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Processo Saúde-Doença Aline Andressa Matiello Processo Saúde-Doença 2 Introdução As condições de saúde de uma sociedade estão relacionadas, primeiramente, às questões individuais de cada pessoa, incluindo, por exemplo, idade e condições genéticas. Todavia, além desses fatores individuais, há outros fatores extrínsecos ao organismo, os quais podem interferir na incidência de doenças, assim como podem interferir nos níveis de saúde de uma comunidade. A ação desses fatores e a interação com os aspectos individuais podem gerar estímulos aos desenvolvimentos de patologias, levando o organismo ao adoecimento. Por conta disso, na prática dos profissionais de saúde, é imprescindível conhecer cada um desses fatores e como eles interferem nas condições de saúde das pessoas, de modo que possam estabelecer ações de saúde que interfiram positivamente nas condições de vida das pessoas. Essas ações podem ser desempenhadas pelos profissionais através de condutas voltadas à promoção da saúde, da educação em saúde, da prevenção de agravos e de reabilitação. Para fins de organização e melhoria no cuidado à saúde da população, no Brasil, essas ações são executadas em três diferentes níveis de atenção à saúde, os quais são organizados, de modo a promover um cuidado integral e longitudinal a toda a população. Com base nessas informações, neste conteúdo, iremos reconhecer como um organismo adoece, quais os fatores que podem contribuir com esse processo e, especialmente, como os serviços de saúde podem colaborar, de modo a melhorar a saúde da população. Objetivos da Aprendizagem Ao final do conteúdo, esperamos que você seja capaz de: • Reconhecer a Teoria da História Natural da Doença e as particularidades do período pré patogênese e de patogênese; • Compreender os conceitos aceitos atualmente sobre o processo de saúde- doença; • Identificar os níveis de atenção à saúde existentes no Brasil na atualidade. 3 Processo Saúde-Doença Ao atuar na área da saúde, é primordial que os profissionais de saúde reconheçam todos os aspectos relacionados ao processo de saúde e ao processo de adoecimento. Esse reconhecimento permite que eles compreendam as variáveis relacionados ao processo saúde doença, como são entendidas na atualidade e ainda como essas informações impactam na atuação profissional. História Natural da Doença Tanto a saúde, quanto a doença sempre estiveram presentes na relação do homem com o meio ambiente e com o meio social (SOLHA, 2018). Durante o passar dos anos, em cada época histórica, o processo de saúde e doença foi entendido de diferentes maneiras. Assim, os marcos históricos, as diferentes estruturas sociais, as condições econômicas, condições culturais e científicas, dentre outros fatores interferiram no entendimento do processo de saúde e de doença. Por isso, aos longos dos anos, diversas teorias foram produzidas, a fim de esclarecer o mecanismo pelo qual as pessoas passavam por um processo de adoecimento. Inicialmente, por exemplo, as doenças eram associadas a castigos divinos, ocasionados pelas pessoas não cumprirem com suas obrigações do ponto de vista moral e religioso em suas comunidades, estando atrelada a condições sobrenaturais (SOLHA, 2018). 4 Figura 01: Doenças causadas por castigos divinos Fonte: Freepik (2018). #PraCegoVer: Uma ilustração de uma cidade a noite, com fantasmas nas ruas. Ao longo dos anos, além dessa teoria mágica, a qual relaciona a doença ao sobrenatural, outras teorias tiveram destaque, como a Teoria dos Miasmas e a Teoria Bacteriológica, conforme você pode averiguar adiante. Teoria dos Miasmas Segundo essa teoria, a transmissão de doenças ocorria pelos “maus ares”, ou ares pútridos. Assim, acreditava-se que o ar das casas e das cidades eram infectados e, por isso, as doenças eram transmitidas (SOLHA, 2018). Teoria Bacteriológica Já essa teoria defendia que a doença tinha uma causa única: a infecção. Mas; não se considerava a influência de outros fatores no desenvolvimento da patologia (SOLHA, 2018). Outras teorias também foram criadas, porém, a mais aceita e utilizada até a atualidade é a Teoria da História Natural da Doença, a qual foi proposta, inicialmente, por Leavell e Clark, pesquisadores americanos que a elaboraram no ano 1965 (SOLHA, 2018). A figura a seguir ilustra adequadamente essa teoria. 