveis a cooperação e a comunicação”. A cultura pode parecer estática devido ao período de prevalência de determinados valores e crenças, mas ela pode sofrer alterações ao longo do tempo, dependendo de condições internas ou externas, que, ao mudarem, causam pressões por transformações que concretizarão ao longo do tempo. 146 Unidade IV Embora algumas organizações consigam renovar constantemente sua cultura, mantendo sua integridade e sua personalidade, a grande maioria permanece longos períodos com sua cultura amarrada a padrões antigos e ultrapassados. Devemos considerar que mudar a estrutura organizacional não é suficiente para modificar efetivamente uma organização. A única maneira viável de mudar uma empresa é modificar sua cultura, isto é, os sistemas segundo os quais as pessoas vivem e trabalham. O clima organizacional, fator muito valorizado no desenvolvimento organizacional, constitui o meio interno de uma organização, a atmosfera psicológica característica em cada corporação, a forma como é percebida pelos seus participantes. Ele expressa o moral e a satisfação das necessidades humanas dos participantes e pode ser saudável ou doentio, quente ou frio, negativo ou positivo, satisfatório ou insatisfatório; tudo vai depender de como os participantes se sentem e percebem o que acontece na instituição. A conceituação de clima organizacional não é simples, pois o clima é percebido de forma diferente por cada indivíduo. Uns são mais sensíveis, outros mais resistentes e insensíveis aos mesmos aspectos vivenciados. A percepção das pessoas varia muito: uma característica que parece ser positiva para uma pessoa pode ser negativa para outra em igual situação e na mesma época. O clima organizacional acaba caracterizando a instituição pelos aspectos percebidos pelo grupo, em determinado período de análise, como influenciadores importantes do comportamento das pessoas que lá atuem. Observação O conceito de clima organizacional envolve diferentes graus estruturais e sociais. Os fatores estruturais consistem em tecnologia utilizada, políticas da companhia, metas operacionais e regulamentos internos. Já os fatores sociais baseiam‑se em atitudes e formas de comportamento social (encorajadas ou sancionadas). Assim, o clima resulta de um completo envolvimento de componentes relacionados com aspectos formais (sistemas de controle, procedimentos de trabalho, regras e normas) e aspectos informais (relações interpessoais) existentes na organização. O conjunto de variáveis resultante da organização deve ser sistematicamente analisado e aperfeiçoado, visando à manutenção da motivação e da produtividade das pessoas. A mudança da cultura e, consequentemente, do clima organizacional depende de uma capacidade inovadora, a ser desenvolvida pela corporação. 147 GESTÃO DO CONHECIMENTO Veja, no quadro a seguir, os capacitadores para a mudança organizacional. Quadro 36 – Capacitadores para a mudança organizacional Adaptabilidade Capacidade de resolver problemas Reagir de maneira flexível às exigências mutáveis e inconstantes do meio ambiente Ser adaptável: ser flexível, para poder adaptar e integrar novas atividades; e ser receptivo e transparente a novas ideias, sejam elas intra, sejam elas extraorganizacionais Senso de identidade Conhecimento e compreensão do passado e do presente da organização Compreensão e compartilhamento dos objetivos da organização por todos os seus participantes Não alienação do empregado, mas sim comprometimento de todos os participantes Perspectiva exata do meio ambiente Percepção realista Capacidade de investigar, diagnosticar e compreender o meio ambiente Integração entre os participantes De forma que a organização possa se comportar como um todo orgânico 8.2.2 Conceito de desenvolvimento O crescimento de uma organização é quantitativo e está relacionado com a elevação do volume de produção e de vendas e do aumento da quantidade de plantas fabris, máquinas, equipamentos e efetivo de pessoal. O desenvolvimento, por sua vez, não considera somente os aspectos quantitativos, mas também os qualitativos, e envolve a avaliação da tecnologia avançada incorporada aos meios produtivos e o aumento de produtividade obtido com o aperfeiçoamento dos processos e dos métodos produtivos. O desenvolvimento avalia o aprimoramento das habilidades humanas e técnicas do pessoal da organização, obtido com o passar do tempo. Fatores internos e externos influenciam e exigem que se cumpra a tendência de desenvolvimento das organizações. Mudanças estruturais e comportamentais, conforme vimos, geram um processo, muitas vezes, lento e gradativo que conduz ao exato conhecimento da própria organização e à plena realização das suas potencialidades. Assim, o desenvolvimento organizacional promove: • conhecimento profundo e realístico da própria empresa e das suas possibilidades; • conhecimento profundo e realístico do meio em que a empresa opera; • planejamento adequado e realização bem‑sucedida de relações da empresa com o meio e com os seus participantes; • estrutura interna suficientemente flexível, com condições para a empresa se adaptar em tempo às mudanças que ocorrem, tanto no meio com que se relaciona como entre os seus participantes; • meios suficientes de informação do resultado dessas mudanças e da adequação da resposta adaptativa da empresa. 148 Unidade IV Veja, no quadro a seguir, algumas estratégias de mudanças organizacionais. Quadro 37 – Estratégias de mudanças organizacionais Tipo de mudança Características Mudança evolucionária A mudança de uma ação para outra que a substitui é pequena e está dentro dos limites das expectativas e dos arranjos do status quo Lenta, suave e não transgride as expectativas daqueles que nela estão envolvidos ou são por ela afetados Tendência de repetição e de reforço das soluções que se mostram sólidas e eficientes Não provoca grande entusiasmo nem forte resistência Mudança revolucionária A mudança de uma ação para a ação que a substitui contradiz ou destrói os arranjos do status quo Rápida, intensa e brutal, transgride e rejeita as antigas expectativas e introduz expectativas novas Súbita e causadora de grande impacto e resistências Desenvolvimento sistemático Diferente de ambos os tipos de mudanças anteriores Os responsáveis pela mudança delineiam modelos explícitos do que a organização deveria ser em comparação com o que é Os afetados pelo desenvolvimento sistemático estudam, avaliam e criticam o modelo de mudança, recomendam alterações e baseiam‑se em seu próprio discernimento e em sua própria compreensão Dimensões adicionais de comportamento e de experiência humanossão trazidas para a dinâmica da mudança As tensões intelectuais e emocionais criadas entre todos os responsáveis pelo planejamento e implementação estimulam as mudanças As mudanças resultantes traduzem‑se por apoio, e não por resistências nem por ressentimento 8.3 Mudança organizacional A partir da década de 1960, com o advento do modelo japonês