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Análise do Caso Clínico 3 – 2025/1 Hipótese Diagnóstica O paciente lactente apresentou um quadro clínico compatível com Ancilostomose causado pelo nematoide (helminto) Ancylostoma duodenale ou pelo Necator Americanus. A mãe apresentou um quadro assintomático de Ancilostomose e lesões cutâneas serpiginosas nos pés decorrentes de larva migrans cutânea (Ancylostoma braziliense e Ancylostoma caninum) Análise Clínica do Caso Paciente: Lactente de 2 meses Sintomas principais: ● Vômitos intermitentes ● Perda de peso ● Diarreia leve anterior ● Eosinofilia acentuada (4.900/μL) ● Anemia microcítica hipocrômica (Hb 8,9 g/dL) ● Ovos de helmintos nas fezes compatíveis com ancilostomídeos ● Em caso de infecções leves, o parasitismo por ancilostomídeos pode apresentar-se assintomático. (como ocorreu com a mãe) Contexto epidemiológico relevante: ● Mãe gestante exposta a solo contaminado no interior do Maranhão ● Contato com cães e gatos de rua ● Lesões serpiginosas (indicativas de larvas migrans cutânea, associada a Ancylostoma spp.) Critério Ancilostomíase (Ancylostoma/Necator) Idade (2 meses) Transmissão compatível com caso ✅ Rara em lactentes, mas descrita (via leite ou mãos contaminadas) Eosinofilia intensa ✅ Moderada a intensa Anemia microcítica ✅ Direta por perda de sangue Presença de ovos nas fezes ✅ Sim Lesão serpiginosa nos pais ✅ Indicativa de larva migrans cutânea (Ancylostoma braziliense) Resposta ao mebendazol ✅ Boa Epidemiologia no Maranhão ✅ Muito prevalente em áreas com saneamento precário, contato com solo; Maranhão é área endêmica ● Em Ancylostoma caninum as raras ocasiões que larvas A. caninum alcançam o intestino humano, causam apenas enterocolite eosinofílica com dor abdominal e sintomas associados mas os Ovos não estão presentes nas fezes Fisiopatologia dos sintomas lesões serpiginosas ● Ancylostoma braziliense e Ancylostoma caninum são ancilostomídeos que têm os gatos e cachorros como principais hospedeiros. Não podem completar seu ciclo de vida nos seres humanos. Se as larvas penetram a pele humana, normalmente elas vagam pela pele, causando lesões serpinginosas em vez de migrar para o intestino. Tosse, sibilo pulmonar (síndrome de Loeffler) ● Após atravessar a pele, as larvas entram na circulação e são levadas aos pulmões → migram para os alvéolos → traqueia → são deglutidas → alcançam o intestino delgado. Durante a migração pulmonar, pode haver reação inflamatória (tosse, sibilos), embora não seja comum em todos os casos ● Não ocorreu no caso clinico Vômitos Intermitentes ● Irritação da mucosa gastrointestinal pelos vermes adultos. ● Processo inflamatório local com liberação de mediadores (histamina, citocinas) → estimulação dos centros eméticos via nervo vago. ● Pode também estar associada à resposta sistêmica do hospedeiro ao parasita, gerando desconforto abdominal inespecífico. Importante: em lactentes, qualquer disfunção gastrointestinal leve pode gerar vômitos, dada a imaturidade do trato digestivo. Perda de peso ● Redução da absorção intestinal: inflamação crônica da mucosa pode atrapalhar digestão e absorção de nutrientes. ● Aumento do catabolismo: resposta imunológica (eosinofílica) intensa exige energia. ● Hemorragia crônica intestinal: perda de ferro e proteínas. ● Recusa alimentar: associada ao mal-estar gástrico. Resultado final: desequilíbrio energético negativo, agravado pela pouca reserva calórica do lactente. Diarreia leve anterior ● A presença dos vermes causa irritação da mucosa do intestino delgado, gerando inflamação local → hipersecreção de muco e água. ● A inflamação altera a motilidade e favorece o trânsito acelerado → diarreia. Eosinofilia importante (4.900/μL) ● A eosinofilia é uma resposta típica contra helmintos, especialmente na fase de migração larval e presença tecidual. ● Os eosinófilos são ativados por citocinas (IL-5, IL-3) liberadas pelos linfócitos Th2. ● Função dos eosinófilos: liberar grânulos citotóxicos para tentar destruir o