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33 Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 19 /0 1/ 20 12 PRÁTICA DE ENSINO – INTRODUÇÃO À DOCÊNCIA Não adiantou. Ignoramos a solicitação e continuamos firmes na conversa. Foi aí que o velho professor perdeu a paciência e deu a maior bronca que eu já presenciei. — Prestem atenção porque eu vou falar isso uma única vez, disse, levantando a voz, e um silêncio carregado de culpa se instalou em toda a sala. E o professor continuou: — Desde que comecei a lecionar, isso já faz muitos anos, descobri que nós, professores, trabalhamos apenas 5% dos alunos de uma turma. Em todos esses anos observei que de cada 100 alunos, apenas 5 são realmente aqueles que fazem alguma diferença no futuro; apenas 5 se tornam profissionais brilhantes e contribuem de forma significativa para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os outros 95 servem apenas para fazer volume; são medíocres e passam pela vida sem deixar nada de útil. O interessante é que esta porcentagem vale para quase tudo no mundo. Se vocês prestarem atenção, notarão que, de 100 professores, apenas 5 são aqueles que fazem a diferença; de 100 garçons, apenas 5 são excelentes; de 100 motoristas de táxi, apenas 5 são verdadeiros profissionais. E podemos generalizar ainda mais: de 100 pessoas, apenas 5 são verdadeiramente especiais. É uma pena muito grande não termos como separar esses 5% do resto, pois, se isso fosse possível, eu deixaria apenas esses alunos especiais nesta sala e colocaria os 95% restantes para fora, e então teria o silêncio necessário para dar uma boa aula e dormiria tranquilo à noite, sabendo ter investido nos melhores. Mas, infelizmente, não há como saber quais de vocês são esses 5% de alunos especiais. Só o tempo é capaz de mostrar isso. Portanto, terei de me conformar e tentar dar uma aula para esses alunos especiais, apesar da confusão que estará sendo feita pelos 95% restantes. Claro que cada um de vocês sempre pode escolher a qual grupo pertencerá. Obrigado pela atenção e vamos à aula de hoje. Nem preciso dizer o silêncio que ficou na sala e o nível de atenção que o professor conseguiu após esse discurso. Aliás, a bronca tocou fundo em todos nós, pois, depois desse dia minha turma teve um comportamento exemplar em todas as aulas de Fisiologia, durante todo o semestre; afinal, quem gostaria de espontaneamente ser classificado como fazendo parte dos 95% que o professor gostaria de ver longe dali? Hoje não me lembro de muita coisa das aulas de Fisiologia, mas a bronca do professor eu nunca mais esqueci. Para mim, aquele professor foi um dos 5% que fizeram a diferença em minha vida. De fato, percebi que ele tinha razão, e desde então tenho feito de tudo para ficar sempre no grupo dos 5%, mas, como ele disse, não há como saber se estamos indo bem ou não; só o tempo dirá a que grupo pertencemos. Contudo, uma coisa é certa: se não tentarmos ser especiais em tudo o que fazemos, se não tentarmos fazer tudo o melhor possível, seguramente faremos parte da turma do resto. (Autor Desconhecido) 34 PRÁTICA DE ENSINO – INTRODUÇÃO À DOCÊNCIA Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 19 /0 1/ 20 12 7.9.1 Principais questões para reflexão • Será mesmo que 5% das pessoas que existem fazem a diferença? Isto não é pouco? • Será mesmo que 5% das pessoas que existem fazem a diferença? Isto não é muito? • Será possível “trocar de grupo” com o passar do tempo? • O que fazer para “trocar de grupo”? • Este texto estimula você a continuar ou age no sentido contrário? • O raciocínio do velho professor, de trabalhar para os 5%, está correto? 7.10 O Homem e o Mundo Um cientista vivia preocupado com os problemas do mundo e estava resolvido a encontrar meios de respostas para suas dúvidas. Certo dia, seu filho de sete anos invadiu o seu santuário decidido a ajudá-lo a trabalhar. O cientista, nervoso pela interrupção, pediu que o filho fosse brincar em outro lugar. Vendo que seria impossível removê-lo, o pai procurou algo que pudesse ser oferecido ao filho com o objetivo de distrair sua atenção: deparou-se com o mapa do mundo, o que procurava. Com o auxílio de uma tesoura, recortou o mapa em vários pedaços e, junto com um rolo de fita adesiva, entregou ao filho dizendo: — Filho, você gosta de quebra-cabeças? Então vou lhe dar o mundo para consertar. Aqui está o mundo todo quebrado. Veja se consegue consertá-lo bem direitinho! E faça tudo sozinho. Então, calculou que a criança levaria dias para recompor o mapa. Passadas algumas horas, ouviu a voz do filho que o chamava calmamente. — Pai, pai, já fiz tudo! Consegui terminar tudinho. A princípio o pai não deu crédito às palavras do filho. Seria impossível na sua idade ter conseguido recompor um mapa que jamais havia visto. Relutante, o cientista levantou os olhos de suas anotações, certo de que veria um trabalho digno de uma criança. Para sua surpresa, o mapa estava completo. Todos os pedaços haviam sido colocados nos devidos lugares. Como seria possível? Como o menino havia sido capaz? — Você não sabia como era o mundo meu filho, como conseguiu? 