de gestão, um modelo mais flexível, rápido e competitivo, o mundo passou a ser um ambiente em constantes mudanças. O ambiente atual é extremamente dinâmico e exige elevadas flexibilidade e capacidade de adaptação como condições básicas de sobrevivência. Esse ambiente é impactado pelos novos conhecimentos, pelas novas tecnologias da informação e da comunicação, por mudanças na economia etc. Essa dinâmica exige uma nova formatação da administração e dos gestores e modifica os relacionamentos. Diferentemente de tudo o que aconteceu no passado, o ambiente empresarial, devido à internacionalização de recursos e dos mercados, ao ciclo menor de vida dos produtos, à crescente importância do marketing de rede, às participações múltiplas dos indivíduos em diferentes grupos e organizações e à natureza mutável do trabalho, produz uma série de exigências novas para os gestores. Em geral, apenas esforços isolados e lentos mostraram‑se insuficientes para fazer frente aos novos desafios organizacionais. Assim, surgiram necessidades de estratégias coordenadas e de mais longo prazo com o objetivo de desenvolver medidas suficientes para mudar sistematicamente as organizações. 149 GESTÃO DO CONHECIMENTO São elas: clima organizacional; maneiras de trabalhar; relações e sistemas de comunicações; sistemas de informações congruentes; e atendimento às exigências prognosticáveis e não prognosticáveis. Esses esforços sistemáticos de mutação planejada são chamados de desenvolvimento organizacional. Vale destacar que o processo de mudança organizacional começa com o aparecimento de forças exógenas (de fora da organização), de forças endógenas (internas) ou de ambas. Veja, no quadro a seguir, exemplos de forças endógenas e exógenas. Quadro 38 – Forças de mudança organizacional Forças endógenas Forças exógenas Tensão nas atividades Novas tecnologias Interações Mudança em valores da sociedade Sentimentos Novas oportunidades ou limitações do ambiente econômico, político, legal e socialResultados de desempenho no trabalho As tentativas de mudança interna devem ser conscientemente planejadas, evitando que o ajustamento às novas condições externas cause impactos negativos no andamento da operação e garantindo que se processe com a mínima perturbação do equilíbrio estrutural e comportamental da organização. As mudanças criam problemas que devem ser solucionados de forma racional e eficiente. Cada época desenvolve uma forma organizacional mais adequada à sua natureza. As mudanças que estão ocorrendo no mundo moderno tornam necessário revitalizar e reconstruir as nossas organizações, as quais têm de se adaptar às transformações do ambiente. Enquanto a mudança genérica envolve alterações no ambiente em geral, a mudança organizacional é um conjunto de alterações estruturais e comportamentais dentro de uma instituição. As mudanças estruturais e comportamentais são interdependentes e integradas. Saiba mais Assista ao filme a seguir. Ele aborda a mudança organizacional, em particular, o processo de demissões em massa. AMOR sem escalas. Direção: Jason Reitman. EUA: Rickshaw Productions, 2009. 109 min. 150 Unidade IV Resumo Nesta unidade, estudamos a educação corporativa e sua importante relação com o desenvolvimento organizacional. Ao longo do texto, aliamos a gestão do conhecimento e a gestão das competências como fatores fundamentais no desenvolvimento dos colaboradores e da organização. Vimos que, por meio da educação contínua, formamos profissionais com competências valorizadas na atualidade, visando atender com excelência aos clientes e às demandas da organização, mantendo a competitividade no mercado de trabalho. Reforçamos a importância de sempre considerar a cultura da empresa. Segundo Johann (2017, p. 144), “a cultura é formada pelo contexto comum em que os indivíduos de uma sociedade vivem as suas vidas”. Observamos que, para aplicar qualquer mudança organizacional, temos que considerar os valores, os conceitos, as regras e a missão da empresa, a fim de que essa transformação seja realizada na medida correta e com as devidas intervenções. 151 GESTÃO DO CONHECIMENTO Exercícios Questão 1. Com base no conteúdo abordado no livro‑texto, avalie as asserções e a relação proposta entre elas: I – Dado, informação e conhecimento são conceitos indistintos. porque II – Dado, informação e conhecimento são inquantificáveis. Assinale a alternativa correta. A) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II justifica a asserção I. B) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II não justifica a asserção I. C) A asserção I é verdadeira, e a asserção II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a asserção II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão Vimos no livro‑texto que dado, informação e conhecimento são conceitos distintos. O dado é a informação bruta ou o “conjunto de fatos distintos e objetivos, relativos a eventos” (Davenport; Prusak, 1998). Dado pode ser definido como [...] uma sequência de símbolos quantificados ou quantificáveis. Quantificável significa que algo pode ser quantificado e, depois, reproduzido sem que se perceba a diferença em relação ao original. Portanto, um texto é um dado. De fato, as letras são símbolos quantificados, já que o alfabeto, sendo um conjunto finito, pode por si só constituir uma base numérica (a base hexadecimal empregada em geral nos computadores usa, além dos 10 dígitos decimais, as letras de A a E). Também são dados fotos, figuras, sons gravados e animação, pois todos podem ser quantificados ao serem introduzidos em um computador, a ponto de se ter eventualmente dificuldade de distinguir a sua reprodução com o original. Adaptado de: https://bit.ly/2LBzb6m. Acesso em: 2 abr. 2025. 152 Unidade IV A informação pode ser vista como a disposição organizada de dados. Segundo Drucker (1999), informação corresponde aos “dados interpretados, dotados de relevância e propósito”. Ela pode ser descrita “como os dados estruturados, organizados e processados, apresentados em determinado contexto, o que a torna relevante e útil para a pessoa que a deseja”. Adaptado de: https://bit.ly/3O2uQ7i. Acesso em: 2 abr. 2025. O conhecimento está associado a uma abstração interna e pessoal criada a partir da experiência e pode ser caracterizado como: uma abstração interior, pessoal, de algo que foi experimentado, vivenciado, por alguém. Continuando o exemplo, alguém tem algum conhecimento de Paris somente se a visitou. Mais adiante essa exigência será um pouco afrouxada. Nesse sentido, o conhecimento não pode ser descrito; o que se descreve é a informação (se entendida pelo receptor), ou o dado. Também não depende apenas de uma interpretação pessoal, como a informação, pois requer uma vivência do objeto do conhecimento. Assim, o conhecimento está no âmbito puramente subjetivo do homem ou do animal. Adaptado de: https://bit.ly/2LBzb6m. Acesso em: 2 abr. 2025. Questão 2. Vimos, no livro‑texto, que podemos classificar o conhecimento em: tácito e explícito. Em relação a essa classificação, avalie as afirmativas: I – O conhecimento tácito refere‑se às experiências da pessoa e inclui a visão de mundo do indivíduo. II – O conhecimento explícito é desestruturado e construído com base na mitologia. III – O conhecimento explícito pode ser armazenado em bases de dados ou registrado, por exemplo, em artigos, revistas e arquivos eletrônicos. É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) I e II, apenas. C) II e III, apenas. D) I e III, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa D. 153 GESTÃODO CONHECIMENTO Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: o conhecimento tácito refere‑se a toda experiência adquirida ao longo da vida da pessoa. Esse tipo de conhecimento é construído a partir de modelos mentais, incluindo os pontos de vista individuais. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: o conhecimento explícito é estruturado e construído com base na racionalidade. III – Afirmativa correta. Justificativa: de modo geral, temos o conhecimento explícito armazenado em bases de dados ou registrado em artigos, revistas e arquivos eletrônicos. Ele, pela sua natureza digital e simbólica, pode ser codificado, armazenado e transmitido. Essa é uma das grandes vantagens do conhecimento explícito: pode ser facilmente compartilhado por milhares de pessoas. Livros, periódicos e revistas podem ser armazenados e transmitidos para pessoas de diferentes culturas e países, que podem se beneficiar com as pesquisas e com os trabalhos feitos em contextos sociais completamente distintos. O conhecimento explícito também pode ser indexado, o que facilita o trabalho de novas pesquisas. 154 REFERÊNCIAS Audiovisuais AMOR sem escalas. Direção: Jason Reitman. EUA: Rickshaw Productions, 2009. 109 min. DIVERGENTE. Direção: Neil Burger. EUA: Summit Entertainment; Red Wagon Entertainment, 2014. 140 min. ORIGENS do modelo 70:20:10. 2016. 1 vídeo. (4 min). Publicado pelo canal Espresso3. Disponível em: https://bit.ly/3ck6I2H. Acesso em: 16 abr. 2025. Textuais ADMINISTRAR. In: MICHAELIS: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2025. Disponível em: https://shre.ink/eqgl. Acesso em: 23 maio 2025. ALBRECHT, K. 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Daft (2002) distingue o estudo das organizações em sistemas abertos e sistemas fechados. Por sistemas fechados, o autor entende aquelas que não dependem do ambiente externo; elas são autônomas, encerradas e isoladas do mundo externo. Esse tipo de sistema é uma ficção, não sendo viável sua existência. Já os sistemas abertos referem‑se às organizações que devem interagir intensamente com o ambiente para sobreviver. Importam e exportam recursos para o ambiente, modificando‑o, e devem se remodelar continuamente para se adaptar a esse ambiente dinâmico e mutável (Daft, 2002). O recurso mais importante a ser disponibilizado na organização é o humano, também denominado de capital intelectual pela sua característica diferencial de transformar dados e informações em conhecimentos, gerando um ciclo virtuoso de produção de inteligência. Outra característica importante do ser humano é a sua sociabilidade. Agrupa‑se socialmente para conseguir suprimir suas mais diversas necessidades, psicológicas, relacionais, econômicas e familiares, entre outras. Com a complexidade e o dinamismo crescentes dos ambientes, a necessidade de socialização e agrupamento torna‑se mais importante. Vale destacar que as organizações são dispositivos criados para facilitar os arranjos dos recursos disponíveis para satisfazer as necessidades humanas. Administrar as organizações é, também, realizar o trabalho necessário por meio das pessoas. As organizações são formadas por recursos, entre os quais ganham importância os recursos humanos, ou seja, as pessoas. Gerentes são pessoas, portanto, membros dos grupos organizacionais e responsáveis por organizar os recursos materiais e imateriais. Existem interligação e interdependência entre as pessoas e as organizações, sem as quais as organizações não existiriam, muito menos a ARH (Chiavenato, 2004). As organizações são dependentes das pessoas em função das necessidades de planejamento, organização, direção e controle, que são essenciais para caracterizar a função de administração. 17 GESTÃO DO CONHECIMENTO Veja a figura 1. Pessoas Como pessoas Como recursos Personalidade e individualidade, inspirações, valores, atitude, motivação e objetivos pessoais Personalidade e individualidade, inspirações, valores, atitude, motivação e objetivos pessoais Tratamento pessoal e individualizado Tratamento pela média, igual e genérico Figura 1 – Vertente da ARH: pessoas como recursos e pessoas como pessoas Na figura anterior, percebe‑se a contribuição das pessoas, vistas como tais, para a formação dos sistemas sociais, caracterizando os grupos com suas personalidades, suas individualidades e seus objetivos. As pessoas também contribuem decisivamente para a formação da cultura da organização com seus valores, suas inspirações, suas motivações e suas atitudes diante dos desafios encontrados no dia a dia. Outra dimensão a ser considerada é a das pessoas como recursos organizacionais. Nessa dimensão, são considerados o nível de separação das tarefas na organização do trabalho e a divisão do trabalho. Se a especialização for intensa, o funcionário desempenhará um leque estreito de tarefas, porém com mais domínio. Do contrário, os funcionários desempenharão um número maior de tarefas, podendo não ter um domínio maior. Tudo depende das habilidades, das capacidades, das experiências e das destrezas de cada pessoa envolvida ou, de modo geral, do grupo que está sendo analisado. 1.1.2 Administração de pessoas A moderna área de ARH, que costuma ser chamada de gestão de pessoas, visa lidar com as pessoas como indivíduos, considerando suas particularidades e suas características específicas, e, ao mesmo tempo, busca tratá‑las como importantes recursos organizacionais, mas não pura e simplesmente como meios de produção, como eram consideradas até o início do século XX, durante o advento do taylorismo (movimento desenvolvido nesse período e que era baseado na teoria científica da administração). O termo gestão de pessoas é mais moderno, abrangente e tende a substituir o termo administração de recursos humanos, que indica a visão antiga de pessoas estritamente como recursos produtivos. A gestão de pessoas corresponde ao conjunto de atividades que forma a função capaz de gerar sinergia e cooperação entre os que atuam nas organizações, por meio do alinhamento dos objetivos individuais e dos objetivos institucionais, permitindo o alcance de ambos. Tudo parte da visão delas como organismos vivos, inseridos em organismos maiores, em que cumprem importantes funções, viabilizando o seu funcionamento. As pessoas cumprem papéis importantes e complexos nas instituições: não se limitam à execução mecânica de tarefas, consistem na força pensante e são responsáveis pela identificação, pela análise e pela solução de problemas. 