5 Fatores ambientais que produzem ESTÍMULO à doença AGENTE DA DOENÇA (AGENTE ETIOLÓGICO) HOSPEDEIRO HUMANO Figura 02: História Natural da Doença Fonte: Wikimedia Commons (2011). #PraCegoVer: Um esquema com uma gangorra, sendo que, de um lado, o hospedeiro humano e, do outro, o agente da doença, e, ao centro, os fatores ambientais que produzem o estímulo a doença. A Teoria da História Natural da Doença explica que o processo de adoecimento é resultante da interação de três fatores principais: o ambiente, o hospedeiro e o agente da doença, gerando uma tríade (LEAVELL; CLARK, 1978). Nesse sentido, os fatores ambientais incluem tudo o que cerca o indivíduo. Os aspectos relacionados ao hospedeiro se referem às características humanas, como idade, gênero, condições prévias de saúde etc. Por fim o agente da doença se relaciona ao agente etiológico envolvido no processo de adoecimento. Desse modo, segundo essa teoria, a interação entre esses três fatores é o que determina o adoecimento. Para melhor compreensão, essa teoria explica o processo de adoecimento em duas etapas, as quais você pode conferir a seguir. 6 Período Pré-Patogênese e Patogênese: Conceitos e Principais Características A Teoria da História Natural da Doença define que esse processo de adoecimento acontece em dois períodos distintos, denominados de período pré-patogênese (ou também chamado de período pré-patogênico) e o período de patogênese (também chamado de período patogênico). A seguir, são descritas as características de cada um destes períodos. Período Pré Patogênese No período pré-patogênese, as manifestações clínicas da doença ainda não estão presentes, mas as condições para o seu aparecimento existem no ambiente e/ou no organismo da pessoa. Desse modo, esse período acontece antes da instalação da doença no organismo, caracterizando-se por uma fase em que há a interação entre os agentes patogênicos (fatores ecológicos, culturais, ambientais etc.) com o indivíduo, gerando um ambiente propício para o surgimento da patologia (SOLHA, 2018). Período de Patogênese Esse período começa com as primeiras alterações geradas pela ação dos agentes patogênicos sobre o organismo do indivíduo. Logo, essa fase se refere ao período em que a doença já está instalada e as alterações no organismo são iniciadas, havendo perturbações em nível celular, as quais evoluem posteriormente (PAIM, 2014). Sobre o período de patogênese, à medida que o processo de adoecimento segue, ela evolui, podendo apresentar diferentes desfechos (SOLHA, 2014), isto é, a presença de um defeito permanente (ou sequela), cronicidade da doença, a cura, ou a morte. 7 Figura 03: Doenças crônicas Fonte: PxHere (2017). #PraCegoVer: Um idoso com uma das mãos na cabeça, sentado em uma cadei- ra de rodas, sendo empurrada por outra pessoa. Como exemplo das duas fases que compõem a História Natural da Doença, pode-se citar o hábito do tabagismo. Fase Pré–Patogênica O cigarro é um agente patogênico que contribui para o surgimento de doenças, como o câncer de pulmão, por exemplo. Figura 04: Tabagismo Fonte: Pixabay (2015). #PraCegoVer: a imagem mostra um homem de perfil fumando. 8 Fase Patogênica O câncer de pulmão representa a fase patogênica, uma vez que o indivíduo começa a apresentar sinais e sintomas da doença. Figura 05: Câncer de pulmão Fonte: Publicdomainvectorr .org (2019). #PraCegoVer: a imagem mostra o uma ilustração anatômica do tronco e da face, destacando o sistema respiratório – pulmão e vias respiratórias. Portanto, identificar esses dois períodos do processo de adoecimento permite que os profissionais desaúde possam estabelecer medidas específicas em cada uma das fases. Processo Saúde-Doença O entendimento do processo saúde doença é considerado difícil, uma vez que se trata de uma condição complexa, a qual não pode ser explicada apenas a partir de único ponto de vista. Isso reafirma a ideia de que vários fatores atuam como desencadeadores de doenças, ou também que atuam na produção de saúde em uma sociedade. Esse entendimento da complexidade do processo saúde doença fez com que, ao longo dos anos, a definição de saúde fosse reformulada, trazendo novos conceitos que passaram a ser aceitos no decorrer do tempo. 