parasita, especialmente durante a fase migratória. Por que tão elevada? ● Crianças pequenas têm resposta imune mais intensa a antígenos helmínticos. ● A fase migratória recente e a presença de vermes adultos contribuíram para a ativação eosinofílica exacerbada. Anemia microcítica hipocrômica (Hb 8,9 g/dL) ● Perda crônica de sangue: os vermes se alimentam de sangue e causam hemorragias contínuas na mucosa intestinal. ● Estima-se que Ancylostoma duodenale possa causar perda de até 0,2 mL de sangue por verme, por dia. Tipo da anemia: ● Microcítica = hemácias pequenas ● Hipocrômica = pouca hemoglobina nas hemácias → Causa típica: deficiência de ferro Fatores agravantes em lactentes: ● Reservas de ferro limitadas desde o nascimento. ● Alimentação exclusiva com leite materno sem suplementação (embora rico em ferro biodisponível, pode não ser suficiente se houver perda sanguínea). ● Rápido crescimento → maior demanda de ferro. Ciclo de vida A. duodenale e N. Americanus. 🌱 1. Eliminação dos Ovos nas Fezes ● Os vermes adultos vivem fixados na mucosa do intestino delgado (duodeno e jejuno) do hospedeiro humano. ● Eles copulam e a fêmea libera ovos que são eliminados pelas fezes. ● Ovos recém-eliminados contêm células segmentadas (em estágio de mórula) e não são imediatamente infectantes. 🌡 2. Desenvolvimento no Ambiente ● Em solo úmido, quente e sombreado, os ovos eclodem em 1–2 dias, liberando: ○ Larvas rabditóides (L1): primeiras formas larvárias, de vida livre. ● As larvas L1 se alimentam de matéria orgânica e, em poucos dias, sofrem duas mudas até se tornarem: ○ Larvas filarióides (L3): forma infectante do parasita. L3 é a forma que penetra a pele humana. 👣 3. Penetração na Pele do Hospedeiro ● As larvas L3 entram em contato com a pele humana, geralmente quando a pessoa anda descalça em solo contaminado. ● Elas penetram ativamente a pele, especialmente em regiões como pés, pernas ou nádegas. 🩸 4. Migração pelo Corpo ● Após a penetração, as larvas entram na circulação sanguínea → alcançam os pulmões ( fase pulmonar ou de migração larvária.)→ rompem os alvéolos → sobem pelos brônquios e traqueia → são deglutidas e com isso, chegam ao trato digestivo. 🪱 5. Estabelecimento no Intestino Delgado ● No intestino, as larvas sofrem nova muda e tornam-se vermes adultos. ● Os adultos se fixam na mucosa intestinal por meio de uma cápsula bucal com dentes cortantes e começam a: ○ Alimentar-se de sangue do hospedeiro. ○ Reproduzir-se sexualmente (fêmeas podem produzir até 20.000 ovos por dia). ● Ovos são eliminados nas fezes → se desenvolvem em larvas L1 → transformam-se em L3 → penetram em outro hospedeiro humano. 🔄 Características Especiais do Ancylostoma duodenale ● Sobrevivência da larva L3 no ambiente: até 2–3 semanas, em condições ideais. ● Autoinfecção direta: Ancylostoma duodenale pode penetrar pela mucosa oral ou via leite materno, embora seja raro. ● Transmissão vertical (perinatal): larvas podem ser transmitidas transplacentáriamente ou pelo leite, como se suspeita no caso da lactente. Morfologia do Ancylostoma Duodenale e do Necator Americanus Vermes Adultos Macho Fêmea Comprimento 8–11 mm (A. duodenalis), 7–9 mm (N. americanus) 10–13 mm(A. duodenalis), 9–11 mm (N. americanus) Extremidade posterior Bolsa copuladora (alargada) Afilada, sem bolsa Órgãos reprodutores Testículos e tubos seminíferos longos Útero enrolado, cheio de ovos Forma corporal Cilíndrica e curvada ventralmente Cilíndrica e curvada ventralmente Cor Esbranquiçado a rosado Esbranquiçado a rosado Estrutura de fixação (cápsula bucal) Dois pares de dentes cônicos para perfurar mucosa e sugar sangue (A. duodenalis), 2 pares de Placas cortantes para raspar a mucosa (N. americanus) Dois pares de dentes cônicos para perfurar mucosa e sugar sangue (A. duodenalis), 2 pares de Placas cortantes para raspar a mucosa (N. americanus) Morfologiados Ovos Descrição Forma Oval, simétrica Tamanho 60–75 µm × 35–40 µm Casca Lisa, fina e transparente Conteúdo interno Segmentado (4 a 8 blastômeros) Observação