18 Unidade I A principal ação humana é a tomada de decisões diante das situações cotidianas e comuns, bem como das inusitadas e novas. O mais importante na gestão de pessoas é promover a participação dos indivíduos em todos os níveis – estratégico, tático e operacional – como gestores, planejando, organizando, dirigindo e controlando, ou seja, tomando decisões para solucionar os problemas. O nível estratégico relaciona‑se à atuação institucional, que abrange decisões e ações que envolvem a empresa como um todo. Compreende a definição e o monitoramento dos objetivos organizacionais globais, que vão direcionar a instituição como um todo em busca de grandes alvos, geralmente de longo prazo. Observação O objetivo corresponde ao alvo que se quer atingir, à posição estratégica a ser obtida ou ao propósito a ser satisfeito por uma operação. Ou seja, trata‑se do alvo compartilhado, consciente ou inconscientemente, pelos membros de uma organização. Vejamos um exemplo de objetivo estratégico: a empresa pode definir como objetivo estratégico atuar significativamente no mercado exterior, iniciando pela União Europeia. O nível tático está relacionado à atuação de cada área funcional (comercial, produção, financeira etc.) e à definição das contribuições, cada uma para a consecução dos objetivos estratégicos estabelecidos no nível imediatamente superior. Agora, vejamos um exemplo de objetivo tático: a área comercial define como um dos seus propósitos pesquisar e definir novos nichos de mercado no continente europeu. Outro objetivo poderia ser analisar as necessidades não satisfeitas dos europeus quanto aos produtos e aos serviços oferecidos pela empresa. O nível operacional compreende o nível de execução existente em todas as áreas funcionais da organização. Nesse estágio, cada objetivo tático das áreas será transformado em diversos objetivos operacionais, que serão convertidos em metas operacionais. Observação Metas são fins a que se dirigem as ações ou os pensamentos de alguém; resultados sucessivos a serem obtidos na programação (plano) de um trabalho, o que viabiliza a consecução dos objetivos. 19 GESTÃO DO CONHECIMENTO Estratégico Operacional Tático Figura 2 – Níveis organizacionais Saiba mais Analise as informações complementares contidas no artigo. ENTENDA as diferenças entre planejamento estratégico, tático e operacional. Nobre Cestas, 8 jan. 2021. Disponível em: https://tinyurl.com/46ss7c69. Acesso em: 16 abr. 2025. Conceitos de ARH Alguns importantes autores da matéria abordam essa área como uma função que reúne técnicas administrativas voltadas a obter, desenvolver e manter as pessoas preparadas e motivadas para cumprir atividades relevantes ao funcionamento das organizações. Ao cumprirem essa missão, as pessoas estabelecem um sistema com as funções descritas no quadro 2. Quadro 2 – Gestão de pessoas como pessoas: aspectos comportamentais Percepção Forma comocada pessoa interpreta as mensagens que recebe e dá sentido a ela. Pode ser colocada como um processo de seleção, organização e interpretação dos estímulos que o ambiente oferece Atitudes Podem ser definidas como uma predisposição que reage a um estímulo e se manifesta por meio de opiniões. A atitude é uma característica facilmente mutável Aptidões Referem‑se ao potencial para a realização das tarefas e das atividades, ou seja, trata‑se da habilidade para realizar determinadas tarefas. Distinguem‑se de pessoa para pessoa e podem ser agrupadas em três categorias: intelectuais, físicas e interpessoais Inteligência Capacidade de lidar com a complexidade. Pode ser considerada uma aptidão geral que governa as demais aptidões Personalidade Conceito dinâmico, que procura descrever o crescimento e o desenvolvimento do sistema psicológico individual. Abrange todos os traços do comportamento e as características fundamentais de cada pessoa Biografia Características pessoais como experiência, idade, sexo e situação conjugal 20 Unidade I Segundo Chiavenato (2004), as funções de ARH são: preenchimento de cargos (recrutá‑los); treinamento e desenvolvimento (prepará‑los); motivação (estimulá‑los); e manutenção (mantê‑los na organização). Ainda conforme Chiavenato (2004), a área de RH, ao exercer sua função, deve atingir os objetivos a seguir: • Preenchimento de cargos: planejamento estratégico de recursos humanos, recrutamento e seleção. • Treinamento e desenvolvimento: orientação, treinamento e desenvolvimento do colaborador e ações para o desenvolvimento da sua carreira. • Motivação: aplicação de teorias de motivação, desenho do cargo, avaliação de desempenho, recompensas, remuneração e benefícios dados aos funcionários. • Manutenção: manutenção do quadro de funcionários. Segundo Chiavenato (2005), a gestão de pessoas consiste em um sistema integrado e contém os seguintes processos dinâmicos e interativos: prover, aplicar (socialização, descrição e análise de cargos e avaliação), manter, desenvolver e monitorar pessoas. O quadro 3 seguir detalha esses conceitos. Quadro 3 – Processos integrados de ARH Provisão Consiste em agregar pessoas à organização. Processo que visa determinar quem irá trabalhar na organização (conhecido como processo de recrutamento e seleção). Compreende atividades de pesquisa do mercado de trabalho, recrutamento dos profissionais que estejam enquadrados no perfil requerido pelo solicitante e seleção daquele que apresenta melhor perspectiva de êxito no desempenho das tarefas necessárias ao cargo Aplicação Processo que determina o que as pessoas farão na organização (conhecido como administração de recursos humanos). A esse processo são atribuídas as responsabilidades de descrever o desenho dos cargos (perfil); indicar atribuições, requisitos de habilidades e responsabilidades; e definir direitos e deveres. Descreve também os métodos para a integração dos novos empregados e os procedimentos que irão avaliar o desempenho de cada um Manutenção Definição das recompensas às pessoas. Visa manter as pessoas trabalhando na organização (o que é conhecido como administração do pessoal) e trata dos aspectos que envolvem a remuneração e os benefícios sociais Desenvolvimento Apoio e preparo para o desenvolvimento das pessoas dentro da organização, de forma a criar estímulo ao constante aperfeiçoamento profissional e pessoal, tanto no âmbito individual quanto no âmbito de grupo, em todos os níveis hierárquicos. Conhecido como treinamento e desenvolvimento, tem a responsabilidade de formular e executar a capacitação técnica e psicológica do efetivo para assumir desafios mais complexos na organização Segurança Processo que visa estabelecer disciplina e segurança, bem como qualidade de vida no trabalho. Inclui higiene e segurança do trabalho e as relações sindicais Monitoração Acompanhamento de como os indivíduos executam as atribuições que lhes são confiadas na organização, identificando pontos fortes e fracos, para dar subsídio à alta administração para a implementação das políticas de incentivo, de treinamento e de substituição. Conhecido como auditoria de pessoal ou avaliação do desempenho Adaptado de: Chiavenato (2005). 