9 Definição de Saúde A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como o completo bem-estar físico, social e mental, e não unicamente a ausência de doença (MOREIRA, 2018). Esse conceito aceito pela OMS ultrapassa o conceito aceito em anos anteriores, de que a saúde era apenas a ausência de doença. Desse modo, ao se falar em saúde, deve-se enfatizar que ela também compreende uma situação de plenitude que envolve três dimensões distintas, a dimensão física, a mental e a social. Dimensão Física Refere-se ao fato de que não há apenas a saúde de um órgão, mas sim do organismo como um todo, de forma completa. Dimensão Mental O indivíduo necessita de equilíbrio, entendimento, compreensão e entendimento dentro das situações de vida e do ambiente em que está inserido, de modo que a saúde mental auxilie na boa adaptação. Dimensão Social O indivíduo precisa se ajustar às exigências do meio, como condições socioeconômicas, de distribuição de renda e de oportunidades. Considerando esse conceito de saúde que envolve o bem-estar do indivíduo em todos os aspectos, é necessário que as ações em saúde também contemplem esses aspectos e não sejam apenas estratégias voltadas à melhoria das condições biológicas/físicas do organismo. Conceito Ampliado de Saúde Essas dimensões propostas pela OMS, ao se falar do conceito de saúde, leva em consideração que as condições de saúde de uma população vão além apenas da preocupação e da criação de estratégias de saúde voltadas apenas à dimensão física 10 dos indivíduos, isto é, as condições sociais e mentais também interferem no bem- estar global do indivíduo e, consequentemente, na sua saúde. Solha (2018) reforça que, atualmente, a saúde é tida como um metal social a nível mundial, uma vez que requer a ação de muitos outros setores da sociedade, incluindo os setores econômicos e sociais, que precisam atuar conjuntamente ao setor da saúde. Determinantes Sociais de Saúde A partir de 1960, vários pesquisadores passaram a questionar as teorias que explicavam, até então, processo de saúde e doença, uma vez que algumas delas não respondiam completamente as necessidades das pessoas (SOLHA, 2018). Além disso, o conceito de saúde proposto pela OMS trazia consigo a ideia de que a saúde é determinada por alguns fatores ligados às condições sociais, econômicas, culturais, étnicas, raciais, psicológicas, ambientais e comportamentais, os quais influenciam na saúde tanto de forma positiva, quanto negativa (MOREIRA, 2018). Foi a partir desses questionamentos e das informações trazidas pela OMS que surgiu a Teoria da Determinação Social do Processo Saúde-Doença. Nessa perspectiva, acredita-se que o desenvolvimento de problemas de saúde, ou a produção de saúde em uma população não dependem apenas das questões biológicas de cada pessoa, mas sim da ação destes outros fatores sobre o organismo do indivíduo. Tais fatores fazem parte da teoria da Determinação Social do Processo Saúde-Doença, recebendo o nome de determinantes sociais de saúde (MOREIRA, 2018). O papel dos determinantes sociais de saúde pressupõe, desse modo, que a saúde é complexa, multidimensional e dinâmica, porque eles influenciam de diferentes maneiras, sem desconsiderar o fato de que o ambiente em que a pessoa está inserida não é estático, sofrendo modificações com frequência. A figura a seguir demonstra esses determinantes sociais da saúde, conforme o modelo sugerido por Dahlgren e Whitehead. 