35 Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 19 /0 1/ 20 12 PRÁTICA DE ENSINO – INTRODUÇÃO À DOCÊNCIA — Pai, eu não sabia como era o mundo, mas quando você tirou o papel da revista para recortar, eu vi que do outro lado havia a figura de um homem. Tentei, mas não consegui. Foi aí que me lembrei do homem, virei os recortes e comecei a consertar o homem que eu sabia como era. Quando consegui consertar o homem, virei a folha e vi que havia consertado o mundo. (Autor desconhecido) 7.10.1 Principais questões para reflexão • Comente a frase: “Quando o homem resolver o problema entre homens e homens, aí estará pronto para resolver os problemas entre homens e mundo”. • Você está preparado para aprender com uma criança? Afinal, isto é o inverso do que a educação pensa que faz, ou seja, é a geração mais nova ensinando a geração mais velha. • Você pretende dedicar tempo para que seus futuros alunos se manifestem e, assim, você aprenda com eles? Ou não acha isto prudente? 7.11 Professores Reflexivos ... a narrativa de como a experiência concreta de turista me fez pensar em como pode se sentir o aluno, o estagiário ou o professor que chega, pela primeira vez, a uma escola que não conhece... Cheguei ao hotel, vinda do aeroporto. Eram duas e meia da tarde. Situado no característico nordeste brasileiro, o hotel era o exemplo bem acabado da globalização. Pela ausência, quase total, de marcas da civilização local, poderia situar-se em qualquer parte do mundo. A primeira informação que me foi dada dizia-me que, apesar de serem duas e meia da tarde, eu não podia ocupar o apartamento. Não estava arrumado ainda. Podia preencher a ficha de entrada, deixar as bagagens no hall e ir almoçar. “Logo, logo” comunicariam, quando estivesse pronto. E assim tentei dirigir-me ao primeiro piso onde deveria encontrar o restaurante para satisfazer o meu apetite motivado pelo atraso de um voo que, de curto, não deu direito a refeição nem sequer o refrigerante. À míngua de informação da recepcionista, e desconhecendo que o piso da entrada era o terceiro, não me foi fácil encontrar o restaurante no primeiro piso. Culpa minha, sem dúvida. O meu constructo de que, normalmente, as recepções se encontram no piso zero, cegou-me para a hipótese de que, para ir para o primeiro, em vez de subir, era preciso descer. 36 PRÁTICA DE ENSINO – INTRODUÇÃO À DOCÊNCIA Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : M ár ci o - 19 /0 1/ 20 12 Mas não tinha ficado mal à recepcionista uma informação menos exígua, ainda por cima expectável num país e numa região onde os autóctones são comunicativos por natureza. Nestes momentos iniciais, eu ainda não tinha percebido que já não me encontrava no país da comunicação, mas sim num hotel standard, igual a tantos outros por esse mundo além, incrustado numa cultura que não acolheu e daqual se alheou. Alheamento que não me permitiu usufruir dos sabores típicos, da arte indígena, do calor humano característico das gentes nordestinas. Nem deixou que me tratassem pelo meu nome, que me colocassem logo na mão um mapa da cidade, que me informassem sobre o que poderia visitar. Vinda de outros hotéis no mesmo país, onde eu era “a senhora Isabel”, onde, sem que eu tivesse pedido ou sequer insinuado, o restaurante abriu mais cedo para que eu pudesse tomar o café da manhã antes de partir para o aeroporto, onde a espontaneidade do empregado o leva a dizer-me, na sua atenção à pessoa do hóspede: “pode levar alguma coisa para comer, pois quando se vai viajar às vezes até dá fome”. Ou, num outro, em que, num dia de calor, me entra pelo quarto adentro, logo após a chegada, uma grande jarra de suco e um magnífico prato de frutos tropicais. E onde as refeições cheiravam e sabiam ao Brasil. Vinha mal habituada, habituada a ser pessoa e a ter a informação de que necessitava para me sentir “em casa”. Tinha passado a ser um número, descaracterizada, com tratamento indiferenciado, dentro de um edifício e numa organização onde tudo estava estandardizado, em contraste com a originalidade da natureza e a pessoalidade das gentes e das culturas. Mas... se já estive em tantos hotéis deste tipo, por que estranhar agora? O que me fez sentir um número, um no meio de tantos outros? Creio que duas ordens de razões podem explicar o meu sentimento desta vez. Ambas têm a ver com as experiências sofridas nos dias anteriores. Este episódio tem, pois, um valor experiencial sobre o qual “me deitei a refletir”, tentando, a partir dele, aprofundar o meu conhecimento sobre a vida. Em primeiro lugar, eu vinha de proferir duas palestras sobre educação em que tinha abordado o tema da refletividade, da contextualização, da pessoalidade, da cidadania, da comunicação. Numa delas tinha situado o tratamento destes temas no contexto da sociedade da informação globalizante em que vivemos. Em segundo lugar, vinha de contextos em que se valorizava o local, o único, o expressivo, o pessoal culturalmente socializado. Contextos que me socializaram na cultura autóctone e me trouxeram o encanto de aprender com aquilo que para mim era novo. Trazia expectativas de continuidade. Encontrei o dejà vu. A reflexão sobre esta minha experiência concreta não me pode levar a generalizar a partir do que foi episódico. Eu sei. Mas suscitou em mim algumas inquietações enquanto cidadã do mundo e enquanto educadora.