21 GESTÃO DO CONHECIMENTO 1.1.3 Administração de recursos humanos como um processo Segundo Davenport (1994), processo é um conjunto de atividades estruturadas e monitoradas que são destinadas a gerar um resultado ou um produto específico para atender às necessidades de um dado cliente ou mercado, com entradas e saídas claramente identificadas. No quadro a seguir, vemos processos integrados de ARH. Quadro 4 – Processos integrados de ARH Processo Objetivo Atitudes Provisão Quem irá trabalhar na empresa? Pesquisa de mercado em RH Recrutamento de pessoas Seleção de pessoas Aplicação O que as pessoas farão na empresa? Integração de pessoas Desenho de cargo Descrição e análise de cargo Avaliação de desempenho Manutenção Como manter as pessoas trabalhando na empresa? Remuneração e compensação Benefícios e serviços sociais Higiene e segurança no trabalho Relações sindicais Desenvolvimento Como preparar e desenvolver as pessoas? Treinamento Desenvolvimento organizacional Monitoração Como saber quem são e o que fazem as pessoas? Banco de dados/sistema de informações, controles de frequência, produtividade e balanço social Adaptado de: Chiavenato (2005). O processo é entendido como uma série de atividades que fornecem valor a um cliente. O cliente do processo não é necessariamente um cliente externo à empresa. Ele pode estar nela: é o chamado cliente interno. Os processos básicos na gestão de pessoas são: prover, aplicar, manter, desenvolver e monitorar as pessoas. São processos inter‑relacionados e interdependentes, com uma interação que faz com que qualquer alteração ocorrida em um deles provoque influência sobre os demais, os quais realimentarão novas influências nos outros. Além disso, o processo é um conjunto de atividades, integradas e interdependentes, que estão justapostas e arranjadas para que, a partir de entradas de recursos humanos, materiais e tecnológicos específicos, realize sua transformação, gerando produtos, serviços e informações que visam cumprir determinada função e atender às necessidades de um cliente interno ou externo. Harrington (1993) define processo como um grupo de tarefas interligadas e logicamente arranjadas que, por meio de recursos disponibilizados pela organização, produzem resultados estabelecidos para contribuir para a consecução dos seus objetivos. Já para Johansson (1995), processo é o grupo de tarefas e atividades interligadas que recebem os insumos (inputs) e os processa, gerando os resultados (outputs). Ao transformar, o processo agrega valor às entradas de forma a modificá‑las para gerar o resultado esperado pelo seu cliente na cadeia produtiva. 22 Unidade I Veja a figura 3. Processo Subprocessos Atividades Tarefas Figura 3 – Processo, subprocessos, atividades e tarefas Conforme observado na figura anterior, o processo é subdividido em partes menores, que são organizadas de forma a cumprir importantes funções: são os subprocessos. Estes, por sua vez, são divididos em atividades que correspondem a um conjunto lógico de tarefas. As organizações investem anualmente montantes significativos dos seus recursos em reestruturação para se manterem flexíveis e inovadoras em ambientes competitivos e turbulentos. Ao se basear nessa observação, a área empresarial tem apresentado interesse acentuado na mudança organizacional e vem desenvolvendo e aprimorando abordagens e métodos destinados ao realinhamento estratégico entre sua estrutura, seus objetivos e seus processos. Essa realidade torna complexa a escolha de um conjunto de técnicas e ferramentas adequadas às necessidades e às características de cada caso. O aprendizado organizacional deve ser um fator crítico de sucesso, devendo ser estimulado pelo espírito crítico‑interrogativo e pelo uso deferramentas adequadas, tornando os membros da organização mais conscientes da realidade do trabalho organizacional e das consequências de suas escolhas estratégicas. Vale destacar que a gestão de processos não é uma função nova. Adam Smith, um dos primeiros estudiosos da administração, já a relatava em um estudo sobre uma fábrica de alfinetes. Considerando o acirramento da competição nos mercados, houve a necessidade de otimizar os processos para conseguir a melhor relação entre custo, preço final do produto (ou serviço) e qualidade. Os objetivos dos métodos de gerenciamento de processos são identificar as oportunidades de melhoria das operações e definir aquelas que não acrescentam valor ao cliente, que podem ser substituídas ou extinguidas. Na visão da gestão de processos, as relações na organização são uma interação entre cliente e fornecedor. 23 GESTÃO DO CONHECIMENTO O departamento de produção, por exemplo, é fornecedor do departamento de vendas, pois produz o que vai ser vendido, e é cliente do departamento de compras, que lhe fornece os insumos para a fabricação do produto. De modo geral, os departamentos são clientes em determinadas situações e fornecedores em outras, dependendo dos processos em que estejam envolvidos. Saiba mais Para aprender mais sobre as melhorias nos processos de RH, leia a indicação a seguir: PEIXOTO, A. C. Os processos de RH: uma visão estratégica. RH Portal, 2 set. 2015. Disponível em: https://bit.ly/3uYdWA1. Acesso em: 16 abr. 2025. 1.1.4 Políticas de ARH Políticas consistem em grandes diretrizes que norteiam as futuras decisões e as ações de determinada área organizacional. Exemplos de políticas organizacionais: • admitir colaboradores que tenham no mínimo o Ensino Médio; • permitir a acessibilidade para viabilizar o acesso de todos a todas as dependências da empresa; • entender a qualidade como uma exigência em decisões, atividades, produtos e serviços. As políticas organizacionais direcionam os raciocínios, as tomadas de decisão e as ações, visando minimizar desempenhos e ações administrativas que contrariem os desejos da organização, dos seus clientes e demais stakeholders. Observação Stakeholders são pessoas e partes interessadas nos resultados produzidos pela organização: clientes, fornecedores, colaboradores, parceiros, governo etc. Na gestão de pessoas, as políticas representam um conjunto de regras que regem as relações entre a empresa e seus colaboradores. Essas políticas devem estar manifestadas em documentação formalizada (manuais, descrições e roteiros). Entre elas, temos as mostradas no quadro 5 a seguir 24 Unidade I Quadro 5 – Políticas de ARH e questões atendidadas Políticas de ARH Grandes questões atendidas Política de recrutamento e seleção Quais são as informações que deverão ser transmitidas ao órgão de recrutamento e seleção para início de um processo que visa suprir uma vaga em aberto? Quais são os critérios gerais que devem ser observados nos candidatos para