11 CONDIÇÕES SOCIOECONÔMICAS, CULTURAL E AMBIEM TIAS GERAIS REDES SOCIAIS E COMUNITÁRIAS ESTILO DE VIDA DOS INDIVÍDUOS Produção agrícola e de alimentos Educação Habitação Ambiente de trabalho Desemprego Água e esgoto Serviços sociais e saúde CONDIÇÕES DE VIDA E DE TRABALHO IDADE SEXO E FATORES HEREDITÁRIOS Figura 06: Determinantes sociais de saúde Fonte: Adaptada de Carrapato, Correa e Garcia (2017). #PraCegoVer: Um esquema em meio círculo, no centro uma imagem com algumas pessoas e a descrição de idade, sexo e fatores hereditários. Ao redor desse, alguns níveis com a descrição de estilo de vida dos indivíduos, redes so- ciais e comunitárias, condições de vida e trabalho e as condições econômicas, culturais e ambientais respectivamente. Aliás, Moreira (2018) reforça a ideia de que esses determinantes estabelecem uma relação de hierarquia entre si. Por isso, neste modelo, é possível entender que os fatores determinantes são dispostos em diferentes níveis. No centro do modelo, há os fatores individuais, ligados a gênero, idade e fatores genéticos. No primeiro nível, há os fatores relacionados aos comportamentos e ao estilo de vida adotados pelas pessoas. Como comportamentos nocivos à saúde das pessoas, pode-se destacar o hábito do tabagismo e etilismo. A figura a seguir exemplifica outros hábitos nocivos à saúde, como a inatividade física e o consumo de alimentos ricos em açúcares, gordura e sal. 12 Figura 07: Hábitos nocivos à saúde Fonte: Freepik (2018). #PraCegoVer: Ilustração de um homem obeso sentado num sofá segurando o controle remoto e ao lado uma mesa com pipoca e refrigerante. Ao lado, uma mulher obesa sentada no sofá comendo um sanduiche, e ao lado uma mesa com um cesto de pães e biscoitos. No segundo nível, existem os fatores relacionados a apoio sociais e comunitário, considerados importantes para as condições de saúde de uma sociedade. Acima dele, estão os fatores relacionados às condições de vida e de trabalho das pessoas, como ambiente de trabalho, acesso à educação, alimentação, água potável e esgoto, condições adequadas de habitação e disponibilidade de emprego. Alimentação O acesso a quantidade adequada de alimentos e de qualidade é essencial para a saúde humana, ou seja, ações voltadas ao estímulo de práticas alimentares saudáveis e a práticas adequadas de produção de alimentos auxiliam na promoção e proteção da saúde. Figura 08: Alimentação saudável Fonte: PxHere (2017). #PraCegoVer:Uma imagem de frutas e vegetais: cenoura, pimentão morangos, nozes, temperos, etc. 13 Saneamento Básico Envolve um conjunto de serviços de abastecimento de água, limpeza urbano, manejo e tratamento de resíduos sólidos. A falta de acesso à água de qualidade e ao serviço de tratamento de esgoto influencia diretamente nas condições de saúde, como doenças infecciosas. Figura 09: Água potável Fonte: Freepik (2021 ). #PraCegoVer: Ilustração de uma torneira gigante derramando água e um homem ao lado com os braços estendidos. No nível mais distal, encontram-se os determinantes relacionados aos fatores econômicos, culturais e ambientais, os quais são considerados fatores macrodeterminantes, uma vez que possuem capacidade de influenciar todos os demais níveis. Para compreender um pouco mais os fatores macrodeterminantes de saúde, o quadro a seguir expõe alguns exemplos de cada um desses fatores. 14 Determinantes Exemplos Econômicos Situação econômica do país, renda per capita, rendimentos, situações de emprego e renda, dentre outros. Ambientais Condições dos ambientes urbanos e rurais, poluição (agua, ar, solo), qualidade dos alimentos, gestão do lixo, fontes de energia utilizadas, aquecimento global, biodiversidade, dentre outros. Sociais Inclusão social, condições de visa, condições de educação e trabalho, cultura, estilos de vida adotados, comportamentos em relação a saúde,etnia etc. Quadro 01: Macrodeterminantes de saúde Fonte: Adaptado de Carrapato, Correa e Garcia (2017). Esses determinantes que interferem de forma negativa, ou positiva sobre o processo saúde-doença propõem como estratégia de melhoria das condições de saúde da população; a modificação das estruturas sociais, econômicas e políticas; considerando isso, parte fundamental para se alcançar a saúde da população (SOLHA, 2018). Um exemplo claro dessa influência é que, ao garantir melhores condições de trabalho, de transporte, o acesso igualitário aos serviços de saúde e ainda, a garantia de condições ambientais favoráveis, permite que as pessoas