clínica Detectável em exame de fezes Diferença com Necator Morfologicamente muito semelhante (difícil distinguir) Morfologia das Larvas Estágio Nome Tamanho aproximado Características principais Papel no ciclo de vida Larva L1 Rabditóide ~250 µm Esôfago bulboso, boca ampla, ativa e se alimenta no solo Forma inicial após eclosão Larva L3 Filarióide (infectante) ~500–700 µm Esôfago estreito, não se alimenta, bainha externa, muito móvel. A L3 de N. americanus é mais ativa e resistente Forma infectante (penetra a pele) 🔁 Resumo das Formas por Estágio Estágio Forma morfológica Presente no hospedeiro humano? Identificável em exames? Ovo Oval com mórula Sim (eliminado nas fezes) Sim (coproparasitológico) Larva L1 Rabditóide Não Não Larva L3 Filarióide com bainha Não (vive no solo) Apenas em cultura (Harada-Mori) Verme adulto (♂) Corpo curvo, bolsa copuladora Sim (no intestino) Não (raramente nas fezes) Verme adulto (♀) Maior, útero com ovos Sim (no intestino) Não (mas produz ovos) Comparação Morfológica dos Ancylostoma spp. Característica A. duodenale (humano) A. caninum (cão) A. braziliense (cão/gato) Hospedeiro definitivo Humano Cão Cão e gato Tamanho macho ♂ 8–11 mm 10–12 mm 6–10 mm Tamanho fêmea ♀ 10–13 mm 14–16 mm 10–13 mm Forma corporal Cilíndrica, curvada ventral Igual Igual Cor Esbranquiçado a rosado Igual Igual Cápsula bucal 2 pares de dentes curvos grandes 3 pares de dentes em forma de gancho 1 par grande e 1 par pequeno de dentes laterais Bolsa copuladora ♂ Presente Presente Presente Ovos Indistinguíveis entre espécies (60–75 µm x 35–40 µm, casca fina, blastômeros) Forma infectante Larva filarióide (L3) Igual Igual Diagnóstico laboratorial Exame de Feses ● O diagnóstico laboratorial da ancilostomíase baseia-se no exame parasitológico de fezes com pesquisa de ovos do parasito. Os ovos de A.duodenales e de N. americanus morfologicamente são muito semelhantes, e, portanto, na rotina parasitológica não é necessário mencionar a espécie, diagnosticando apenas a presença de ovos de ancilostomídeos. ● Em fezes envelhecidas (em condições favoráveis de temperatura, oxigênio e umidade) os ovos já se encontram embrionados e eclodem, liberando larvas rabditoides que devem ser distinguidas das larvas de S. stercoralis. ● O diagnóstico diferencial deve ser feito com os ovos de Trichostrongylus spp (parasitos de ruminantes e que ocasionalmente podem infectar o homem). 🧬 PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) Método Descrição PCR convencional ou em tempo real Detecta material genético do parasita (DNA) nas fezes Alta especificidade Diferencia espécies de ancilostomídeos com precisão Aplicação Usado em estudos epidemiológicos e áreas com coinfecção mista 🧪 Hemograma ● Pode ser Complementar ao diagnóstico, mas não específico para helmintos. Parâmetro Achado característico Eosinofilia Comum e acentuada em infecções ativas Anemia microcítica Frequente devido à perda crônica de sangue intestinal Hemoglobina baixa Hb 90% Albendazol 400 mg dose única >95% Levamisol 150 mg dose única ~85% Pamoato de pirantel 10 mg/kg dose única ~80–90% Mebendazol ● Classe farmacológica: Benzimidazólicos ● Atua principalmente sobre vermes intestinais adultos e possui amplo espectro: eficaz contra ancilostomídeos, Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura ● Baixa absorção sistêmica (poucos efeitos colaterais), Baixo custo e Poucos casos de resistência ● tem disponibilidade em formulações pediátricas líquidas em alguns países (inclusive no SUS em certas apresentações). Mecanismo de ação: ● se liga à β-tubulina dos vermes, impedindo a polimerização de microtúbulos ● Sem microtúbulos, o verme não consegue absorver glicose do intestino hospedeiro. Isso leva à paralisia e morte do parasita → esgotamento de energia. ● age quase exclusivamente no lúmen intestinal https://parasitologiaclinica.ufsc.br/index.php/info/conteudo/diagnostico/helmintoses-protozooses/parasitologico-fezes/ Albendazol ● Possui o mesmo mecanismo de ação do mebendazol