a habilitação no processo? Onde e como devem ser captados candidatos em potencial? Quais são as etapas e os objetivos do processo de seleção adotado? Quais são os critérios para a avaliação e a identificação dos melhores quadros? Política de administração de RH Como deve ser desenvolvido o processo de identificação das atribuições e das responsabilidades de cada cargo? Qual é a definição dada para escalonar e valorar, em termos de remuneração, as atribuições? Qual é a periodicidade a ser observada pelo sistema de avaliação do desempenho? Política de administração do pessoal Quais são os critérios para a concessão de benefícios? Quais são a periodicidade e a forma de pagamento adotadas? Quais são os critérios a serem observados nas relações sindicais? Quais são os limites de tolerância para faltas e atrasos? No processo de admissão, quais são as principais etapas e documentos a serem exigidos? Política de cargos e salários Quais são os critérios de evolução dos cargos em suas respectivas carreiras? Quais são os procedimentos para dimensionar ou redimensionar atribuições e responsabilidades? Como analisar o desempenho individual e do grupo de trabalho para aplicar a remuneração variável? Quais são os critérios de planejamento e de alocação da força de trabalho disponível? Política de treinamento Quais são os critérios e as diretrizes para o cadastramento de prestadores de serviços de treinamento? Quais são os fatores a serem considerados para a obtenção de reciclagem via treinamento interno e aqueles proporcionados por terceiros? Quais são os aperfeiçoamentos obrigatórios para a evolução no sistema interno de carreira? Quais são os critérios de diagnóstico das necessidades de treinamento de cada área? Qual é o perfil básico dos recursos destacados para ministrarem treinamento na organização? Adaptado de: Chiavenato (2004). 1.2 Breve histórico da área de treinamento A área de treinamento sofreu muitas transformações ao longo dos anos, acompanhando a evolução do próprio setor de RH. O dinamismo imposto no mercado, por meio da evolução das comunicações e da tecnologia, passou a exigir profissionais em constante transformação de competências. A carreira, que antes era um fator primordialmente pertencente às empresas, hoje é compartilhada, e o profissional passa a ser o responsável pelo caminho que irá trilhar. Dessa forma, os colaboradores estão muito mais interessados em manter suas capacidades e seus conhecimentos sempre atualizados, pois sabem que somente assim poderão estar preparados para as novas exigências do mercado. Por sua vez, a empresa é responsável por possibilitar essas escolhas, proporcionando cursos, palestras e seminários para que o funcionário esteja sempre atualizado com tudo que há de novo no mercado. A área de treinamento passou a ser estratégica, pois visa preparar o colaborador para esse novo mundo de negócios, tanto técnica quanto comportamentalmente. 25 GESTÃO DO CONHECIMENTO Os objetivos da empresa poderão entrar em consonância com os pessoais, já que, nesse novo olhar, é impossível separar esses dois fatores. Um profissional feliz também será uma pessoa realizada. Não devemos ver mais o treinamento como custo, mas sim como investimento nos indivíduos, uma vez que um profissional preparado para a função trará benefícios para a organização. 2 CONCEITO DE EDUCAÇÃO, TREINAMENTO E DESENVOLVIMENTO Os hábitos, os costumes e os valores de uma comunidade são transferidos de geração para geração, em um processo de aprendizagem que consiste em situações presenciadas e experiências vividas pelos indivíduos no decorrer de sua existência. No Brasil, o acesso ao processo formal à escola faz parte dos direitos fundamentais do indivíduo e deve ser garantido pelos recursos do Estado. A educação consiste em um processo de interação que contempla dimensões de tempo e espaço, diálogos, discussões, problematizações e produção intelectual dos participantes do processo como educandos. O professor ou instrutor cumpre o papel de facilitador e mediador no processo de geração de aprendizagem. Por sua vez, o docente exerce o papel de comunicador e colaborador, incentivando a criatividade no processo de aprendizagem dos educandos. Existe cumplicidade e coautoria dos educadores e educandos nessa nova relação pedagógica, a partir da confiança e da dialogicidade, o que permite a autoavaliação contínua de seus papéis e a avaliação dos resultados no processo. A cidadania plena é um dos principais objetivos na formação dos alunos: devem ser dadas as condições para que o educando se torne um cidadão ciente dos seus direitos e dos seus deveres. Para ser completo, o ser humano tem que saber pensar e, principalmente, saber pensar sobre si. A aprendizagem é uma função mental que permite a assimilação de informações e de conhecimentos apresentados logicamente, a fim de promover o desenvolvimento do indivíduo. Consiste em um processo que cria competências por meio de habilidades e de competências.Afinal, a competência pode ser definida como a capacidade de mobilizar as habilidades, as atitudes e os conhecimentos para resolver problemas e desenvolver soluções, enquanto a habilidade é a soma de conhecimentos e de experiências em fazer, para desenvolver expertise e domínio para realizar. Por último, e não menos importante, pois é a base de tudo, temos o conhecimento, que representa tudo que é necessário saber. A aprendizagem estabelece uma melhor relação entre o ser humano e o seu meio ambiente. Esse processo pode ser avaliado, por exemplo, por meio de medições e da construção das denominadas curvas de aprendizagem. Como resultado da aprendizagem, deve‑se perceber a mudança de comportamento do aprendiz. A experiência construída por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais potencializa as adaptações do comportamento em razão dos novos conhecimentos e habilidades. O aluno, ou participante do processo de aprendizagem, passa a ser coautor e responsável pela sua própria formação, e isso tem impactos na evolução da carreira profissional e da própria vida. 26 Unidade I A educação pode ser definida como o processo que visa preservar os conhecimentos e os aprendizados, físicos e intelectuais, de uma comunidade, por meio da sua transmissão para os mais novos e inexperientes. 