tenham melhores condições de vida, o que impacta por sua vez em melhores níveis de saúde. Isso reforça a necessidade de ações voltadas a todos os determinantes, e não apenas ações pautadas na preocupação com as condições de saúde individuais de cada pessoa. Moreira (2018) enfatiza que os determinantes econômicos, culturais e ambientais de saúde são influenciados por políticas destinadas a vários setores da sociedade, as quais podem contribuir com melhorias das condições de vida e de trabalho das pessoas (MOREIRA, 2018). Mas, na prática, como as condições econômicas podem interferir nas condições de saúde de uma população? Um exemplo disso pode ser a presença de uma região economicamente mais desfavorável, o que pode gerar escassez de recursos financeiros para investimentos na comunidade, como investimentos no setor da saúde; dificultando o acesso da população dessa região a exames, diagnóstico, consultas etc., contribuindo negativamente para as condições de saúde (MOREIRA, 2018). Reflita 15 A hierarquia entre os determinantes que atuam sobre as condições de saúde apresenta particularidades. Isso porque, ela leva em consideração que os fatores sociais, econômicos e políticos incidem sobre a saúde da população, mas que essa relação não é de causa e efeito, ou seja, não é uma relação direta. Isso porque, enquanto os fatores individuais, a exemplo das condições biológicas e genéticas, ajudam a identificar as pessoas que estão mais vulneráveis ao risco de cercas doenças, os determinantes sociais ajudam a compreender o grau que as condições sociais, econômicas e ambientais exercem sobre o risco de adoecimento. 1. Ações Sobre Determinantes Econômicos Segundo Campos et al. (2016), os melhores níveis de saúde são encontrados em países com menos desigualdades econômicas e não em países mais ricos. Por isso, melhorar a distribuição de renda é uma das principais ações para minimizar as iniquidades econômicas e melhorar a saúde da população. Figura 10: Distribuição de renda Fonte: PxHere (2017). #PraCegoVer: Na figura há uma mão segurando várias cédulas de reais, de cinco, dez, vinte e cinquenta reais. 16 2. Ações Sobre Determinantes Sociais Possibilitar que as pessoas tenham condições dignas de vida, com acesso ao básico é uma das formas de se melhorar os níveis de saúde da população. Os benefícios sociais como aposentadoria e auxílio desemprego são exemplos destas ações. Figura 11: Aposentadoria Fonte : PxHere (2017). #PraCegoVer: Na figura há um homem idoso com chapéu e óculos escuros. A forte influência desses fatores leva a compreensão de que as condições em que as pessoas nascem e vivem e o modo como trabalham envelhecem interferem na manutenção da saúde, ou no desenvolvimento de um processo de adoecimento. A figura a seguir exemplifica um ambiente de populações ribeirinhas, com algumas dificuldades em relação a acesso a água de qualidade e a serviços de esgoto. 17 Figura 12: Moradias ribeirinhas Fonte : Wikimedia Commons (2013). #PraCegoVer: Duas casas construídas na beira de um rio, com mata ao redor. Considerando esses fatores ainda, é compreensível a necessidade de que as ações ofertadas a população devem respeitar os impactos desses fatores sobre a saúde das pessoas. Para Souza (2017), as ações planejadas e executadas em prol da saúde da população devem partir do pensamento ampliado de saúde, lembrando que cada problema, ou demanda de saúde normalmente é resultante de diversos fatores determinantes. Nesse sentido, há necessidade de realização de ações em prol da saúde da população que envolvam a saúde ambiental através de ações destinadas à garantia do tratamento do esgotamento sanitário, à melhoria da qualidade da água, ao descarte adequado dos resíduos e à prevenção da poluição ambiental. 