entretanto possui absorção intestinal moderada, que pode ser aumentada com o consumo de alimentos gordurosos, essa absorção faz com que o medicamento tenha ação sistêmica aumentando sua eficácia e seus efeitos adverso ● atinge tecidos (fígado, SNC, pulmões) Epidemiologia ● No total, quase 740 milhões de pessoas em países rurais em desenvolvimento estão infectadas (fiocruz). com a grande maioria dos casos ocorrendo no Sudeste Asiático e na África Subsaariana ● No Brasil, há uma prevalência maior na região nordeste e em segundo lugar na região centro-oeste. ● No Brasil, mais de 80% das infecções ocorrem pelo N. americanus. ● Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Fiocruz Minas: amostra de ancilostomíase, a prevalência foi de 47,4%, em 1950, caindo para uma média de 0,3%, em 2013. Associou essa melhora á um aumento na cobertura da rede de esgoto (passando de 2,6%, em 1950, para 31%, em 2013, representando um aumento de 11,9 vezes.) - https://fiocruz.br/noticia/2023/08/estudo-aborda-reducao-de-casos-de-esquistossomose-e-ancilostomiase-no -brasil ● Prevalência de larva migrans visceral (LMV) e larva migrans cutânea (LMC) em solos de parques públicos da cidade de Redenção, estado do Pará, Brasil. Do total de 25 amostras dos cinco parques, 80,0% foram positivas para a presença de formas parasitárias, sendo 72,1% identificadas como LMC e 27,9% como LMV. Além disso, observou-se uma predominância de larvas filarioides de ancilostomídeos (58,8%) em relação ao restante das larvas identificadas. -http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-62232019000100011 Profilaxia ● Melhoria do saneamento básico ● Educação sanitária (uso de calçados, higiene alimentar) ● Desparasitação regular em áreas endêmicas ● Controle de animais domésticos (reservatórios e fontes de contaminação ambiental) Desenvolvimento de vacina ● Uma vacina humana contra ancilostomídeos está sendo desenvolvida pelo Instituto Sabin (parceria com a fiocruz) de Vacinas e está em fase 1 de testes clínicos. A vacina candidata é composta por dois antígenos recombinantes conhecidos, cada um dos quais é uma importante enzima parasitária necessária para que os ancilostomídeos utilizem com sucesso o sangue do hospedeiro como fonte de energia. O objetivo da vacina é induzir anticorpos antienzimáticos que reduzirão tanto a perda de sangue do hospedeiro quanto o número de ancilostomídeos aderidos ao intestino. - https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3988917/ https://fiocruz.br/noticia/2023/08/estudo-aborda-reducao-de-casos-de-esquistossomose-e-ancilostomiase-no-brasil https://fiocruz.br/noticia/2023/08/estudo-aborda-reducao-de-casos-de-esquistossomose-e-ancilostomiase-no-brasil http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-62232019000100011 https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3988917/ Análise do Caso Clínico 3 – 2025/1 Hipótese Diagnóstica Análise Clínica do Caso Paciente: Lactente de 2 mesesSintomas principais: Contexto epidemiológico relevante: Fisiopatologia dos sintomas lesões serpiginosas Tosse, sibilo pulmonar (síndrome de Loeffler) Vômitos Intermitentes Perda de peso Diarreia leve anterior Eosinofilia importante (4.900/μL) Por que tão elevada? Anemia microcítica hipocrômica (Hb 8,9 g/dL) Tipo da anemia: Fatores agravantes em lactentes: Ciclo de vida A. duodenale e N. Americanus. 🌱 1. Eliminação dos Ovos nas Fezes 🌡️ 2. Desenvolvimento no Ambiente 👣 3. Penetração na Pele do Hospedeiro 🩸4. Migração pelo Corpo 🪱 5. Estabelecimento no Intestino Delgado 🔄 Características Especiais do Ancylostoma duodenale Morfologia do Ancylostoma Duodenale e do Necator Americanus Vermes Adultos Morfologia dos Ovos Descrição Morfologia das Larvas 🔁 Resumo das Formas por Estágio Comparação Morfológica dos Ancylostoma spp. Diagnóstico laboratorial Exame de Feses 🧬 PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) 🧪 Hemograma Tratamento Mebendazol Mecanismo de ação: Albendazol Epidemiologia Profilaxia Desenvolvimento de vacina