2.1 Conceitos de educação e de desenvolvimento pela aprendizagem Aprender é um processo contínuo: transferimos para outras pessoas o conhecimento sobre algo para que tal conteúdo possa ser desenvolvido, revisto e transformado. Esse processo de conhecer passa por todas as áreas de nossa vida, com a transmissão de conhecimento na família, nas empresas e na sociedade como um todo. A civilização se transforma e evolui por meio desse processo constante de revisão do conhecimento. Atualmente, a educação no âmbito escolar é um direito de todos, assegurado pelo Estado. Os papéis de professor e de aluno estão se transformando com o tempo e, hoje, seguramente são mais dinâmicos e interativos. O aluno não é mais um mero depositário de informações, mas um sujeito atuante na formação desse conhecimento. A aprendizagem envolve a assimilação de informações e conhecimentos que permitirão o desenvolvimento intelectual das pessoas por meio do desenvolvimento de habilidades, competências e atitudes para resolver situações críticas, com a adaptação do indivíduo ao meio em que vive de forma equilibrada. Esse apoderamento da construção do conhecimento possibilita que o aluno seja responsável pelas atitudes de sua vida e consiga construir sua carreira da maneira que desejar. Poucos assuntos da área de recursos humanos têm mudado tanto nas últimas décadas como o papel que as organizações representam na carreira de seus colaboradores. Mas, afinal, o que vem a ser carreira? Segundo a definição apresentada por Robbins (2005), carreira é a sequência evolutiva das experiências de trabalho de uma pessoa ao longo do tempo. Há pouco mais de algumas décadas, o comum era que um indivíduo passasse toda a sua vida profissional em uma única organização. Tempos atrás, muitos empresários de médias e grandes corporações realizavam grandes planejamentos acerca das carreiras de seus colaboradores, com o objetivo de oferecer‑lhes uma oportunidade de crescimento dentro da própria organização. Isso ocorreu na época em que era “moda” que toda empresa criasse seus planos de cargos, salários e carreiras. As empresas construíam gráficos de substituição de colaboradores baseados em modelos estatísticos, nos quais muitos passavam a ocupar postos internos estratégicos. Treinamento e desenvolvimento De acordo com Chiavenato (1999, p. 295), treinamento “é um processo educacional de curto prazo e aplicado de maneira sistemática e organizada, por meio do qual as pessoas aprendem conhecimentos, atitudes e habilidades em função de objetivos definidos”. 27 GESTÃO DO CONHECIMENTO Eram oferecidos muitos programas internos de desenvolvimento de carreiras para preparar os colaboradores para as futuras promoções. No entanto, cortes de gastos das operações das empresas obrigou‑as a reinventarem seus processos e reestruturarem‑se para incrementar flexibilidade. Com isso, conseguem transferir a responsabilidade pelo desenvolvimento das carreiras dos colaboradores para eles próprios. Esse fenômeno vem sendo observado em companhias das mais diversas atividades. Apesar dessa mudança na tendência da responsabilidade, existem benefícios permanentes que se agregam às organizações que optam por oferecer programas de desenvolvimento de carreiras para seus colaboradores. Entre esses benefícios, podemos destacar a possibilidade que as empresas têm de assegurar que as pessoas adequadas estejam disponíveis para cumprir as exigências do mercado. Os benefícios também podem aumentar a diversidade da força de trabalho, bem como proporcionar colaboradores com expectativas mais realistas. Saiba mais Leia a norma a seguir, que orienta e fornece diretrizes para estabelecer, implementar, manter e melhorar sistemas de gestão: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT). NBR ISO 10015:2020 – gestão da qualidade: diretrizes para gestão da competência e desenvolvimento de pessoas. Rio de Janeiro: ABNT, 2020. Para complementar o que vimos, no quadro a seguir, temos uma classificação dos objetivos da aprendizagem. Quadro 6 – Classificação dos objetivos da aprendizagem Objetivos Características Domínio cognitivo Ligado a conhecimentos, informações ou capacidades intelectuais. No domínio cognitivo, temos as habilidades de memorização, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação Domínio afetivo Relacionado a sentimentos, emoções, gostos ou atitudes. Envolve habilidades de receptividade, resposta, valorização, organização e caracterização Domínio psicomotor Ressalta o uso e a coordenação dos músculos. No domínio psicomotor, apresentamos habilidades relacionadas a movimentos básicos fundamentais, movimentos reflexos, habilidades perceptivas e físicas e comunicação não discursiva Adaptado de: Hamze (2012). Lembrete A educação pode ser definida como o processo que visa preservar os conhecimentos e aprendizados, físicos e intelectuais de uma comunidade, por meio da sua transmissão para os mais novos e inexperientes. 28 Unidade I 2.1.1 Treinamento como um meio de desenvolver pessoas O sentido de treinamento na moderna gestão de RH em nada se parece com a definição apresentada em alguns dicionários, que definem o verbo treinar como sinônimo de adestrar, excluindo do processo a necessidade de capacidade intelectual. Há empresas que utilizam modernas ferramentas de treinamento de pessoas para desenvolver a capacidade intelectual de seus colaboradores, bem como para tentar descobrir entre eles talentos importantes para o crescimento organizacional. Os treinamentos hoje oferecidos pelas corporações aos seus funcionários são escolhidos de acordo com as necessidades reais deles. Oferecer um treinamento que a instituição presuma ser importante pode ser um investimento mal aplicado, pois, muitas vezes, o que ela julga ser necessário para o cliente interno pode não agregar nenhum tipo de valor. O moderno RH trabalha para possibilitar que objetivos organizacionais e individuais sejam alcançados. A meta é que ambos sejam atingidos. O quadro a seguir mostra um comparativo de alguns objetivos empresariais e pessoais. Quadro 7 – Objetivos empresariais e objetivos pessoais Objetivos empresariais Objetivos pessoais Lucratividade Crescimento pessoal Crescimento de mercado Crescimento profissional Produtividade Melhores salários Competitividade Benefícios adicionais Maior qualidade Qualidade de vida no trabalho (CVT) Maior investimento Possibilidade de vida no trabalho Novos mercados Respeito Chiavenato (2008, p. 8) afirma o que segue: Verificou‑se que, se a organização quer alcançar os seus objetivos da melhor maneira possível, ela precisa saber canalizar os esforços das pessoas para que também estas atinjamos seus objetivos individuais e ambas as partes saiam ganhando. Modernamente, a solução do tipo ganhar/ganhar no jogo de interesses envolvidos é perfeita. Trata‑se de uma solução que requer negociação, participação e sinergia de esforços. Observação O treinamento tem abordagem de curto prazo e visa atender necessidades específicas, tendendo para questões mais técnicas, enquanto o desenvolvimento tem abordagem de longo prazo e tendência para questões mais estratégicas da organização. 