18 Figura 13: Poluição ambiental Fonte: Pixabay (2016).Erro! A referência de hiperlink não é válida. #PraCegoVer: Ilustração do mar recebendo lixo (garrafas, latas, plástico) e de um navio com vazamento de óleo. Para os profissionais de saúde, compreender os conceitos e as definições existentes acerca do processo saúde-doença e qual delas é a mais aceita atualmente é essencial, uma vez que é a partir desses conceitos e da compreensão de sua importância que o profissional poderá atuar de forma mais ativa dentro dos serviços de saúde. Níveis de Atenção à Saúde No Brasil, todas as políticas, serviços e programas de saúde são organizados em níveis de atenção à saúde, que compreendem o nível de atenção à saúde primário, o secundário e o terciário (MARQUES, 2017). 19 Nível de Atenção Primário A atenção primária, também chamada de atenção básica, é caracterizada como o primeiro nível de atenção à saúde, sendo considerada a porta de entrada do paciente no Sistema Único de Saúde. Nesse nível, as ações realizadas são de baixa complexidade e podem ser realizadas nas Unidades Básicas de Saúde, no Programa Saúde da Família e no Núcleo Ampliado de Apoio a Saúde das Famílias e Atenção Básica (NASF- AB). Figura 14: Unidade básica de saúde Fonte: Wikimedia Commons (2019). #PraCegoVer: Ilustração de uma construção, com portões, corredor de entrada, rampas de acesso, um banco e uma fachada escrita unidade de saúde da família. Os profissionais que atuam nessa área podem possuir diferentes especialidades básicas (enfermagem, pediatria, clínica médica, obstetrícia, ginecologia, psicologia, odontologia, serviço social e fisioterapia, cujo objetivo é garantir a universalidade do acesso aos serviços de saúde. As ações realizadas pelos profissionais nesse nível de atenção devem contemplar a educação em saúde, promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos e reabilitação dos pacientes. 20 Ações de Promoção e de Educação em Saúde As ações de educação e saúde e promoção de saúde podem ser realizadas pelos profissionais de saúde incluindo o fisioterapeuta, junto aos serviços de saúde de nível primário. Como exemplo, pode-se citar as ações voltadas ao estímulo à realização de atividade física regular, reduzindo, assim, os níveis de sedentarismo da população. Essa ação pode ser destinada a diferentes faixas etárias, desde que respeitado as particularidades de cada população e pode contribui também para a redução de outros fatores de risco, como a obesidade e o sobrepeso. Figura 15: Estímulo à atividade física Fonte: Freepik (2019). #PraCegoVer: Cinco mulheres sentadas no chão de uma sala, sobre um colchonete, com os braços elevados e as pernas cruzadas. Ações de Prevenção em Saúde As ações de prevenção em saúde podem ser direcionadas, por exemplo à a orientação para a adoção de postura de trabalho mais adequadas, prevenindo lesões. Figura 16: Postura laboral Fonte: Freepik (2021). #PraCegoVer: ilustração de um homem sentado em frente a um computador. 21 Ações de Tratamento e Reabilitação As ações de reabilitação e tratamento são destinadas a pessoas com alguma disfunção já instalada, como o tratamento de uma patologia ortopédica . Figura 17: Tratamento ortopético Fonte: Freepik (2021). #PraCegoVer: Mulher sentada em uma bola suíça com o braço esquerdo elevado. Atrás dela, uma fisioterapeuta, com as mãos locionadas no ombro e no antebraço da mulher. Acerca dessas ações desempenhadas no nível de atenção primário, deve-se destacar que essas ações podem ser destinadasa nível individual, como a nível coletivo (MARQUES, 2017). Nível de Atenção Secundário Segundo Marques (2017), o nível secundário engloba a necessidade de profissionais especializados associados à utilização de recursos tecnológicos de apoio diagnóstico e terapêutico, incluindo ações como exames e procedimentos especializados (por exemplo, a ultrassonografia e a angioplastia). Quanto ao local de realização das ações, elas podem ser realizadas em unidades de pronto atendimento, em clínicas e consultórios de média complexidade. 