29 GESTÃO DO CONHECIMENTO Habilidades Podem ser classificadas em quatro grandes categorias. A maioria dos programas de capacitação tem o objetivo de modificar uma das habilidades descritas a seguir: • Conhecimentos elementares: as organizações precisam cada vez mais proporcionar habilidades básicas, como leitura e matemática elementar, para seus colaboradores. Trata‑se de um dos princípios básicos de uma administração de qualidade. As empresas precisam ter em mente que, mesmo que o colaborador realize apenas tarefas operacionais (como manejar um guincho), um dia ele necessitará ler o manual de especificações do seu objeto de trabalho. Para essa simples atividade, o domínio da leitura é fundamental. Nessa mesma linha de raciocínio, podemos exemplificar o quanto a matemática básica é vital para o trabalho de um vigilante de estacionamento. • Conhecimentos técnicos: é uma tendência mundial que a oferta de capacitações esteja dirigida para a melhoria das habilidades técnicas dos colaboradores; isso acontece tanto em escritório quanto em produção. Com o desenvolvimento tecnológico, os postos de trabalho sofrem modificações, exigindo menos esforço físico e maior esforço intelectual dos funcionários. O colaborador moderno trabalha em máquinas automatizadas e, para isso, necessita de conhecimentos técnicos e noções de matemática, de computação, de métodos de montagem e de controles estatísticos. Um exemplo são os colaboradores da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos que ocupam o cargo de classificador, que necessitaram passar por um treinamento técnico para aprender a operar as máquinas classificadoras, as quais realizam seu trabalho automaticamente. Outro exemplo são os mecânicos de automóveis, que têm participado constantemente de cursos oferecidos pelas montadoras para tentar acompanhar as modificações trazidas pela tecnologia; do contrário, estarão limitados às características dos antigos veículos. • Conhecimentos interpessoais: em uma organização, todos os colaboradores fazem parte de determinado setor ou departamento em que se encontram outros indivíduos. Ninguém trabalha isoladamente. Por mais que demore, em algum momento a continuidade do trabalho de um colaborador dependerá de sua interação com os demais colegas de trabalho. Algumas pessoas se relacionam muito facilmente em qualquer ambiente, inclusive no trabalho. Elas têm um grande círculo de amizade e dificilmente atravancam em trabalhar em grupo. Outras, ao contrário, são mais introspectivas e sentem bastante dificuldade em se relacionar. Os conhecimentos interpessoais ajudam as empresas a promoverem maior inter‑relação de seus colaboradores. Assim, o oferecimento de capacitação para desenvolver habilidades interpessoais também visa melhorar a participação do indivíduo no grupo de trabalho. Uma das capacitações de conhecimentos interpessoais comum é a que trabalha a conscientização dos indivíduos acerca da diversidade cultural existente no grupo de trabalho. Há empresas que fazem capacitações dos seus funcionários com base na diversidade. Esse tipo de capacitação é ideal, por exemplo, para empresas multinacionais, nas quais colaboradores de várias partes do mundo mantêm relações profissionais. 30 Unidade I • Conhecimentos para solução de problemas: solucionar problemas no trabalho é uma atividade constante para qualquer colaborador que não desempenha tarefa repetitiva, independentemente de ocupar cargo de chefia ou não. Para essas pessoas, as capacitações do tipo “solução de problemas” são ideais, pois aguçam sua capacidade lógica, indispensável na hora de resolver uma questão, principalmente se a solução depender de alguma tomada de decisão importante. Essas capacitações também desenvolvem nos colaboradores seu potencial de avaliação de causas e de eleição da melhor alternativa. A capacitação para a solução de problemas transformou‑se em uma atividade básica para quase todo esforço organizacional, por ser capaz de criar grupos de trabalho autodirigidos. Influência do ambiente organizacional no desempenho dos colaboradores Cada vez mais, as empresas estão sentindo a necessidade de modificar o tipo de relação que vêm desenvolvendo com seus colaboradores. Estão percebendo a primordialidade de um clima mais amistoso, baseado indispensavelmente na confiança mútua entre as partes. O ambiente organizacional é tão importante que influencia diretamente o bom aproveitamento de um treinamento ofertado. Quando o colaborador percebe que existe preocupação por parte da empresa em lhe oferecer melhor capacitação, ele passa a trabalhar de forma mais motivada. Por isso, nunca é pouco investir em treinamento e desenvolvimento para tentar tornar os colaboradores mais felizes em seus trabalhos. Contudo, é preciso acentuar o seguinte: para a empresa alcançar os resultados esperados, esses programas de treinamento devem acontecer sistematicamente, e não de forma pontual ou isolada. 2.2 Introdução ao capital intelectual, à gestão do conhecimento e à universidade corporativa A Era do Conhecimento é baseada em tecnologia, informação e inteligência. Os desafios representados pelas preocupações com competitividade, produtividade, oportunidades e ameaças têm origem em conhecimentos mal aplicados, seja por falta de inteligência para transformá‑los em solução, seja por falta de pessoas capacitadas para utilizá‑los adequadamente. Um grande impedimento para a otimização e a melhor aplicação dos conhecimentos é o medo. Medo de errar, de inovar, de arriscar, de descobrir e de experimentar o novo. Muitas vezes, nas empresas, pretende‑se inovar, mas sem assumir riscos, custos, tempo e esforços para fazê‑lo. O processo de inovação exige a tolerância ao erro, tolerância com os prejuízos causados por falhas e insucessos e com a demora para obter êxito. Considerando o capital intelectual como um novo e importante ativo para as organizações, as empresas passaram a adotar novas estratégias para enfrentar os desafios dessa Era, considerando tanto os bens físicos e financeiros quanto os ativos intangíveis, que, muitas vezes, valem mais do que os ativos tangíveis da empresa. Os novos empregos estão muito distantes da estabilidade, da carteira assinada, da especialização “por adestramento” e da divisão mecânica do trabalho, baseada em tarefas e funções. 31 GESTÃO DO CONHECIMENTO Observação Os novos empregos são ancorados no conhecimento, pois esse ativo é o mais importante para transformar os insumos e as matérias‑primas em bens e serviços. 2.2.1 História da gestão do conhecimento O desenvolvimento do conhecimento humano pode ser dividido em grandes ondas. Nesse sentido, vale a pena estudarmos as fases da industrialização. Na primeira Revolução Industrial (1780‑1860), houve invenções e aplicações de vários tipos de equipamentos e ferramentas que revolucionaram o panorama da produção e da administração das organizações. A segunda Revolução Industrial (1860‑1914) é caracterizada pelos seguintes eventos: substituição do vapor pela eletricidade e pelos derivados de petróleo; desenvolvimento de maquinaria automática; alto grau de especialização do trabalho; crescente domínio da indústria; transformações radicais nos transportes e nas comunicações; e desenvolvimento de novas formas de organização capitalista, das holding companies etc. A terceira Revolução Industrial é a Revolução da Informação, iniciada na década de 1970, impulsionada pelo desenvolvimento de tecnologias avançadas em comunicação,