22 Nível de Atenção Terciário Já o nível terciário de ação, estão as medidas de alta complexidade, que necessitam de profissionais altamente qualificados e recursos tecnológicos de alto custo, permitindo, assim, que a população tenha acesso a serviços mais qualificados. Conforme aponta Marques (2017), os hospitais de grande porte, são exemplos disso, assim como os procedimentos mais complexos, como no caso de procedimentos de neurocirurgia, hemodiálise, colocação de marca-passo etc. Figura 18: Hospital Fonte: Plataforma Deduca (2021). #PraCegoVer: ilustração de um grande hospital, numa vista superior; com esta- cionamento e arvores nas laterais. O fisioterapeuta pode atuar no nível de atenção à saúde terciário através de ações realizadas em diferentes espaços hospitalares, como nas enfermarias e nas Unidades de terapia Intensiva (UTI), prestando assistência, por exemplo, à pacientes que necessitam de intervenções cirúrgicas. Nos três níveis de atenção à saúde, diferentes profissionais atuam de modo a garantir a qualidade da atenção à saúde. Dentre esses profissionais, há os fisioterapeutas que podem desempenhar suas funções nos três níveis de atenção à saúde (MARQUES, 2017). 23 Nível Primário O fisioterapeuta atua através de ações de promoção à saúde e de prevenção, com grupos de apoio de prevenção de doenças crônicas, a pacientes com hipertensão arterial, doença pulmonar obstrutiva crônica etc. Nível Secundário Nesse nível, o fisioterapeuta atua em clínicas e consultórios, como, por exemplo, no atendimento de pacientes com lesões ortopédicas e neurológicas. Nível Terciário O fisioterapeuta atua no atendimento de pacientes em unidade de terapia intensiva, por exemplo. Essa organização dos níveis de atenção à saúde permite, dentre outros benefícios, a melhoria da qualidade dos atendimentos aos pacientes, uma vez que, em cada um desses níveis, são encontrados serviços de assistência à saúde específicos, de modo que, juntos, possam atender as demandas de saúde da população. 24 Conclusão Saúde Não se refere a ausência de doença! O conceito atual de saúde a entende como um processo que permite o completo bem-estar a nível físico, a nível mental e social, de modo que a garantia desse bem-estar nessas três dimensões contribui com a produção de saúde em uma população. Fonte: PxHere (2017). #PraCegoVer: Um homem e uma mulher sentados em um banco, de frente para um gramado e um lago. Determinantes Sociais de Saúde Contemplam todos os fatores que interferem na maneira como as pessoas vivem, trabalham e envelhecem. Incluem desde as condições de moradia, de renda, de educação, os hábitos e comportamentos de vida, as relações sociais, até as condições individuais, relacionadas à questão biológica e genética. Fonte: Freepik (2015). #PraCegoVer: Um homem e uma mulher jovens, com roupas esportivas, correndo em uma rua, com arvores na lateral. 25 Níveis de atenção à saúde Todas as ações desenvolvidas em prol da saúde da população ocorrem em diferentes serviços de saúde. No Brasil, o Sistema Único de Saúde organiza esses serviços em três níveis de atenção à saúde (primário, secundário e terciário), organizados conforme demandas de complexidade crescentes. Fonte: Freepik (2020). #PraCegoVer: Ilustração de um grande hospital com uma ambulância na lateral. Figura 22: Figura que ilustre o conteúdo Fonte: Plataforma Deduca (2021). #PraCegoVer: Oito pessoas, incluindo homens e mulheres, adultos jovens e idosos, segurando equipamento de ginástica, acessórios esportivos e alimen- tos saudáveis. 26 Referências CAMPOS, G. W. S. et al. Tratado de saúde coletiva. 2. ed. São Paulo: Editora Hucit, 2016. CARRAPATO, P.; CORREA, P.; GARCIA, B. Determinante da saúde no Brasil: a procura da equidade na saúde. Saúde Soc., São Paulo, v. 26, n. 3, p. 676-689, 2017. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/sausoc/2017.v26n3/676-689/. Acesso em: 10 abr. 2023. LEAVELL, H; CLARK, G. Medicina preventiva. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil. Rio de Janeiro: Fename, 1978. MARQUES, M. R. Introdução à profissão: fisioterapia. Porto Alegre: SER – SAGAH, 2017. MOREIRA, T. C. Saúde Coletiva. Porto Alegre: SER – SAGAH, 2018. PAIM, J. S. Saúde coletiva: teoria e prática. Rio de Janeiro: MedBook, 2014. SOLHA, R. K. T. Saúde coletiva para iniciante: políticas e práticas profissionais. 2. ed. São Paulo: Erica, 2018. SOUZA, M. C. M. R. Enfermagem em saúde coletiva: teoria e prática. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. https://www.scielosp.org/article/sausoc/2017.v26n3/676-689/